Dos tipos de câncer que afetam o sangue, a leucemia é a mais conhecida. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), no triênio 2023-2025, são estimados 11.540 novos casos a cada ano no Brasil – sendo o 10º tipo de câncer mais frequente entre a população brasileira.
A leucemia está presente na ficção e assusta os telespectadores. Recentemente, na nova versão de “Vale Tudo”, exibida pela TV Globo, o personagem Afonso (Humberto Carrão) foi diagnosticado com leucemia mieloide.
Já na vida real, a leucemia continua fazendo muitas vítimas. No início de agosto de 2025 foi divulgada a morte do apresentador Bob Floriano, de 64 anos, que deixou a esposa e duas filhas. A doença que acometeu o jornalista afeta as células do sangue e da medula óssea, e pode evoluir rapidamente, especialmente em adultos a partir dos 60 anos, faixa etária em que Bob foi diagnosticado.
Na TV, ele fez parte do time de apresentadores do Fala Brasil, na Record, entre 1998 e 2000. Entretanto, seu grande destaque foi na publicidade, com mais de 90 mil comerciais das Casas Bahia, marca que o levou a ser entrevistado no “Programa do Jô”. Floriano atuava como mentor de comunicação e mestre de cerimônias em eventos corporativos.
Em julho de 2025, Vinicius Rodrigues, ex-BBB e atleta paralímpico, lamentou nas redes sociais o falecimento de Karoline Bernardo, mãe de sua filha caçula, Olívia, de 10 meses, também por conta da doença. Cerca de um mês antes ela havia sido diagnosticada com leucemia linfóide aguda.
Descobrir que estou com câncer aos 27 anos, com uma filha prestes a completar 10 meses, é algo que ainda estou tentando entender”, desabafou no dia 11 de junho.
Leucemia tem difícil diagnóstico na fase inicial
Tipo mais comum de câncer no sangue, a leucemia pode evoluir rapidamente e apresentar sintomas inespecíficos
O caso de Karoline reacende o alerta para a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento médico diante de sintomas persistentes. Apesar de ser mais comum em crianças, esse tipo de leucemia também pode atingir adultos jovens, muitas vezes de forma agressiva e silenciosa.
A doença se origina na medula óssea, local responsável pela produção das células do sangue, e pode ser classificada como aguda ou crônica, dependendo da velocidade com que as células doentes se multiplicam.
A idade de acometimento varia de acordo com o subtipo da doença, que, em linhas gerais, se divide em mielóide e linfóide, de acordo com a célula afetada. Em ambas as categorias, ela pode ser qualificada como sendo aguda ou crônica, considerando a velocidade de divisão dessas células e, portanto, a agilidade com a qual a doença se desenvolve.
As leucemias agudas podem ocorrer em todas as faixas etárias, sendo que a LLA (Leucemia Linfóide Aguda) tem maior incidência na infância e juventude. Já a Leucemia Mielóide Aguda (LMA) é o tipo mais comum de leucemia em adultos, correspondendo a 80% dos casos neste grupo. A ocorrência de LMA aumenta com a faixa etária (maior incidência acima de 65 anos).
A leucemia é desencadeada por mutações genéticas nas células hematopoiéticas, responsáveis pela produção das células sanguíneas (glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas). Estas mutações fazem com que a célula hematopoiética passe a produzir uma grande quantidade de células anormais, que não conseguem amadurecer e desempenhar sua função normalmente, ocupando a medula óssea e impedindo que células normais sejam produzidas”, explica Mariana Oliveira.
Segundo a especialista, a doença não se trata de uma condição hereditária, mas sim de alterações genéticas adquiridas e que acabam por desencadear o surgimento do câncer. “Infelizmente, não existe uma forma de prevenção. Porém, é importante estar atento e procurar um médico sempre que tiver algum dos sintomas. Assim, será possível fazer os exames diagnósticos com rapidez e escolher o tratamento mais adequado para cada caso”, destaca Mariana.
Fique atento aos sintomas
Alguns fatores, como a exposição a produtos químicos, principalmente os derivados de benzeno, e à radiação em altos níveis, assim como algumas doenças genéticas como anemia de Fanconi e outras que afetam o sangue, podem elevar o risco de incidência da doença.
