Todo ano, mais de 200 mil pessoas morrem no Brasil em decorrência do consumo do cigarro. No mundo, esse número chega a 5 milhões. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável no planeta. A OMS estima que em 2030 o número de mortes decorrentes do tabagismo chegue a 8 milhões.
Além dos dados alarmantes sobre a incidência de cânceres em fumantes, o consumo do cigarro é, também, um dos principais fatores de risco para doenças crônicas. O tabagismo é causador de enfisema pulmonar, bronquite crônica e doenças cardiovasculares. Mais de 50 doenças crônicas são causadas pelo consumo do cigarro.
Somada a esses riscos, o mundo enfrenta um novo desafio: ser fumante é um fator de risco para o novo coronavírus? O pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que o consumo de tabaco é um fator de risco importante para a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), além do fumante ser acometido com mais frequência por infecções como pneumonias, sinusites e tuberculose.
Se levarmos em conta as doenças listadas como fatores de risco para complicações pelo novo coronavírus como hipertensão, diabetes e doenças pulmonares, o tabagismo pode levar a todos elas”, explica o pneumologista.
Fumantes podem ter maior risco de infecção pela Covid-19 porque o fumar pode causar inflamações nas vias aéreas e enfraquecer o sistema imunológico. Além disso, pessoas que fumam podem já ter desenvolvido doenças pulmonares ou capacidade pulmonar reduzida. Já a contaminação pode acontecer pelo compartilhamento dos cigarros comuns, eletrônicos ou narguilé.
Fumar também está entre os hábitos que acarretam mais riscos à saúde como, por exemplo, doenças respiratórias. Entre elas a DPOC e asma, apresentam alguns sintomas parecidos com os da Covid-19 – falta de ar e chiado no peito. Isso deixa a população confusa e faz com que alguns pacientes suspendam seus tratamentos, na tentativa de não “mascarar” o contágio pelo novo coronavírus.
Porém, especialistas explicam que o que diferencia a infecção pelo novo Covid-19 dessas doenças é a presença de febre. Portanto, a suspensão dos tratamentos para facilitar a identificação é uma crença infundada. Na verdade, é fundamental manter o controle dessas doenças em dia. Pacientes que estão descontrolados podem agravar o quadro.
O caso acontece devido ao rápido contágio e ao nível de citocinas (moléculas inflamatórias) liberados para combater a doença que podem gerar infecção no pulmão e causar uma reação inflamatória fatal. Além disso, outro mito é acreditar que o contágio do vírus ser mais “fácil” em pessoas com problemas pulmonares.
Sete de cada 10 pessoas que faleceram no Brasil em decorrência da Covid-19 tinham mais do que 60 anos de idade e apresentavam pelo menos um fator de risco, como doenças do pulmão. Os dados mais atualizados do Ministério da Saúde referem-se à investigação de 2.082 casos de morte – 81% do total – e permitem traçar um perfil de óbitos causados pela Covid-19.
Entre os óbitos confirmados por Covid-19, 70% apresentavam pelo menos um fator de risco. A pneumopatia está entre as três principais comorbidades associadas, presente em 187 dos óbitos, sendo a maioria dos indivíduos com 60 anos ou mais. De acordo com o órgão, no entanto, pessoas de qualquer idade que tenham doenças como pneumopatia e asma precisam redobrar os cuidados com medidas de prevenção ao novo coronavírus.
Asma e DPOC
A DPOC é a quarta principal causa de morte de 2015 a 2016. A história natural da doença é progressiva e irreversível após uma certa quantidade de dano nos pulmões. Estima-se que no Brasil cerca de 12% da população adulta tenha DPOC, que provoca a destruição do tecido pulmonar e inflamação nos brônquios. É a principal causa de morte por doenças respiratórias nos adultos e representa 5,5% das mortes nessa população, com maior incidência à medida que a idade avança.
- O tabagismo é a principal causa da DPOC, mas outros poluentes inaláveis, como fumaça de fogo de lenha e material particulado de motores a combustão, também podem provocar a doença. O principal sintoma é a falta de ar, que muitas vezes o tabagista acha que se deve ao avançar da idade e ao sedentarismo. Conforme a doença progride, a falta de ar torna-se cada vez mais intensa e pode ocorrer aos mínimos esforços, como tomar banho, vestir-se ou mesmo ficar repouso.
Já a asma é a doença respiratória crônica mais comum. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), a asma atinge cerca de 235 milhões de pessoas em todo o planeta. Estudos apontam que a asma é responsável pela morte de dois milhões de pessoas no mundo e 2 mil mortes por ano no Brasil. A asma atinge de 10% a 25% da população brasileira – pelo menos 20 milhões de pessoas. A doença afeta aproximadamente 20% das crianças e adolescentes e 80% dos asmáticos têm rinite.
- Responsável pela quarta causa de internação no Brasil, a asma é definida como uma obstrução brônquica, geralmente ocasionada por um processo inflamatório.
- A asma pode ser alérgica e não alérgica. A mais comum e que atinge principalmente as crianças é a asma alérgica, desencadeada pelos alérgenos inalantes como poeira, ácaros, fungos e pólen. Os sintomas são Inflamação dos brônquios, provocando falta de ar, sibilância, tosse, dor no peito e opressão torácica. Os sintomas costumam ser desencadeados por infecções respiratórias, exercício e exposição a alérgenos.
Ambas, DPOC e asma, acarretam limitações físicas, emocionais e intelectuais, gerando consequências negativas na qualidade de vida do paciente e de sua família. Configuram um importante problema de saúde pública, pelo impacto na vida dos pacientes, embora sejam evitáveis em muitos casos de DPOC e ou controláveis, como ocorre na asma”, afirma Mauro Gomes, chefe da equipe de pneumologia do Hospital Samaritano e professor de pneumologia da faculdade de ciências médicas da Santa Casa.
A ampliação do acesso à atenção primária à saúde e a medicamentos gratuitos para o tratamento dessas doenças possibilitam o diagnóstico e o tratamento precoces, proporcionando um cuidado contínuo e integral e, consequentemente, ampliam a qualidade de vida dos pacientes, reduzem custos para o sistema de saúde e evitam mortes prematuras.