‘Mães de leite’ salvam bebês prematuros e de baixo peso

Conheça histórias de bebês beneficiados por bancos de leite. Campanha nacional quer aumentar doações para atender 60% dos recém-nascidos

Karine volta ao banco de leite humano que ajudou a salvar a vida da filha Stella (Fotos: Edu Kapps / SMS-Rio)
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A carioca Karine Freitas (foto abaixo) viveu três meses tensos, mas de muita confiança ao lado de sua filha Stella na UTI neonatal. Hoje com 3 anos e saudável, a menina nasceu prematura, precisou de cuidados especiais e teve a vida salva com a ajuda do banco de leite humano do Hospital Maternidade Herculano Pinheiro, em Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Assim como a pequena, muitos bebês internados, que por algum motivo não podem ser amamentados pelas próprias mães, dependem de doações de leite humano. Foi o caso da pequena brasiliense Sofia. Sua mãe, Camila de Lima Ribeiro, teve um quadro muito forte de anemia e não conseguiu amamentá-la logo que nasceu por uma semana e meia. Camila teve que recorrer à solidariedade de outras mães que tinham ‘leite de sobra’ para conseguir alimentar a filha recém-nascida.

“Graças ao banco de leite e a ajuda de outras mães, Sofia está aqui firme e forte. Após esse período, consegui ser doadora. Além de ter recebido a ajuda de outras mulheres, eu pude ajudar outros bebês. Acredito que a gente fez parte da vida de muitas crianças”, relatou.

A mãe de Sofia foi uma das convidadas da cerimônia de lançamento da Campanha Nacional de Doação de Leite Humano, realizada nesta quinta-feira (18) pelo Ministério da Saúde em Brasília, para sensibilizar a sociedade sobre a importância da doação.

Lançamento da campanha nacional para aumentar doações de leite materno (Foto: Walterson Rosa / Ministério da Saúde)

Com o tema “Um pequeno gesto pode alimentar um grande sonho. Doe leite materno”, a ação busca estimular mulheres que amamentam e podem doar seu leite a adotar este ato que salva vidas. Recém-nascidos prematuros e de baixo peso têm mais chances de recuperação e de uma vida mais saudável quando têm acesso ao leite humano.

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Meta este ano é aumentar doações de leite humano em 60%

A campanha marca do Dia Nacional de Doação do Leite Humano (19/5), data instituída no Brasil por meio da Lei nº 13.227 de 2015 e cuja semana é celebrada mundialmente. A meta para este ano é ampliar as doações para atender, pelo menos, 60% da demanda por leite humano, o equivalente a uma coleta total de 245,7 mil litros.

No ano passado, 197 mil mulheres doaram leite, com volume total de 234 mil litros coletados. Com isso, após o processamento do leite doado, 222 mil recém-nascidos foram beneficiados. Segundo o Sistema de Informação da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, entre 2000 e 2022, somente no Rio de Janeiro, 182.331 mulheres foram doadoras e 146.094 litros de leite humano foram coletados.

A ministra da Saúde, Nísia Trindade, reforçou que essa é uma campanha de toda a sociedade.

“Estamos mobilizando a população, gestores, profissionais de saúde e mulheres que amamentam sobre a importância de doar. Há Postos de Coleta e Bancos de Leite Humano em todos os estados. É importante conhecer e divulgar àqueles que estão mais perto de você. Doar leite materno não envolve risco, é um procedimento seguro”, sustentou.

Também presente à cerimônia, Socorro Gross, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), contou que o filho mais novo nasceu com 720g. “Meu menino foi um milagre. Eu fui abençoada e recebi essas gotas que mudaram a vida do meu filho”, relembrou.

Nésio Fernandes, secretário de Atenção Primária à Saúde, compartilhou que os próprios filhos também fizeram parte da experiência da doação de leite materno.

“Até os 6 meses de idade, crianças em extratos sociais de maior vulnerabilidade econômica e crianças de classe média/alta que estão sob lactância exclusiva a livre demanda, tem pesos equivalente e crescem com condições muito semelhantes”, acrescentou.

Esperança para recém-nascidos com baixo peso

Stella veio ao mundo prematuramente no dia 16 de fevereiro de 2020, em uma cesariana de emergência. Nasceu na 26ª semana de gestação, com baixo peso. Precisou ficar internada por três meses na UTI neonatal e, durante todo esse período, recebeu o leite humano doado por mães cadastradas. O trabalho dos profissionais das equipes das maternidades vai além de saúde, levam também o acolhimento às mães em um momento tão delicado.

