O ambiente digital brasileiro enfrenta uma escalada alarmante de conteúdos misóginos. Dados recentes revelam que a chamada “machosfera” — ecossistema online que abriga grupos como red pills e incels (celibatários involuntários) — não apenas cresce em número de adeptos, mas se consolidou como um nicho lucrativo, onde o desprezo e a violência contra a mulher geram engajamento e receita.
No YouTube, canais de ataque a mulheres continuam se expandindo e ganham mais seguidores. É o que mostra a atualização de um estudo do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab UFRJ), divulgado nesta segunda-feira (9). Dos 137 canais dedicados a disseminar ódio contra mulheres, identificados em 2024, ainda seguem ativos 123, uma redução de apenas 10% na plataforma.
O monitoramento aponta que, entre abril de 2024 e março de 2026, o número de inscritos passou de 19,5 milhões para cerca de 23 milhões, um aumento de 18,55%. Mais do que opiniões isoladas, a pesquisadora Luciane Belín destaca que a misoginia se tornou uma estratégia de monetização através de anúncios, programas de membros e vendas de produtos digitais.
Segundo o levantamento, alguns canais mudaram de nome e retiraram referências explícitas à “machosfera”. Segundo a ONU Mulheres, o termo é usado para se referir a grupos que se opõem ao feminismo e difundem a ideia de que homens seriam “vítimas” do cenário social e político atual.
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A radicalização e as “trends” de violência
A gravidade do cenário atual é ilustrada por trends em redes como o TikTok. Uma trend chamada “Se ela disser não”viralizou com vídeos que simulam violência contra mulheres após um pedido de casamento recusado. Os usuários encenam agressões, como chutes, socos ou disparos com armas de brinquedo, contra mulheres que recusam investidas amorosas. No vídeo, a personagem imaginária é representada por bonecos ou sacos de box.
O caso motivou a abertura de inquérito pela Polícia Federal, após denúncias da Advocacia-Geral da União (AGU) e de parlamentares. De acordo com reportagem do Núcleo, a trend tem postagens desde 2023, mas viralizou com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, no último domingo (8). Um dos vídeos mais vistos foi publicado pelo influenciador Yuri Meirelles e chegou a quase 200 mil curtidas antes de ser removido após críticas. O TikTok afirmou ter removido os 15 links enviados com conteúdos da trend.
A trend envolve engajamento. Então é diferente de só as pessoas estarem sendo expostas a um conteúdo violento. A gente está falando de um movimento, mesmo que rápido, fugaz, que se instaura ali numa comunidade de pessoas que estão produzindo aquela trend”, afirma Mariana Valente, pesquisadora do InternetLab.
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O avanço do discurso misógino nas redes
Esses conteúdos operam sob uma lógica de “insurgência masculina”, onde o avanço dos direitos das mulheres é lido como uma opressão aos homens. Grupos específicos alimentam essa narrativa:
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Red pills: Defendem que homens são manipulados pela sociedade moderna e devem “despertar” contra o domínio feminino.
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Incels: Culpam as mulheres por sua falta de sucesso afetivo ou sexual, frequentemente pregando a subjugação feminina.
Para burlar a moderação das plataformas, esses grupos utilizam termos codificados, como o uso da palavra “colher” em substituição a “mulher”, ou o termo “msol” para atacar mães solo.
A propagação do ódio digital guarda uma correlação preocupante com a violência física. O Brasil registrou, em 2025, a marca de quatro feminicídios por dia, totalizando 1.547 vítimas. Em janeiro de 2026, o número de casos subiu quase 5% em relação ao ano anterior.
O desafio da legislação e responsabilização
Atualmente, o Brasil discute a criminalização específica da misoginia. Projetos de lei buscam tipificar o ódio coordenado nas redes, com penas que podem chegar a 5 anos de prisão. No entanto, a responsabilização das grandes empresas de tecnologia (Big Techs) ainda é um entrave jurídico.
A advogada criminalista Pamela Villar aponta que, sem uma decisão judicial específica, a retirada imediata de conteúdos é difícil, exceto em casos de crimes sexuais notificados. Além disso, a flexibilização de diretrizes por plataformas como a Meta — que passou a permitir certas acusações relacionadas a gênero — é vista por especialistas como um retrocesso na moderação de conteúdos violentos.
Crises de violência e discursos de ódio geram impactos profundos na saúde mental coletiva e na segurança pública, evidenciando que a proteção das mulheres é fundamental para uma sociedade saudável em todas as suas dimensões.
Canais de denúncia
A sociedade e as autoridades reforçam que o combate à misoginia deve ser imediato. Casos de violência ou discurso de ódio podem ser denunciados pelos canais:
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Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (WhatsApp: 61 9610-0180).
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Disque 100: Direitos Humanos.
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190: Emergências policiais.
Com informações da Agência Brasil e Brasis

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