Entre os dias 14 e 21 de dezembro, o Brasil celebra a Semana de Mobilização Nacional para Doação de Medula Óssea, um período dedicado a informar, conscientizar e incentivar novos voluntários a se cadastrarem como possíveis doadores. A data chama a atenção para um gesto que pode representar a única chance de cura para milhares de pessoas acometidas por doenças oncológicas e hematológicas graves, como linfoma, leucemia e mieloma, e por enfermidades benignas, como anemia falciforme, entre outras.
O Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) destaca o significativo avanço da participação da população brasileira nessa causa essencial para a vida. Atualmente o terceiro maior registro de doadores voluntários do mundo, o Redome consolida o Brasil como referência em solidariedade e engajamento social.
Em pouco mais de uma década, o número de brasileiros cadastrados mais que dobrou. Em 2010, eram 1.983.105 doadores registrados; já em 2024, esse número chegou a 4.059.877. Apenas no último ano, o Redome contabilizou 138.692 novos cadastros, refletindo maior conscientização e mobilização em torno da importância do gesto, que muitas vezes representa a única esperança de cura para pacientes com doenças hematológicas graves.
O ritmo de adesão continua forte em 2025. Até novembro, 109.183 novos doadores ingressaram no registro. A distribuição regional mostra que o Sudeste lidera o engajamento, com 44.855 novos registros, seguido pelo Nordeste (31.145) e Sul (14.389). Neste cenário, Minas Gerais se destaca como a segunda posição em número de cadastros, atrás apenas de São Paulo.
O esforço coletivo se soma ao trabalho realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo dados divulgados neste ano pelo Ministério da Saúde, em 2024 foram realizados cerca de 30 mil transplantes no país, sendo 3.743 transplantes de medula óssea.
Chance de compatibilidade é de 1 em 100 mil
Mesmo diante dos números positivos, existe um desafio importante: fazer com que mais vidas sejam salvas com o transplante de medula, já que a taxa de incompatibilidade é altíssima. A chance de uma pessoa doente encontrar um doador de medula compatível é de 1 em 100.000. a depender do perfil genético do paciente.
Embora a doação de medula seja comumente associada ao transplante, o processo começa muito antes — no laboratório. É ali que é realizada a tipagem HLA, um exame simples que identifica a compatibilidade genética entre doadores e pacientes e torna possível encontrar pessoas aptas a doar medula óssea. Para mudar essa realidade, é fundamental ampliar o número de pessoas que realizam a tipagem HLA — especialmente no Brasil, país com grande diversidade genética.
De acordo com o hematologista Bruno Cangussu, da Afya Montes Claros (MG), .quanto mais pessoas cadastradas, maiores as chances de encontrar doadores compatíveis para os pacientes que necessitam realizar o transplante alogênico de medula óssea. “Este procedimento pode ser a cura de várias doenças como leucemia, linfomas, falências medulares e até mesmo algumas doenças da hemoglobina como a doença falciforme”, ressalta.
O especialista lembra que a busca por compatibilidade não é tão simples quanto encontrar alguém com o mesmo tipo sanguíneo. “É como se cada pessoa tivesse uma combinação de dez números que formam um código, e apenas outra pessoa com o mesmo código (ou ao menos muito parecido) pudesse doar a medula. Quanto maior a semelhança entre esses códigos, menor é a chance de rejeição. Por isso, encontrar doadores realmente compatíveis é tão difícil”, conclui o hematologista.
Como ampliar o acesso ao transplante de medula óssea no Brasil?
A Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) e a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE) elaboraram um documento colaborativo com propostas para estruturar, ampliar e qualificar o acesso ao transplante de medula óssea (TMO) no país.
Elaborado em conjunto com a Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) e a Associação da Medula Óssea (AMEO), o material reúne recomendações factíveis que podem ser implementadas com prioridade pelo Ministério da Saúde.
Para o professor doutor Carmino de Souza, diretor científico da ABHH, a articulação entre médicos, sociedade e gestores públicos é essencial para o avanço do cuidado em saúde. “De modo geral, o Sistema Único de Saúde (SUS) cobre os procedimentos essenciais. Ele oferece muita coisa. Mas estamos trabalhando para que o sistema público ofereça mais e melhor, principalmente para que possamos atender os pacientes com equidade”, destacou.
Entre os principais pontos estão:
- O desenvolvimento de novos centros de transplante em estados que ainda não dispõem do serviço, como Sergipe e Maranhão;
- A criação de uma política nacional de regulação de leitos, coordenada pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT);
- E o estabelecimento de um programa permanente de formação em TMO para médicos e profissionais de saúde, com foco no manejo da doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH)
O documento foi entregue ao diretor do Departamento de Atenção ao Câncer do Ministério da Saúde, José Barreto, durante o Congresso Brasileiro de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (HEMO 2025), que reuniu mais de 8 mil especialistas no final de outubro, em São Paulo.
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Doação não envolve a medula espinhal e não traz riscos de paralisia
Conheça alguns mitos e verdades sobre o transplante de medula óssea
Infelizmente, ainda existem muitos mitos e receios que afastam potenciais doadores. O hematologista Bruno Cangussu ressalta que muitas pessoas têm receio de se cadastrar como doadores de medula óssea por imaginarem que o procedimento é muito doloroso.
