O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo alerta para o aumento de casos de esporotricose animal. Entre 2022 e 2023, o número de casos confirmados de esporotricose animal no estado aumentou de 2.417 para 3.309. A doença é considerada preocupante e “já representa um impacto significativo na saúde animal e humana”.
Os fungos afetam principalmente os gatos, pois são bem adaptados à temperatura corporal da espécie, considerada chave para a cadeia de transmissão. A esporotricose é um risco para animais soltos, sendo considerada como “um dos principais desafios sanitários urbanos relacionados a zoonoses no Brasil”, informa o conselho, que editou norma técnica para os profissionais paulistas.
Cenário alarmante: números em ascensão
Até o final da década de 1990, a esporotricose era adquirida, principalmente, por contato com espinhos e gravetos contaminados. Mas tudo mudou a partir de uma alteração de padrão detectada no Rio de Janeiro e posteriormente em outras regiões do país.
A doença é observada em todas as regiões do país, com maior incidência nos estados do Sul e Sudeste. Há transmissão entre animais domésticos e selvagens e com transmissão de cerca de mil casos por ano para humanos, e tem avançado continuamente desde 2011 em território paulista, se espalhando por municípios da Região Metropolitana e do litoral.
Estados como Paraná, São Paulo e Pernambuco registraram aumentos exponenciais antes mesmo da notificação compulsória da doença. Até setembro de 2023, em São Paulo, 403 casos humanos foram confirmados, contra 388 no mesmo período do ano anterior.
No Paraná, por exemplo, os casos humanos saltaram de 253, em 2022, para 853 em 2023. Entre os felinos, o crescimento foi ainda mais expressivo: de 1.412 para 3.290 no mesmo período. Já Pernambuco registrou 287 diagnósticos humanos em 2022 e 155 até outubro de 2023.
Subnotificação e mitos sobre a doença mascaram a realidade
Doença passou a ser de notificação compulsória desde janeiro de 2025
Uma conquista importante veio no final de janeiro de 2025. O Ministério da Saúde publicou uma portaria em março de 2025, tornando a esporotricose uma doença de notificação compulsória. A esporotricose humana passou a fazer parte da Lista Nacional de Notificação Compulsória e deve ser registrada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
Para especialistas, a medida dará, em um futuro próximo, uma perspectiva mais realista do avanço da doença. “Esperamos que, com isso, iniciativas públicas e maior conscientização da população resultem em melhor controle da esporotricose”, comenta o médico-veterinário e presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná, Adolfo Sasaki.
Só assim o Governo vai conseguir enxergar qual o real número de casos e recalcular o investimento necessário para combater a doença”, enfatiza o médico dermatologista Dayvison Freitas.
Apesar desse crescimento, a notificação da doença em animais ainda não é obrigatória na maior parte do território paulista, o que dificulta a mensuração real do problema e o planejamento de estratégias eficazes de controle”, explica a nota do Conselho.
Com o aumento de casos a variante humana da doença passou a ter notificação compulsória desde o primeiro semestre de 2025, mas suas variantes zoonóticas não o tem. O Projeto de Lei n˚ 707/2025, que tramita na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), propõe tornar obrigatória a notificação de todos os casos suspeitos e confirmados de esporotricose em humanos e animais aos serviços de vigilância epidemiológica estadual. Hoje há orientação para que casos em animais sejam notificados.
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Classificada como zoonose, a infecção ocorre quando o fungo penetra camadas profundas da pele de humanos e animais, geralmente por meio de cortes ou arranhões. Em humanos, os sintomas variam de lesões cutâneas semelhantes a picadas de mosquito até formas graves, como a pulmonar, que pode ser confundida com tuberculose. Nos gatos, a esporotricose é ainda mais agressiva, com feridas ulceradas que evoluem rapidamente, podendo atingir o sistema linfático e órgãos internos.
Os gatos contraem a doença por inoculação traumática, seja pelo contato com solo – ao cavar – com espinhos, lascas de madeira ou matéria orgânica contaminados, seja pelo contato direto com outros animais doentes, principalmente durante brigas, arranhões e mordeduras, ou, ainda, pelo contato com secreções de lesões cutâneas, considerada a principal via de contaminação”, informa acoordenadora técnica médica-veterinária do conselho, Carla Maria Figueiredo de Carvalho.
