Margareth Dalcolmo: ‘Não é só tirar água do vasinho de planta’

Médica relaciona aumento de casos a falta de saneamento, faz alerta sobre coinfecção dos vírus da dengue, gripe e covid-19 e destaca vacinas

Margareth Dalcolmo fala sobre coinfecção de dengue, covid e influenza (Foto: Divulgação)
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Helena, uma bebê de 8 meses, morreu na última quarta-feira (28), no Distrito Federal, nos braços da mãe, Gabriella Alves, após passar por três unidades de saúde, sem que nenhuma recomendasse a internação em uma semana. Na certidão de óbito: parada cardiorrespiratória, dengue e exame PCR positivo para Covid-29. O caso está sendo apurado pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

A circulação simultânea dos vírus da dengue, da Covid-19 e da gripe no Brasil acende um alerta entre autoridades de saúde pública. Margareth Dalcolmo, médica pneumologista e uma das principais vozes da pandemia da Covid-19, chamou a atenção para o problema, que pegou até mesmo os médicos de surpresa.

“A situação da dengue no Brasil é “muito grave” por conta de um fenômeno não esperado: a coinfecção. Temos casos de dengue e Covid, dengue e influenza e influenza e Covid. Existe uma alta circulação de virus respiratórios entre nós”, disse a médica à Globonews neste domingo (3).

‘Não é só tirar água do vasinho’, diz Dalcolmo

O médico epidemiologista Roberto Medrado, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também faz um alerta: “O momento é de grande preocupação – dois vírus de transmissão respiratória (Sars-Cov2 e influenza) e um por Aedes aegypti”.

Ele lembrou que o esperado é que a epidemia de dengue chegue a mais de 4 milhões de casos este ano. E sugeriu que a dengue – uma doença conhecida no Brasil há décadas – ainda não conseguiu ser controlada por falta de investimentos em saneamento básico.

“Não conseguimos deter a epidemia da dengue. E isso tem a ver com desenvolvimento não sustentável, com (a falta de) saneamento ambiental. Mas temos o dever ético de reduzir a letalidade da doença. O aumento do acolhimento dessas pessoas nas unidades de saúde faz a diferença entre a vida e a morte nos casos que evoluírem para mais gravidade”, diz ele.

Margareth Dalcolmo confirmou que as condições sociais interferem na incidência da dengue. E acrescentou que, para barrar a disseminação de casos da dengue, não basta pedir à população que elimine focos do mosquito Aedes aegypti dentro de casa.

“Não é só tirar água do vasinho de planta. O problema é saneamento. A quantidade de lixo nas comunidades e bairros mais pobres em cidades grandes, como o Rio de Janeiro, é algo inacreditável. Por mais que vejamos o trabalho das companhias de coleta de lixo trabalhando, a própria comunidade deve entender que isso é criadouro de dengue”, disse a médica.

‘Hospitais de campanha são bem vindos’, afirma médico

Bryan, um menino de 6 anos, morador de Sooretama, no Espírito Santo, também morreu no dia 19 de janeiro, vítima da dengue. No início do ano, começou a passar mal, sentia muita sede, muitas dores no corpo, e passou várias vezes pelas unidades de saúde.

“Meu Deus, não deixa eu morrer, tira esse dor de mim pra eu poder brincar”, dizia o menino, segundo relato do avó, Arthur Gomes de Oliveira, ao repórter da Globonews. “Agora é só saudade e tristeza”, lamentou.

Bryan e Helena, infelizmente, são vítimas da recente explosão de dengue no Brasil – já são mais de 1 milhão de casos prováveis da doença. O pico da doença, que costuma ocorrer no mês de abril, foi antecipado este ano e o número já é maior que o registrado em todo o ano de 2023 em muitas cidades e estados, que enfrentam o caos no atendimento aos pacientes no SUS.

“O paciente vai a dois, três unidades de saúde e acaba evoluindo a óbito. É importante estamos alertas. A dengue é uma doença fácil de ser tratada, por hidratação, quanto mais rápida, mais chance de não complicar e levar à morte”, destacou Medrado, citando o exemplo de Belo Horizonte (MG), que enfrenta um colapso no atendimento.

Neste cenário, o médico disse que “hospitais de campanha são altamente bem vindos”. E faz um alerta para médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde: “A dengue exige acompanhamento muito próximo para não evoluir para dengue grave, antiga dengue hemorrágica“.

Ele falou sobre sintomas como tonteira, náuseas e vômitos com mais intensidade, que podem indicar um agravamento da doença e a necessidade de buscar imediatamente atendimento médico. “Aumento do fluxo menstrual em menina em período menstrual, por exemplo é um sinal de alarme”, acrescentou.

Alerta para estados e municípios para mais casos de dengue

O médico Roberto Medrado, reitor da UFRJ, prevê que a epidemia de dengue que hoje impacta o sistema de saúde de Belo Horizonte (MG) vai estressar outros estados, como o Rio de Janeiro.

“A epidemia se movimenta no tempo e no espaço. Aqui no Estado do Rio se espera o pico da dengue para o final de abril. É fundamental que todos os estados e municípios se organizem em planos de contingência para que reduzam a letalidade por dengue”, afirmou.

O médico infectologista Carlos Starling diz que é fundamental que “o poder público acolha as pessoas, trate adequadamente de forma a evitar uma catástrofe epidemiológica e reduzir a mortalidade pela doença”. Além disso, deve usar esse momento para uma ação coletiva para o combate ao vetor, o Aedes aegypti, completou.

