O medo do julgamento e a insegurança sobre o futuro foram os primeiros sentimentos que surgiram quando Nicole Gomes, aos 16 anos, descobriu que estava grávida. Como muitas adolescentes na mesma situação, ela não sabia como contar para a família e temia enfrentar tudo sozinha. “Fiquei em choque e pensei que não conseguiria dar conta. As pessoas sempre falam que uma gravidez na adolescência muda tudo, e eu tinha medo de não ter apoio”, conta.

Com o passar dos meses, os desafios aumentaram. O pai do bebê se afastou e, dos muitos amigos que Nicole tinha, apenas uma realmente esteve ao seu lado. “As pessoas comentavam e me olhavam diferente, e isso machuca. O começo foi o mais difícil, porque eu não sabia como cuidar do meu filho”, relembra Nicole, que hoje, aos 20 anos, entende que a maternidade precoce é um processo de aprendizado doloroso e forçado.

O impacto geracional: histórias de prevenção

A estudante Lívia Azevedo, que engravidou aos 15 anos e sentiu as dificuldades de conciliar estudos e trabalho com a maternidade. Ao buscar o programa Acolhe – oferecido pelo governo estadual no Rio de Janeiro para evitar uma nova gestação não planejada, ela inspirou sua irmã, Camylla Azevedo, a também adotar um método de longa duração.

Ter um filho é uma responsabilidade muito grande. Os métodos contraceptivos ajudam as jovens a ter filhos no momento certo”, ressalta Lívia.

Desafios da saúde pública e desigualdade no acesso à informação

Os casos de Nicole e Livia não são isolados. Com a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada de 1º a 8 de fevereiro, o Brasil volta a acender o alerta para um dos desafios mais persistentes da saúde pública e da garantia de direitos de crianças e adolescentes.

A data, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), busca ampliar o debate, incentivar a educação sexual e fortalecer ações de prevenção diante de números que seguem elevados e revelam profundas desigualdades sociais, regionais e de acesso à informação.

Um estudo recente publicado no final de 2025 pelo Observatório da Saúde Pública revela que no Brasil cerca de uma em cada 23 adolescentes entre 15 e 19 anos se torna mãe a cada ano. Essa taxa é significativamente mais alta do que em países desenvolvidos, onde apenas uma em cada 90 adolescentes dessa faixa etária faz a transição para a maternidade anualmente.

O impacto no desenvolvimento cerebral e o estresse tóxico

A professora de psiquiatria da infância e adolescência da Afya Educação Médica de Montes Claros, Carla Caroline Vieira, explica que a gravidez na adolescência, especialmente abaixo dos 15 anos, não é apenas um evento biológico. É uma crise no desenvolvimento que força uma sobreposição de papéis para a qual a jovem não possui maturidade psíquica ou neurobiológica.

Segundo a IACAPAP (Associação Internacional de Psiquiatria da Infância e Adolescência), a gravidez antes dos 15 anos é considerada de altíssimo risco biopsicossocial. O cérebro adolescente ainda está em processo de mielinização — especialmente o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e controle de impulsos — e a gestação impõe uma carga de estresse tóxico. Esse evento precoce resulta em três fatores críticos:

  • Interrupção do desenvolvimento: A menina é forçada a saltar a fase de exploração e socialização para assumir o papel de cuidadora adulta, gerando um “luto” pela infância perdida.

  • Transtornos de ansiedade e humor: O medo do parto (tocofobia), a vergonha social e a rejeição familiar elevam o risco de quadros depressivos.

  • Dissociação e negação: Em meninas muito jovens, é comum a negação da gravidez até estágios avançados como mecanismo de defesa psíquica.

Entre 2020 e 2022, mais de 1 milhão de jovens nessa faixa etária tiveram filhos, incluindo mais de 49 mil meninas entre 10 e 14 anos — situação que, pela legislação brasileira, caracteriza estupro de vulnerável.

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Imaturidade uterina e os riscos da prematuridade neonatal

Os impactos dessa realidade também se refletem nos desfechos neonatais. Dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), publicados em 2025 pela organização Prematuridade.com, indicam que a taxa média de prematuridade no Brasil foi de 11,95%. Entre mães adolescentes, os números são alarmantes: nasceram 2.608 bebês prematuros de meninas de 10 a 14 anos e 37.237 de jovens entre 15 e 19 anos.