O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo alerta que os sintomas da esporotricose em humanos podem surgir entre poucos dias e até três meses após a infecção. explica como a doença progride entre os humanos.
Geralmente, a doença se manifesta inicialmente como um pequeno nódulo indolor que, com o tempo, pode aumentar de tamanho e evoluir para uma ferida aberta. As formas clínicas da esporotricose humana dependem do estado imunológico do paciente e da profundidade das lesões, podendo se apresentar de forma cutânea, atingindo a pele, o tecido subcutâneo e o sistema linfático, ou de forma extracutânea, com disseminação para órgãos como pulmões, ossos e articulações”, explica Carla Maria.
O atendimento médico deve ser procurado logo que surjam os primeiros sintomas. Quando não tratada adequadamente, a esporotricose pode evoluir para feridas extensas e formação de nódulos, e pode se disseminar para além da pele em pessoas com imunossupressão, atingindo pulomões, ossos e articulações.
O Conselho também alerta para a importância de tratar animais doentes e evitar seu abandono, quebrando a cadeia de infecções. Gatos com sinais suspeitos devem ser avaliados por médico-veterinário e, sempre que possível, submetidos a exames laboratoriais para confirmar o diagnóstico.
Como identificar os sinais da esporotricose
Durante o Dermatrop – Simpósio de Dermatologia Tropical e Doenças Negligenciadas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), realizado em abril de 2025 em São Paulo, ele explicou que a doença se manifesta principalmente na pele, mas pode atingir outros órgãos em casos mais graves.
As lesões normalmente começam como umas bolinhas pequenas, conhecidas como pápulas, que aumentam de tamanho e viram nódulos, que estouram. Além disso, outros começam a surgir no trajeto dos vasos linfáticos”, descreve o médico.
Segundo Dr. Freitas, a forma mais comum da doença é a linfocutânea, mas também existe a forma fixa, em que a lesão não se espalha, e formas mais raras e graves que atingem os olhos, ossos, pulmões e até o sistema nervoso central. “Menos de 10% dos casos têm apresentação diferente. Em raras situações, pode ocorrer até pneumonia ou meningite”, alerta ele.
Gatos: vítimas, não vilões
A doença não é uma sentença de morte, mas exige atenção e ação coletiva. Enquanto os números crescem, a desinformação e o abandono de animais continuam a alimentar a epidemia. Combater a doença requer união, educação e, acima de tudo, responsabilidade.
Embora sejam apontados como a principal fonte de transmissão, os gatos também são as maiores vítimas da negligência humana, especialmente pela falta de cuidados. O médico chama atenção para o papel do abandono animal na disseminação da doença.
O abandono de animais doentes, além de ser crime de maus-tratos, agrava a situação. “Ao descartar um gato com esporotricose, o responsável não só condena o animal, mas também cria novos focos da doença, contaminando o ambiente e colocando outras vidas em risco”, explica Sasaki.
Recentemente, o CRMV-PR promoveu uma ampla campanha de conscientização da população sobre a importância de não deixar os gatos com acesso às ruas, além da responsabilidade com o tratamento e a higiene ambiental.
Segundo a médica-veterinária Farah de Andrade, e consultora da rede de farmácias de manipulação veterinária DrogaVET: “Os gatos não são os vilões, mas sim as vítimas, que precisam de cuidado e proteção”.
A associação equivocada entre gatos e a transmissão da esporotricose tem levado a atitudes extremas, como o abandono e até o sacrifício desses animais. “Assim como ocorreu com os macacos durante a febre amarela em 2018, os gatos estão sendo injustamente culpados. Eles são vítimas da doença, não os responsáveis por sua disseminação”, alerta a Dra. Farah.
Sinais clínicos e prevenção
Em humanos, os sintomas incluem feridas na pele, febre, dor e, em casos graves, dificuldades respiratórias. Nos gatos, as lesões ulceradas são o primeiro sinal, seguidas de secreções, falta de apetite e letargia. “Quanto mais rápido o diagnóstico, maiores as chances de cura. A esporotricose tem taxas de cura superiores a 90% quando tratada adequadamente”, reforça Farah.
As principais medidas preventivas são:
- Manter os animais dentro de casa;
- Realizar passeios apenas com supervisão;
- Castrar os pets para evitar fugas e contato com outros animais;
- Utilizar luvas ao manipular terra, plantas ou animais suspeitos;
- Isolar e desinfetar diariamente o ambiente de animais em tratamento.