“O apoio de toda a equipe do hospital foi fundamental. Eu me sentia péssima por não poder amamentá-la e não produzir leite suficiente. A equipe da maternidade também foi parte da minha rede de apoio, me ajudou a continuar estimulando a minha produção de leite. E, após a alta, eu consegui mantê-la em aleitamento materno exclusivo e também virei doadora”, conta Karine.

Para marcar o Dia Mundial de Doação de Leite Humano, celebrado no dia 19 de maio, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro promoveu um reencontro entre Stella e os funcionários da maternidade que a ajudaram durante sua internação.

“A equipe do hospital servia mais do que alimento à minha filha. Elas foram o acalento ao coração e são o principal suporte às mães que passam pela maternidade. Foi assim comigo durante todo o processo de internação da minha filha”, conclui a mãe, Karine Freitas, emocionada.

Referência na Zona Norte, o Hospital Maternidade Herculano Pinheiro já atendeu mais de 1.150 pacientes  e realizou mais de 185 partos somente em 2023. Além disso, só este ano, o hospital já coletou mais de 29,5 litros de leite humano doado.

Uma salvação para bebês prematuros

Mais que uma ação solidária, a doação de leite humano, não importando a quantidade, é um gesto capaz de salvar vidas. Isso porque o leite materno é um alimento precioso nos momentos iniciais da vida da criança, sendo fundamental para bebês impossibilitados de serem amamentados pelas próprias mães, como é o caso de prematuros e recém-nascidos que ficam internados. O tempo de internação hospitalar por ocasião do parto é curto, de cerca de 24 a 48 horas.

A taxa de prematuridade no país foi de aproximadamente 12% entre 2021 e 2022, de acordo com dados preliminares do Sistema de Monitoramento de Nascidos Vivos (Sinasc). Um dos grandes desafios que os bebês a termo e os prematuros enfrentam é manter uma boa nutrição.

Na maioria dos casos, eles precisam ficar internados na UTI neonatal para ganhar peso e receberem o melhor tratamento para as complicações que podem ter desenvolvido durante a gestação ou no parto.

Ter uma boa alimentação ajuda na recuperação, contribui para melhor saturação e aumenta a imunidade. O bebê precisa ter como aliado os nutrientes que o leite materno tem para aumentar as chances de sobrevida. Em algumas situações, a mãe não consegue amamentar e/ou tirar o leite para o filho, por isso, é importante a doação de leite materno.

A ONG Prematuridade.com reforça a amamentação e incentiva a doação de leite, de extrema importância aos bebês prematuros.  O leite humano é capaz de reduzir em até 13% a mortalidade de crianças menores de 5 anos por causas evitáveis.

O leite materno é um alimento completo, que tem todos os nutrientes essenciais para o desenvolvimento saudável do bebê, dispensando o uso de água ou outros alimentos até os seis primeiros meses de vida. Além de proteger contra doenças, o aleitamento traz inúmeros benefícios, não só para os pequenos, mas também para as mamães.

Qualquer quantidade de leite doado salva vidas

leite materno é o melhor alimento que um bebê pode ter. É de fácil digestão e promove um melhor crescimento, trazendo em sua composição proteção imunológica contra doenças infecciosas, além de atuar no desenvolvimento afetivo e psicológico.

Mesmo em ambientes quentes e secos, o leite materno supre as necessidades de líquido de um bebê. Água e outras bebidas não são necessárias até o sexto mês de vida. Dar ao bebê outro alimento, que não o leite materno, aumenta o risco de diarreia ou outra doença.

Qualquer quantidade de leite materno é importante e pode ser doada. Um pote de 200 ml pode alimentar até 10 bebês prematuros ou de baixo peso. Por diversas razões, nem todas as mulheres podem amamentar seus bebês, mas toda mulher que amamenta é uma possível doadora de leite humano. Para doar, é preciso ser saudável e não estar usando nenhum medicamento que interfira na amamentação.