Também é comum acharem que a doação pode causar fraqueza ou trazer sequelas, o que não é verdade. Muitas pessoas confundem a medula óssea, que é um tecido esponjoso dentro dos ossos responsável por produzir células do sangue, com a medula espinhal localizada na coluna vertebral. Essa confusão gera medo desnecessário, pois a doação não envolve a medula espinhal e não traz riscos de paralisia”, complementa o especialista.
Para esclarecer as principais dúvidas, a hematologista Camila Gonzaga, médica do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), responde às perguntas mais frequentes sobre o assunto.
1. Só é possível doar medula óssea para alguém da família?
Mito. Embora a compatibilidade entre familiares seja maior, doadores não aparentados também podem ser compatíveis por meio do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). “A compatibilidade é verificada por meio de um exame de tipagem HLA, e a doação pode ser feita por um voluntário cadastrado em bancos de dados nacionais e internacionais”, explica a médica.
2. Qual é a idade ideal para se cadastrar?
A faixa etária ideal é entre 18 e 35 anos, pois as células-tronco de pessoas mais jovens tendem a ter melhor qualidade para o transplante. Segundo Dra. Camila, o limite varia conforme o tipo de doador:
– Aparentado (familiar): Não há limite absoluto; pessoas de 60 ou até 70 anos podem ser consideradas se estiverem saudáveis.
– Não-aparentado (voluntário de registro): O limite prático é 60 anos para permanecer no REDOME.
3. A doação é dolorosa?
Muito menos do que as pessoas imaginam. Hoje existem dois métodos:
– Punção direta da medula óssea: procedimento de cerca de 90 minutos, sob anestesia geral. Pode haver leve dor local nos dias seguintes, controlada com analgésicos.
– Aférese de sangue periférico (o método mais comum): semelhante a uma doação de sangue. O doador usa por alguns dias uma medicação que estimula a liberação de células-tronco. No dia da coleta, o sangue passa por uma máquina que separa essas células.
“No caso da punção direta, nos dias seguintes, é comum sentir uma dor localizada leve, similar a um desconforto de uma queda ou de um esforço físico intenso, que é perfeitamente controlada com analgésicos comuns e desaparece em poucos dias. Já a medicação utilizada na aférese pode causar sintomas leves e temporários, como dores ósseas e musculares semelhantes aos de uma gripe. O procedimento em si é indolor, exceto pela picada da agulha”, afirma a hematologista. Ela ainda salienta que a escolha do método da coleta de medula óssea é baseada em características do doador e da doença do paciente que receberá a doação, sendo sempre compartilhada a decisão com o doador.
4. O doador precisa ficar internado ou afastado do trabalho?
Depende do método:
– Punção direta: internação de 24 horas e afastamento por até uma semana para quem realiza atividades físicas intensas.
– Aférese: procedimento ambulatorial, dura de 3 a 4 horas, com retorno às atividades no dia seguinte.
5. A doação enfraquece o organismo do doador?
Não. A medula óssea tem alta capacidade de regeneração. “Em poucas semanas, a medula do doador está totalmente recuperada”, reforça a médica. Na punção direta, apenas uma pequena fração é coletada. Já na aférese, a medula nem chega a ser tocada, pois as células são retiradas do sangue.
6. Qual é a probabilidade real de ser chamado para doar depois do cadastro?
A probabilidade é baixa, de 1 em 100 mil a 1 em 400 mil, porque a compatibilidade HLA é extremamente específica. Por esse motivo, é raro uma pessoa ser doadora mais de uma vez. “Mas é justamente por isso que cada cadastro importa. Quanto mais pessoas no REDOME, maiores as chances de um paciente encontrar seu doador compatível”, finaliza a hematologista.
Passo a passo até a doação
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Cadastro e coleta: O primeiro passo é o doador procurar um Banco de Sangue para preencher uma ficha. Neste momento também é feita a doação de uma amostra de sangue.
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Análise: O sangue coletado passa por um exame de histocompatibilidade e já é feito o cadastro no REDOME (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea).
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Procura por compatibilidade: O sistema procura algum paciente que possa ter a medula compatível.
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Coleta: Com a compatibilidade assegurada, é feita a coleta.
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Transplante: O paciente com compatibilidade recebe o material por via intravenosa.
Requisitos para ser um doador de medula óssea
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Idade entre 18 e 35 anos: Faixa etária com melhor capacidade de regeneração da medula e menor risco ao doador.
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Bom estado geral de saúde: Garante segurança e redução de complicações durante o processo.
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Documento oficial com foto: Necessário para o cadastro e para garantir contato seguro caso haja compatibilidade.
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Ausência de doenças impeditivas: Inclui HIV, hepatites virais, alguns tipos de câncer, doenças autoimunes e condições hematológicas graves, assegurando a proteção do doador e do receptor.
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Amostra de sangue: Coleta de 5 ml para realização do teste de compatibilidade.
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