Do fio da cabeça até o dedão do pé: entenda a dor da fibromialgia

Doença invisível causa dor no corpo inteiro, mas não aparece em exame. Entenda o desafio do diagnóstico que pode levar a erro médico

A fibromialgia é uma doença crônica que causa dores no corpo inteiro e afeta principalmente as mulheres (Foto: Banco de Imagens)
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A campanha Fevereiro Roxo objetiva conscientizar as pessoas sobre três doenças – fibromialgia, Ahzheimer e lúpus. E na terceira matéria do nosso especial sobre o tema no Portal ViDA & Ação, vamos falar da fibromialgia, uma síndrome clínica que se manifesta por meio de dores no corpo todo, principalmente na musculatura.

De acordo com levantamento da Sociedade Brasileira de Estudos para a Dor (SBED), a fibromialgia acomete 3% da população no Brasil – algo em torno de mais de 6 milhões de pessoas, com maior incidência (90% dos casos) entre mulheres com idades de 25 anos a 50 anos. Mundialmente, a doença afeta entre 2,5% a 6% da população.

De acordo com a médica intervencionista em dor, Amelie Falconi, queixas sobre dores que podem ser sinal de fibromialgia estão presentes em pelo menos 5% dos pacientes que vão a um consultório de Clínica Médica e em 10 a 15% dos pacientes que vão a um consultório de Reumatologia. De cada 10 pacientes com fibromialgia, sete a nove são mulheres, na maioria, de meia idade.

‘Pacientes são taxadas de frescas’, diz médica especialista em dor

Médica intervencionista em dor, Amelie Falconi (Fotos: Divulgação)

Infelizmente, a fibromialgia não raramente é cercada de muito preconceito, por ser considerada uma doença invisível porque não aparece em exames laboratoriais e de imagem, sendo, portanto, de difícil diagnóstico, principalmente porque ele é realizado apenas em âmbito clínico.

“As dores são alvo de bastante descrença. Nunca são consideradas reais, mas emocionais, psicológicas, fruto até da falta de religiosidade. Por isso as pacientes costumam ser taxadas de ‘frescas’, sofrendo um tipo de silenciamento, não apenas de parente e amigos, mas também do sistema de saúde”, afirma.

A médica reumatologista Virginia Trevisani, professora do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa), lembra que muitas mulheres, antes de conseguirem descobrir a doença, sofrem preconceito pela descrença dos próprios familiares e amigos na dor que estão sentindo, sendo consideradas exageradas ou frágeis.

“Mas não é exagero afirmar que, como muitas portadoras descrevem, a fibromialgia causa “dores do fio de cabelo até o dedão do pé”. Trata-se de uma condição na qual as sensações ficam amplificadas”, afirma a especialista.

Dores intensas abalam a saúde emocional das pacientes

Mas as dores são sim bem reais. “É como se qualquer dor fosse ampliada”, diz Dra. Amelie. Uma característica bem comum de quem sofre com a fibromialgia é a grande sensibilidade à dor, que pode ser desencadeada pela compressão da musculatura ou até por um simples toque.

Além disso, ela pode apresentar diversas manifestações preocupantes como fadiga, sono não reparador, alterações na memória e na concentração, formigamentos, dores de cabeça, tontura, alterações intestinais. Consequentemente, questões emocionais como depressão e ansiedade surgem também, comprometendo significativamente a qualidade de vida das pacientes.

“Como se não fosse suficiente, pacientes portadores da síndrome apresentam diversos outros sintomas, entre os quais, fadiga (cansaço patológico), sono não reparador e consequentemente, repercussões clínicas significativas na parte emocional, com o desenvolvimento de quadros depressivos e de ansiedade”, relata.

Diagnóstico excessivo ou errado é comum

A fibromialgia é uma síndrome de sensibilização central que apresenta uma dor crônica generalizada, mas não aparece em exames laboratoriais e de imagem.

“O diagnóstico é sobretudo clínico, o que faz com que seja corriqueiro o exagero no momento de determinar se o paciente é portador ou não da síndrome”, afirma a médica intervencionista em dor.