Maternidade leva mulheres a se colocar no lugar de outras

Luciana Gripp Barros é doadora de leite humano no Rio (Foto: Arquivo Pessoal)

A profissional de saúde Luciana Simões Gripp Barros doou o excedente de leite até os nove meses da filha mais velha e parou com o início da pandemia de covid-19 porque não ainda havia estudos sobre a doença. Agora, com a filha mais nova com menos de um mês, ela voltou a doar no Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz), situado no bairro do Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro.

Segundo Luciana, quando a mulher vira mãe começa a olhar para o bebê de outra forma. “Começa a se colocar no lugar daquela mãe que tem filho prematuro, que não tem leite suficiente ou que não pode amamentar. Tudo muda. O nosso olhar fica mais atento ao bebê”.

Ela explicou que quando a mulher tem filho, os hormônios ficam tão à flor da pele que trazem uma sensibilidade que leva a perceber e se colocar realmente no lugar do outro. “É um emaranhado de sentimentos. É gratidão, empatia, é você também ser grato a Deus por ter a oportunidade de amamentar suas filhas. Então, fazer isso pelo outro é uma forma de retribuição pelo que você tem”, disse.

Onde doar leite materno no Brasil e no Rio

As doações de leite podem ser feitas em maternidades municipais e em postos de coleta presentes em unidades da Atenção Primária (centro municipais de saúde de clínicas da família). Cada pote de 300 ml de leite pode ajudar até 10 recém-nascidos. O leite passa por todo processo de controle de qualidade para disponibilização de acordo com a necessidade de nutrição de cada criança internada, com qualidade certificada.

Para encontrar o banco de leite humano ou ponto de coleta mais próximo de sua residência, basta ligar para o Disque Saúde no telefone 136 ou acessar o site da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, por meio deste link. No Rio de Janeiro, o link é este aqui.  Também é possível ajudar doando potes de vidro com tampa para o armazenamento do leite.

Mulheres saudáveis que ainda amamentam, produzem quantidade excedente de leite e não utilizam nenhum medicamento que contraindique o aleitamento materno podem se tornar doadoras.

Rede brasileira de banco de leite humano é referência mundial

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a maior e mais complexa rede de bancos de leite humano do mundo, sendo referência internacional por utilizar estratégias que aliam baixo custo e alta qualidade e tecnologia. São 228 bancos de leite humano e 240 postos de coleta distribuídos em todos os estados brasileiros.

São Paulo é o estado com maior número de bancos (58) e tem 49 postos de coleta. Do total de mais de 234 mil litros de leite humano coletados durante o ano passado pela Rede BLH-BR, o Distrito Federal foi a unidade federativa que coletou a maior quantidade de leite humano: 15.162 litros. “É onde existe maior autossuficiência de leite humano”. O Estado do Rio de Janeiro tem 17 bancos de leite humano e 18 postos de coleta.

Além de englobar ações de coleta, processamento e distribuição de leite, os bancos de leite humano e postos de coleta oferecem acolhimento e prestam assistência a mulheres, crianças e famílias na prática do aleitamento materno.

O modelo introduzido no Brasil na década de 40 era anglo-saxão e entendia o uso do leite humano como um medicamento para as crianças que não respondiam bem ao tratamento quando internadas. Mas, quando o trabalho dos bancos foi iniciado em rede, o leite humano passou a ser visto muito mais do que um medicamento, como um alimento funcional, com características próprias, capazes de promover o crescimento e desenvolvimento de recém-nascidos vulneráveis internados na UTI neonatal.

“E mais que isso: A gente traz para dentro do banco de leite assistência e atenção ao aleitamento materno. Ou seja, o banco de leite passa a ser um centro de apoio à amamentação, um centro de proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno”, reforçou Danielle.

A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH-BR) é uma iniciativa do Ministério da Saúde, por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e atualmente integra a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança e Aleitamento Materno (PNAISC).

Apoio a mães para amamentação exclusiva

Para atuar na promoção da amamentação de forma continuada, a SES-RJ reforça a importância do envolvimento da rede básica de saúde para que as gestantes e mães possam ser apoiadas desde o pré-natal e ao longo do acompanhamento materno-infantil, com vistas à amamentação exclusiva por seis meses, e complementada com uma alimentação saudável até os 2 anos ou mais.

