O feminicídio no Brasil não é apenas uma questão de gênero, mas um reflexo profundo das desigualdades raciais e da carência de infraestrutura em pequenos municípios. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados nesta quarta-feira (4), as mulheres negras representam 62,6% das vítimas de feminicídio registradas entre 2021 e 2024. As mulheres brancas somam 36,8%, enquanto indígenas e amarelas representam 0,3% cada.

Para Samira Bueno, diretora executiva do FBSP, o dado evidencia que o assassinato de mulheres não pode ser compreendido de forma isolada de questões estruturais da sociedade. “A sobrerrepresentação de mulheres negras evidencia a extrema vulnerabilidade dessa parcela da população”, afirma.

O silêncio das pequenas cidades

Um dos pontos mais alarmantes do levantamento é a distribuição geográfica da violência. Os municípios com até 100 mil habitantes concentram 50% dos feminicídios do país. O problema é agravado pela falta de assistência:

  • Delegacias da Mulher: Presentes em apenas 5% das pequenas cidades.

  • Casas Abrigo: Disponíveis em apenas 3% desses municípios.

Diferente das grandes metrópoles, onde 98% das cidades possuem delegacias especializadas, o interior do país sofre com um vazio institucional que deixa as mulheres desamparadas justamente onde o crime é mais frequente.

Perfil da violência: O perigo dentro de casa

Os dados reiteram que o feminicídio é, majoritariamente, um crime de proximidade. Em 66,3% dos casos, o assassinato ocorre dentro da residência da vítima, utilizando instrumentos cotidianos.

  • Vínculo afetivo: 80,7% dos crimes foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros.

  • Armas utilizadas: 48,7% das mortes foram causadas por arma branca (facas e ferramentas domésticas).

  • Perfil etário: Metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos, mulheres no auge de sua idade produtiva e, muitas vezes, as principais cuidadoras de filhos e dependentes.

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A urgência de políticas descentralizadas

A quase exclusividade masculina na autoria dos crimes (97,3%) aponta para um padrão de masculinidade tóxica baseado no controle e na posse. Diante deste cenário, o FBSP defende que o combate ao feminicídio não depende apenas da criação de novos prédios, mas da integração de serviços que já existem.

A proposta é capacitar Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Assistência Social (CRAS) e delegacias comuns para que funcionem como uma rede de acolhimento estruturada, especialmente em cidades pequenas. “A violência letal não surge sem sinais prévios. Quando o feminicídio ocorre, ele expõe as falhas acumuladas na capacidade de proteção do Estado”, conclui o relatório.

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Radiografia do feminicídio (2021-2024)

Perfil da Vítima/Crime Porcentagem
Vítimas Negras 62,6%
Vítimas Brancas 36,8%
Cometidos por companheiros/ex 80,7%
Ocorridos na própria residência 66,3%
Uso de arma branca 48,7%
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