Segundo ela, exames costumam ser solicitados somente para descartar outras hipóteses de patologias que apresentam quadros semelhantes (cansaço e dores musculares), como, por exemplo, o hipotireoidismo.

“O paciente que passa em consultas ou dá entrada no pronto-socorro com queixas de dores em vários lugares costuma ser diagnosticado pelos médicos com fibromialgia, mas nem sempre ele apresenta a doença”, diz ela.

Existe uma forma correta de diagnosticar a fibromialgia?

Para evitar o diagnóstico errado, Dra. Amelie recomenda que a pessoa faça uma reavaliação com um médico especializado em dor. Mas a pergunta é: existe uma forma correta de diagnosticar a fibromialgia? Neste Fevereiro Roxo, é necessário abordar as metodologias de diagnóstico a fim de evitar erros.

“O alerta neste importante mês para fibromialgia é para médicos e pacientes ficarem atentos à constância dos diagnósticos diferenciais da Fibromialgia e, assim, não cair na cilada dos vieses cognitivos”, afirma Felipe Mendonça de Santana, reumatologista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretor de operações da Imuno Brasil.

No artigo “Cognitive biases in fibromyalgia diagnosis”, publicado em 2022 na revista científica Joint Bone Spine (p. 105339-105339, 2022), o especialista e autor fala mais sobre o método com base nos critérios, também conhecido como Fibromialgia por Critérios (CritFM), que embasa os estudos na área. (Entenda mais no artigo abaixo).

Exercício físico é o principal tratamento

Médica intervencionista em dor, Amelie Falconi (Fotos: Divulgação)

Apesar de ainda não ter cura, existem algumas formas de mitigar os sintomas e controlar o avanço da doença. A principal ferramenta terapêutica é o exercício físico.

“Além de medicamentos, a prática regular de exercícios físicos, como aeróbicos e de fortalecimento muscular, pode ajudar muito na melhora das dores e no aumento da qualidade e vida de quem vive com a fibromialgia”, conta Virgínia Trevisani.

Para a médica intervencionista em dor, Amelie Falconi, o estilo de vida deve ser considerado como um fator gerador e de tratamento para o portador da dor crônica. “O paciente precisa inicialmente enquadrar-se em uma terapia de movimento, como a fisioterapia e/ou exercício físico, por exemplo”, diz

A especialista, entretanto, reconhece que a inserção do exercício físico na rotina do portador de fibromialgia é bem desafiadora. “Imagine como é difícil fazer com que um paciente que tem dor no corpo inteiro, está sempre fadigado e não dorme direito, comece a praticar atividade física”, pondera.

Assim, a medicação também é um fator importante para o tratamento da síndrome. “Ela é que o paciente muitas vezes precisa para conseguir fazer as mudanças de estilo de vida necessárias – principalmente as relacionadas com o exercício físico – para mitigar suas dores”, destaca.

Contudo, enfatiza a médica intervencionista em dor, o exercício físico deve ser sempre considerado a principal forma de tratamento. O que não significa, segundo Dra. Amelie, que o paciente deva adotar uma carga pesada de exercícios logo de início.

“Trata-se de uma paciente com dor crônica e fadiga, que não tem o costume de fazer atividades justamente por causa disso. Desse modo, é importante começar de maneira leve e gradual, para que o corpo se adapte a essas atividades”, diz a médica.

Terapia com psicólogo e controle da alimentação

Virginia Trevisani, médica reumatologista e professora da Unisa (Foto: Divulgação)

Além dos sintomas já descritos, a fibromialgia causa alterações gastrointestinais em seus portadores. Por isso, a médica intervencionista em dor e a médica reumatologista orientam os pacientes a seguirem uma dieta alimentar adequada, com pouco ingestão de industrializados, enlatados e refinados.