“As unidades básicas de saúde, em conjunto com as maternidades, devem incentivar  o aleitamento materno enquanto prática universal, contribuindo significativamente para a saúde e bem-estar dos bebês, suas mães e famílias”, ressalta Maria da Conceição Monteiro Salomão, coordenadora da Área Técnica de Aleitamento Materno da SES.

Especialistas da SES lembram que a amamentação é um direito garantido por lei. No entanto, é necessária uma legislação trabalhista e social que garanta esse suporte  às lactantes que trabalham. Segundo ela, ainda são raros os espaços adequados, em empresas públicas e privadas, que promovam a continuidade à amamentação, através da retirada do leite durante a jornada de trabalho, após o retorno das mães às atividades laborais.

“Toda mãe tem o direito de amamentar seus filhos. No trabalho, na faculdade, em casa e até quando estão privadas de liberdade. O aleitamento é também um direito da criança e, segundo o artigo 9º do Estatuto da Criança e do Adolescente, é dever do governo, das instituições e dos empregadores garantir condições propícias ao aleitamento materno”, lembra Danielle Aparecida.

Ela lista uma série de práticas indesejadas durante o processo de amamentação,  tais como o afastamento da mãe e do bebê nas primeiras horas após o parto e o uso de bicos artificiais, chupetas e mamadeiras, bem como a prescrição de outros líquidos que não sejam o leite materno na dieta do lactente antes dos 6 meses.

“Mães e bebês precisam estar juntos desde o momento do parto até a alta hospitalar, sempre que houver condições clínicas para tal. Bebês recém-nascidos devem ser amamentados na primeira hora após o parto. O colostro, aquele leite amarelado e grosso que a mãe produz nos primeiros dias após o nascimento, é muito nutritivo e ajuda a proteger o bebê contra infecções”, diz Conceição.

o Grupo Técnico Interinstitucional de Aleitamento Materno da SES e a Comissão Estadual de Banco de Leite Humano, coordenada pelo Instituto Fernandes Figueira, trabalham em conjunto para promover, proteger e apoiar iniciativas de aleitamento e doação de leite materno. “Tentamos mobilizar gestores e funcionários das maternidades para que mudem condutas e rotinas de boas práticas do pré-natal, parto e nascimento”, afirma

Agenda Positiva

Eventos sensibilizam sobre a importância da doação de leite

Inúmeras ações que buscam mobilizar a população para a importância da doação foram programadas neste 19 de maio, Dia Mundial de Doação de Leite Humano, nas mais diferentes regiões que integram a Rede Global de Bancos de Leite Humano. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde (SES), em parceria com o Instituto Fernandes Figueira (IFF-Fiocruz) promove ações voltadas para a sensibilização da sociedade a respeito da importância da iniciativa, e em prol da promoção, da proteção e do apoio ao aleitamento materno.

Para celebrar a data, será realizado o fórum “Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (Rbblh): Inovando em defesa da vida”, para debater sobre a importância do aleitamento materno e da doação de leite humano, com transmissão ao vivo pelo canal da rBLH no YouTube.  A rede ainda divulga os bancos nos estados e municípios brasileiros. Alguns têm campanhas próprias e grande parte dos bancos de leite humano celebram a data com eventos.

No próximo dia 23, o banco de leite humano do IFF/Fiocruz promoverá um evento de celebração com as mães doadoras e mães dos recém-nascidos prematuros internados na UTI Neonatal da instituição. Durante todo o mês de maio, a unidade está realizando o Curso de Aconselhamento em Aleitamento Materno para os seus profissionais de saúde.

Ainda no mês das mães, com o objetivo de conscientizar sobre a importância da doação de leite humano e o aleitamento materno, o Hospital Maternidade Herculano Pinheiro, em Madureira, promoverá ações de incentivo. O hospital vai proporcionar a quinta edição do Café com Leite Materno, no dia 24 de maio, às 10h. A intenção do evento é promover um reencontro entre as mulheres doadoras de leite e as mães receptoras. Além disso, a unidade também preparou uma apresentação de teatro, exposição de fotografias e entrega de certificados às mães.

As mulheres em fase de amamentação que se interessem em doar ou tirar dúvidas podem entrar em contato com o Banco de Leite Humano (BLH) do IFF/Fiocruz pelos números 0800 026 8877, (21) 2554-1703 ou (21) 9 8508-6576 (whatsapp).

Fonte: Ministério da Saúde, SES-RJ e SMS-Rio

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