A médica ginecologista e professora da Afya Itajubá, Júlia Reis, esclarece que o sistema reprodutor ainda não está completamente formado. “O útero pode não estar totalmente desenvolvido e o sistema hormonal ainda não se encontra plenamente regulado. Por essas razões, trata-se de uma gestação de alto risco”, afirma.

Riscos Biológicos: Em extremos de idade, há maior incidência de abortamento, pré-eclâmpsia e mola hidatiforme (malformação). O principal risco para o bebê é a prematuridade extrema e o baixo peso ao nascer, que podem gerar sequelas no desenvolvimento ao longo de toda a infância.

Acolhimento e saúde mental: o papel da rede de apoio

A gravidez na adolescência também é um tema central de saúde mental. Segundo a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, do Instituto MaterOnline, a prevalência de gestações não planejadas em menores de 20 anos varia entre 15% e 20%.

“Gestantes adolescentes são um grupo de risco. A adolescência já é um período potencial de risco para ansiedade e depressão; imagine quando esses dois períodos se encontram”, pontua a psicóloga.

Para transformar essa realidade, a prevenção deve ir além do acesso a métodos contraceptivos, focando em um ambiente seguro e informativo.

5 formas de acolher a gestante adolescente:

  1. Evite julgamentos: Frases acusatórias aumentam o isolamento e o sofrimento psíquico.

  2. Incentive o pré-natal precoce: O apoio emocional ajuda a vencer o medo e a vergonha que atrasam o acompanhamento médico.

  3. Fique atento a sinais de depressão: Rejeição ao bebê ou tristeza persistente exigem avaliação profissional.

  4. Apoie a continuidade dos estudos: O abandono escolar compromete o futuro econômico da mãe e do filho.

  5. Oriente sobre direitos: Garanta que a jovem conheça o acesso ao pré-natal gratuito pelo SUS e outros direitos previstos em lei.

Programa Acolhe: a tecnologia a serviço da autonomia reprodutiva

Programa Acolhe recebe adolescentes no Rio de Janeiro (Fotos: Maurício Bazílio / SES-RJ)

Enquanto o Brasil busca reduzir os índices de maternidade precoce, iniciativas públicas no Rio de Janeiro apresentam resultados expressivos no enfrentamento do problema. Embalanço rescente divulgado em dezembro de 2025, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) informou que o programa Acolhe atingiu a marca de 31 mil aplicações de métodos contraceptivos em apenas dois anos de atuação.

O diferencial da iniciativa, que acaba de inaugurar um novo polo no Rio Imagem Baixada, em Nova Iguaçu, está na oferta gratuita de métodos contraceptivos de longa duração (LARCs). Entre as opções disponíveis estão o implante subdérmico e diferentes modelos de DIU (cobre, Mirena e Kyleena), que oferecem alta eficácia sem depender da disciplina diária da paciente.

Educação em saúde e combate à violência

Para a secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, o programa vai além da proteção biológica: trata-se de garantir o direito de escolha. “Uma gravidez não planejada mexe com todo o futuro de uma menina. O Acolhe garante a elas o direito de decidir quando e como querem engravidar”, afirma.

O fluxo de atendimento no programa é estruturado em etapas que priorizam o conhecimento:

  • Palestras educativas: Antes do procedimento, as jovens recebem orientações sobre gestação, Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e identificação de situações de violência.

  • Consultas individuais: O atendimento ginecológico é personalizado para definir o método mais adequado para cada organismo.

  • Acolhimento a partir dos 14 anos: O programa atende adolescentes respeitando as normas legais — com necessidade de autorização dos responsáveis para menores de 16 anos.

Como acessar o serviço no Rio de Janeiro

O Programa Acolhe funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, em duas unidades estratégicas:

  1. Acolhe Ipanema: Localizado no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) Susana Naspolini.

  2. Acolhe Baixada: Situado no Rio Imagem Baixada, em Nova Iguaçu.

As vagas são disponibilizadas via central de regulação do estado. Para participar, a adolescente ou sua família deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de sua residência para solicitar o encaminhamento.

Com Assessorias

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