Antecipação da vacina da gripe e importância da vacina da dengue

Margareth Dalcolmo destacou a antecipação da vacinação contra a influenza pelo Ministério da Saúde, anunciada na última semana. “É absolutamente correta e bem-vinda. Precisamos começar a vacinar ainda no mês de março porque o número de casos de influenza A e B é muito alto”.

Ela também fez um apelo aos pais em relação à vacinação das crianças contra a dengue. “Conclamamos aos pais de crianças e adolescentes que tenham a faixa etária entre 10 e 14 anos que as levem, imediatamente. Para esse grupo temos vacinas”.

Segundo Dalcolmo, há muitos casos de dengue assintomática. “Mesmo sem saber se tiveram dengue, crianças na faixa etária de 10 a 14 anos devem imediatamente ser levadas para ser vacinadas. O segundo caso (de dengue) certamente seria mais grave”.

A pneumologista disse que, infelizmente, não tem vacina para todas as faixas etárias. “E não porque não podemos comprá-la, mas é por que o fabricante não tem mais doses de vacina além dos 7 milhões que foram disponibilizados para o Brasil nessa primeira compra”.

“Temos orçamento para comprar, mas a empresa não tem capacidade de gerar o número necessário. Nossa grande esperança é a vacina do Butantan, esperança é que isso diminua muito”, completou Medrado.

Pais devem levar crianças para receber a vacina da dengue

No caso da Covid-19, Dalcolmo lembra que a gravidade pode ser maior se o paciente não tiver sido vacinado. “Se uma pessoa não vacinada, com mais idade e algum grau de imunodeficiência, tiver a infecção dupla (Covid-19 mais dengue ou influenza), a possibilidade de complicar e internar, inclusive em terapia intensiva (UTI), aumenta muito”.

Além disso, Ela lembrou ainda do fenômeno da Covid longa, que “não poupa idade nem gravidade”. “Tem crianças com casos de covid longa. Os pediatras estão preocupados, nós estamos preocupados. E nosso dever é continuar alertando as pessoas: levem as crianças para ser vacinadas. Não deem ouvidos a informações que certamente não contribuem para orientar a nossa população”, destaca.

Ela aproveitou para falar sobre a baixa cobertura da vacina bivalente da Covid-19. “Sabemos que a cobertura infelizmente teve adesão muito baixa, uma vacina que dá proteção contra hospitalização e morte pela doença. É um fenômeno sociológico difícil de explicar”, afirma.

“Ficamos chocados com o Senado Federal permitir uma audiência pública com pessoas sabidamente contra a vacina e terem voz para falar, dando informações equivocadas. Na primeira leva, a cobertura chegou a 80%. Depois as pessoas perderam o medo, os casos são mais leves, o tempo é de cinco dias para recuperação. Mas é importante lembrar que o Brasil foi o pais onde mais morreram crianças em idade baixa de Covid-19, tivemos mortes e complicações enormes”.

Para Roberto Medrado, as pessoas “precisam acreditar na vacina”. “Por que tão pouca gente se vacinou de covid e até para outras doenças?  É um fenômeno mundial, que inclusive abordamos recentemente em um simpósio na Academia Nacional de Medicina, junto com membros da Academia Francesa de Medicina”.

Segundo ele, “as pessoas não estão mais com confiança nas vacinas e as fake news foram muito danosas para o Brasil”. Medrado lembrou que o Programa Nacional de Vacinação (PNI), considerado uma referência mundial, vai “desde comunidades conflagradas no Rio até populações ribeirinhas e indígenas no Alto Amazonas”. “É um programa maravilhoso, mas as pessoas precisam acessar os centros de saúde para serem vacinados”.

Médico em BH atende mais de 100 pacientes por dia em Belo Horizonte

Na presença de sintomas como dor nos olhos e nos músculos, febre, ânsia de vômito, náuseas, perda de apetite e fraqueza, é preciso procurar um médico. Mas com mais pessoas pessoas infectadas, a situação fica cada vez mais difícil nas unidades do SUS.

Em Belo Horizonte (MG), as unidades de pronto atendimento estão lotadas, com demora no atendimento. A triagem para encaminhar os pacientes não consegue dar conta. “O protocolo da dengue fala que precisa passar por avaliação clínica, mas a agenda não permite. Onde foi enfiar essa gente toda?”, diz a enfermeira Nilma Lemos.

O médico Gabriel Augusto Campos contou que chega atender mais de 100 pacientes por dia. Segundo ele, a grande procura dos pacientes sobrecarrega não somente o atendimento clínico, como todo o sistema os laboratórios, já que é preciso acompanhar os hemogramas (exames de sangue) dos pacientes em observação, além da oferta de hidratação.

Danilo Borges Matias, secretário de Estado de Saúde de Minas, disse que o aumento nos atendimentos cresceu três vezes entre janeiro e fevereiro, passando de 25 mil para 100 mil atendimentos. No estado, mais de 362 mil casos e 37 já morreram com a doença este ano.

Em Belo Horizonte, foi montado um hospital de campanha, com 40 leitos e funcionamento 24 horas por dia. A unidade fica ao lado da UPA Norte, onde tem grande demanda de pacientes, mas não há vagas para internação.

A capital montou uma central de teleconsulta para tentar agilizar os atendimentos e abriu mais quatro centros de saúde para atendimento a casos de dengue, como horário de funcionamento ampliado, das 7h até as 22h.

Com informações da Globonews

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