A engrenagem que mantém a sociedade funcionando tem um rosto majoritariamente feminino e, muitas vezes, exausto. Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres.

O dado reforça a persistência de uma cultura que naturaliza o cuidado como uma “obrigação” inerente ao gênero feminino, transformando filhas, esposas e netas nas principais responsáveis por zelar por idosos, doentes e crianças sem qualquer remuneração.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2022, do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais que os homens em tarefas domésticas e de cuidado. No acumulado anual, essa diferença ultrapassa mil horas de trabalho invisível.

A “geração sanduíche” e o impacto na carreira

A pesquisa da PUCPR, de autoria das pesquisadoras Valquiria Elita Renk, Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia, destaca o perfil da chamada “Geração Sanduíche”: mulheres que administram simultaneamente o emprego formal, a gestão do lar e o cuidado direto com familiares.

O impacto no desenvolvimento profissional é severo. Segundo o estudo:

  • 61% das entrevistadas pararam de trabalhar para cuidar de um familiar em tempo integral.

  • Entre as agricultoras, 100% abandonaram a atividade produtiva para se dedicar ao cuidado.

  • 22% são jovens adultas (21 a 30 anos), indicando que o ciclo de interrupção de estudos e carreiras começa cedo.

“Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”, pontua a professora Valquiria Renk.

Exaustão e a “ética da responsabilidade”

As entrevistas realizadas em áreas urbanas e rurais do Paraná e de Santa Catarina revelaram um cenário de solidão e adoecimento. Muitas cuidadoras internalizam o esforço como uma missão moral. Ao serem questionadas sobre o motivo de acumularem tantas funções, a resposta recorrente foi: “porque é minha obrigação”.

Essa percepção resulta em mulheres “sozinhas, cansadas, exaustas e depressivas”, que negligenciam a própria saúde para priorizar a dos outros.

O caminho das políticas públicas

Enquanto países como Finlândia, Dinamarca e Uruguai já possuem sistemas de remuneração ou benefícios previdenciários para cuidadores, o Brasil ainda engatinha. A Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, busca estruturar esse apoio, mas a implementação é lenta.

Para as pesquisadoras, a solução exige uma mudança estrutural na educação de meninos e meninas, promovendo a divisão equitativa das tarefas desde cedo. Além disso, o reconhecimento jurídico começa a dar passos tímidos: alguns tribunais brasileiros já registram decisões onde ex-maridos são condenados a pagar pelo tempo que as mulheres dedicaram exclusivamente ao cuidado dos filhos e da casa.

O especial Mulheres, do portal Vida e Ação, analisa os desafios e as conquistas femininas na sociedade contemporânea.

Fontes e referências:

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