Ainda assim, estes são apenas fatores que podem contribuir para o surgimento da leucemia, mas não são regra. Diante disso, o principal conselho da onco-hematologista é que seja dada atenção aos sinais que podem ser indícios da doença.
Os sintomas das leucemias agudas incluem palidez, cansaço e sonolência, uma das consequências da queda na produção de glóbulos vermelhos (hemácias) e consequente anemia. Manchas roxas que surgem aparentemente sem traumas, pequenos pontos vermelhos na pele e/ou sangramentos mais intensos e prolongados após ferimentos leves também podem surgir em decorrência da diminuição na produção de plaquetas“, comenta a médica.
A redução na imunidade ocasionada pela baixa quantidade de glóbulos brancos faz com que a pessoa apresente infecções constantes e febre. “Dores ósseas e nas juntas, que podem dificultar a capacidade de locomoção, e dores de cabeça e vômitos são outros possíveis sintomas que não devem ser ignorados. Outro indício da doença pode ser ainda a perda de peso”, afirma.
A onco-hematologista frisa, contudo, que as leucemias crônicas são comumente descobertas por alterações identificadas no hemograma – exame de sangue que deve ser realizado periodicamente como parte da rotina, já que dificilmente apresentarem alterações evidentes à saúde. “Apenas em estágios mais avançados podem ocorrer sintomas similares aos casos agudos”, pontua.
Para fechar o diagnóstico, é recomendada a coleta de medula óssea para exames específicos (mielograma, biópsia, imunofenotipagem e cariótipo). Outros estudos complementares podem ser então sugeridos, de acordo com a subclassificação a ser estabelecida e análise de risco, para que seja assim definido o tratamento a ser adotado.
Como funciona o tratamento para leucemia?
A leucemia possui altas chances de cura, podendo chegar a até 90%, no caso das crianças e 50% em pessoas até 60 anos. Apesar de não existir cura para alguns casos da doença, os tratamentos são eficazes para oferecer uma maior expectativa e qualidade de vida. Ele pode incluir quimioterapia, terapias-alvo, medicamentos orais e, em alguns casos, transplante de medula óssea.
O diagnóstico precoce e o acompanhamento com equipe especializada são fundamentais para o sucesso do tratamento e para oferecer a melhor qualidade de vida ao paciente”, afirma a especialista.
Quando se fala em leucemia, é quase inevitável pensar no transplante de medula óssea. Mas, ela é muito mais ampla do que os casos que realmente necessitam desse procedimento. Em muitos pacientes, o tratamento pode ser medicamentoso ao longo de toda vida, ou ainda a partir da própria quimioterapia, capaz de eliminar a doença.
Isso dependerá de cada caso. Como existem muitos tipos de leucócitos, temos também diversos tipos de leucemias”, explica Mariana.
Podendo ser agudas (leucemia linfóide aguda e leucemia mieloide aguda) ou crônicas (leucemia linfocítica crônica e leucemia mieloide crônica), elas são definidas da seguinte maneira:
- Leucemias agudas: necessitam de internação, exames de classificação e testes da medula óssea para a escolha da quimioterapia adequada ao paciente. Geralmente, a multiplicação das células mutadas é rápida e é mais comum em crianças.
- Leucemias crônicas: possui um desenvolvimento lento e pode acompanhar o paciente ao longo de toda a vida, sem maiores complicações. Na maioria dos casos é mais comum em adultos e seu tratamento é realizado com consultas de rotina e prescrição de remédios.
A médica ainda lembra que os avanços nos tratamentos tiveram um salto importantíssimo. “Um deles é a terapia car-t cell, em que os linfócitos do tipo T são tratados em laboratório para que possam analisar e reconhecer as células cancerosas, eliminando-as”, comenta.
Um ponto de atenção abordado na novela é a queda de cabelo durante o tratamento. “A queda dos fios não é provocada pela leucemia, mas é um efeito colateral de alguns tratamentos. A doença em si não leva à perda de cabelo, ou seja, é um efeito colateral de alguns tratamentos, como a quimioterapia”.
Com Assessorias