Diagnóstico e tratamento ainda enfrentam desafios
Na rede pública, o diagnóstico é feito, em geral, de forma clínico-epidemiológica. No entanto, a confirmação micológica (detectar o fungo a partir de amostra da lesão), apesar de relativamente simples, exige coleta de material da lesão e cultivo em laboratório especializado, o que pode levar semanas.
O tratamento padrão dura de três a quatro meses, mas pode se estender. O principal remédio é administrado por via oral. Para casos especiais, como grávidas, existem alternativas como criocirurgia e termoterapia (compressas mornas). Para pacientes polimedicados, estas também são alternativas válidas e existem outras poucas opções de medicamentos, de acordo com o médico.
Ainda não existe vacina para a esporotricose. A prevenção passa, sobretudo, pelo controle da doença nos animais infectados. Mas a ciência também avança em busca de novas soluções. “Estudos com laser de baixa potência têm mostrado bons resultados na cicatrização e alguns medicamentos estão em estudo, mas ainda precisamos de mais evidências”, ressalta.
Enquanto isso, o melhor remédio continua sendo a informação, o cuidado com os animais e a vigilância ativa sobre os sinais da doença. A conscientização sobre a doença, o diagnóstico precoce e o tratamento correto são fundamentais para frear o avanço da esporotricose.
Existe tratamento para esporotricose, porém, ele é longo e os felinos não costumam aceitar a administração de remédios facilmente. Por isso, a manipulação de medicamentos é uma excelente alternativa. Fórmulas com flavorizantes, como salsicha, linguiça ou frango e formas farmacêuticas, como pasta oral ou molho, facilitam a adesão ao tratamento”, diz a Dra Farah.
Niterói oferece tratamento gratuito contra fungo que atinge gatos
Centro de Controle Populacional de Animais Domésticos realiza atendimentos às segundas-feiras, das 10h às 16h, no Fonseca
A Prefeitura de Niterói oferece tratamento gratuito para animais com esporotricose, uma micose profunda causada por fungos da família Sporothrix que, em 95% dos casos, acomete os gatos e pode ser transmitida a humanos. Os tutores podem levar os animais com suspeita da doença para consulta veterinária e tratamento gratuitos no Centro de Controle Populacional de Animais Domésticos (CCPAD), no Fonseca.
O Centro de Controle Populacional de Animais Domésticos oferece, atualmente, 20 vagas de consulta com o veterinário às segundas-feiras, das 10h às 16h, com atendimento realizado por ordem de chegada. O animal será avaliado e passará por exame clínico, recebendo medicamento antifúngico para tratamento, além de acompanhamento a cada 30 dias.
Estamos recebendo gatos com suspeita de esporotricose para avaliação e tratamento gratuitos. Então, convocamos a todos que fiquem atentos e observem seus felinos e não deixem de buscar atendimento. A prevenção é sempre a melhor opção”, alerta Marcelo Pereira, coordenador especial de Direitos dos Animais em Niterói.
O especialista explica que o tutores devem manter uma rotina de cuidados com a saúde e o bem-estar dos animais, buscando sempre uma consulta com o veterinário. Em caso de suspeita da doença, os tutores podem levar o animal no CCPAD, na Travessa Luis de Matos, 105, Fonseca, e apresentar o comprovante de residência para ter direito à consulta gratuita.
O que fazer em caso de morte do gato contaminado?
A doença é caracterizada por feridas que não cicatrizam e, em geral, aparecem nas regiões da face, focinho, orelhas e patas. Porém, as marcas podem surgir também em outras partes do corpo, sendo necessário o isolamento do animal, devido ao risco de transmissão a pessoas e a outros animais. Outra característica evidente são áreas sem pelo (alopecia).
Uma vez confirmada a doença, o Ministério da Saúde recomenda uso de luvas no manuseio do animal, que deverá ser separado do convívio das pessoas da residência, principalmente de crianças, e recolhido em local seguro.
Utensílios, brinquedos e outros objetos precisam ser lavados com água e sabão e desinfetados diariamente. Em caso de morte, o animal não deverá ser enterrado ou jogado no lixo, e sim encaminhado ao veterinário para incineração o mais rapidamente possível. Os locais onde o animal habitava precisam ser descontaminados, preferencialmente com hipoclorito de sódio.