“O consumo de  “comidas naturais” como arroz, feijão, verdura, legumes, frutas, carnes e ovo, é importante  para o controle dos sintomas e também para regular a microbiota intestinal. Uma dieta alimentar adequada também pode ser empregada como tratamento adjuvante para as dores causadas pela síndrome”, recomenda Amélie.

“Sem dúvida, uma dieta alimentar adequada também pode ser empregada como tratamento adjuvante. Uma outra forma de tratamento é a terapia cognitiva-comportamental, que auxilia as pacientes a conviverem de forma mais fácil com a sua condição e a lidarem melhor com as suas relações sociais e familiares”, completa a médica reumatologista Vírginia Trevisani.

Por fim, caso a pessoa perceba que sente dores persistentes e constantes no corpo, aparentemente sem um motivo específico, o mais importante é buscar a ajuda médica para ter acesso a um diagnóstico correto e para receber orientação a respeito dos tratamentos adequados. “Quanto antes a paciente for diagnosticada, mais chance ela terá de ter melhor qualidade de vida”, ressalta Virgínia.

Palavra de Especialista

Fibromialgia: os vieses cognitivos do diagnóstico que podem levar ao erro

Por Felipe Mendonça de Santana*

Como não há um exame patognomônico capaz de diagnosticar a fibromialgia, o diagnóstico geralmente é realizado, na prática clínica, por meio de achados e experiências subjetivas do profissional, o que é referido na literatura médica como Fibromialgia Clínica (ClinFM). No entanto, este método revela discrepâncias nos resultados, uma vez que o diagnóstico pode variar consideravelmente entre os médicos.

Esta forma de diagnóstico é fundamentada em critérios validados pela pesquisa clínica, por meio de uma pontuação dos sinais e sintomas do paciente, ou seja, como ele enxerga e sente o que está acontecendo com seu próprio corpo. Essa etapa é realizada a partir de um questionário. Apesar deste método ser fundamental para a homogeneização dos doentes com objetivo de pesquisa, ele acarreta falsos positivos e negativos com grande frequência, na prática clínica.

Apesar da importância do parecer do paciente, que pode ser quantificado através dos critérios diagnósticos, a avaliação médica é essencial para concluir algum resultado, principalmente para excluir as possibilidades de doenças reumáticas autoimunes. Isso acontece porque muitas outras doenças podem se apresentar com um quadro semelhante, muitas vezes preenchendo todos os critérios da CritFM.

E para que isso aconteça de forma certeira, os profissionais também devem considerar os vieses cognitivos do diagnóstico da fibromialgia, ou seja, os erros e tendências errôneas do raciocínio, que são inerentes aos seres humanos, e que podem levar o médico a uma conclusão diagnóstica equivocada, conforme vemos abaixo.

– Viés de representatividade: estereótipos pré-formados de pacientes fibromiálgicas, muitas vezes com características que não fazem parte de fato da doença, que levam o médico a diagnosticar erroneamente como fibromialgia pacientes que se encaixem neste estereótipo pré-formado.

– Viés de confirmação: uma vez elaborando uma opinião pré-formada diagnóstica para determinado paciente, o médico tende a ignorar novas informações que sugerem um diagnóstico outro que não o inicialmente realizado. Assim, pacientes inicialmente diagnosticados como fibromialgia, seguem sendo taxados como fibromiálgicos, mesmo surgindo informações que falem contra o diagnóstico, que mereceria ser revisto.

– Viés de satisfação da pesquisa: refere-se à tendência de não explorar mais exames ou sintomas, uma vez que a fibromialgia foi apontada como diagnóstico, podendo deixar de lado novas avaliações diagnósticas que poderiam mudar o curso do raciocínio e tratamento.

– Viés de momentuma falta de revisar continuadamente um diagnóstico, pode levar ao erro, pois podem desaparecer alguns sintomas e outros serem descobertos, mudando totalmente o resultado. Este viés representa uma “inércia diagnóstica” no qual existe uma resistência para que um diagnóstico seja continuadamente revisto quanto à sua pertinência.

*Médico reumatologista pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretor de operações da Imuno Brasil.

Com Assessorias

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