Doença de Chagas: baixo número de diagnósticos ainda preocupa

Com tratamento pelo SUS, mas com dificuldades de diagnóstico, Brasil precisa incluir Doença de Chagas na rede de atenção básica

OPAS alerta para diagnóstico e tratamento da doença de Chagas (Foto: OMS)
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Transmitida pelo barbeiro, um inseto que pode estar presente na zona rural, com preferência por casas sem alvenaria, a Doença de Chagas afeta cerca de seis a oito milhões de pessoas no mundo. É considerada uma doença tropical negligenciada (DTN) de abrangência global, mas que afeta principalmente as populações vulneráveis da América Latina, onde estima-se que apenas 10% de seus portadores sabem de sua condição e só 1% recebe tratamento.

Presente também em países de clima tropical, a infecção pode atingir outras regiões, a depender da presença do seu principal vetor. Recentemente, devido à globalização, passou a ser uma doença presente na Europa e na Ásia. Mais de 75 milhões moram em áreas de risco de contágio pelo barbeiro, sendo que 1,12 milhão são mulheres em idade fértil.

Na América Latina, aproximadamente 12 mil pessoas morrem todos os anos por causa dessa doença e entre 8 mil e 15 mil bebês são infectados por meio da chamada transmissão vertical, aquela que pode acontecer durante a gravidez ou o parto. Sem tratamento, entre 30% e 40% dos afetados desenvolvem sérias complicações de saúde, principalmente no coração e no sistema digestivo.

Em 2022, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) – braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a AL –  contabilizou 1,2 milhão de casos no Brasil. Um dos grandes desafios está no monitoramento das regiões onde existem mais casos da infecção, no diagnóstico precoce e na acessibilidade ao tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Mais de um século depois da descoberta da Doença de Chagas, milhões de pessoas ainda permanecem infectadas, principalmente na América Latina, e a grande maioria delas não sabe sequer que tem a doença. Mesmo com a contagem da Opas, os dados sobre casos não registados podem variar, principalmente pela dificuldade de realizar diagnósticos em áreas remotas.

Dificuldade no diagnóstico em regiões distantes

Na região amazônica, foram notificados 2.215 casos de pessoas com 18 anos, ou mais, diagnosticadas com a doença de Chagas, segundo Boletim Epidemiológico lançado em abril de 2022. De acordo com o médico e obstetra Juan Carlos Boado, nos últimos dez anos, já causou, em média, quatro mil óbitos por ano no Brasil, segundo o Ministério da Saúde.

Juan Carlos atua no Hospital Bom Pastor, em Guajará-Mirim, cidade localizada na floresta amazônica, no interior do estado de Rondônia. Ele alerta sobre os métodos de diagnóstico realizados na unidade hospitalar, formas de tratamento e prevenção à infecção. Atendendo a população indígena, o Dr. Juan também fala sobre a importância da assistência específica dada à essa comunidade.

“O maior problema da doença é a incerteza do número de pacientes, especialmente no Brasil. A falta de condições de diagnóstico ainda é um obstáculo complexo, principalmente em nível laboratorial”, comenta Marcus Soalheiro, vice-presidente da Nortec Química. Presente no Brasil, a farmacêutica é uma das poucas fabricantes no mundo do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) usado na produção do benznidazol (BZN), usado na principal medicação contra a doença.

Doença negligenciada: desafio é diagnóstico em postos de saúde

No Dia Mundial da Doença de Chagas, 14 de abril, a OMS faz um apelo para que esta infecção parasitária seja parte da estratégia de saúde primária dos governos. Para tentar reverter essa situação de desconhecimento em relação ao problema e escassez de oferta de cuidados e diagnóstico aos pacientes, um grupo de organizações se une para chamar a atenção para a necessidade de integrar o atendimento de pacientes de Chagas.

Se devidamente implantada, a integração à Atenção Primária à Saúde permitirá que uma pessoa com Chagas tenha sua condição detectada no nível mais elementar de atendimento, que no Brasil é realizado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), passando a ter acesso a diagnóstico oportuno, tratamento da doença e acompanhamento em estruturas de saúde perto dos lares dos pacientes.

A experiência de organizações como DNDi, Médicos Sem Fronteiras (MSF) e CUIDA Chagas, no Brasil e em outros países, tem demonstrado ser primordial implementar, já na saúde básica, ações de prevenção e de vigilância de pessoas e territórios em risco para doença de ChagasDa mesma forma, a saúde básica deve ter mais protagonismo em políticas de diagnóstico, tratamento e cuidado das pessoas acometidas.

“Entendemos que a detecção e o tratamento de Chagas podem e devem ser feitos na Atenção Básica de Saúde. Atualmente, só existem cuidados para esses pacientes em centros especializados, que ficam distantes de seus locais de moradia. Eles precisam viajar para conseguir tratamento ou ficam sem atendimento,” explica Andrea Silvestre, Investigadora Principal do CUIDA Chagas.

Queda no desenvolvimento de novos remédios

Mesmo diante de um cenário comum a outras DTNs, de pouco investimento em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, há tratamentos disponíveis que permitem controlar e até mesmo curar a doença, se ela for diagnosticada cedo, em sua etapa inicial.

“Nossa única chance de retirar do esquecimento milhões de pessoas é a implementação de metas e incentivos para notificação, controle e eliminação da doença a partir da atenção primária de saúde, apoiada em Linhas de Cuidado que fortaleçam uma atenção descentralizada”, afirma Sergio Sosa-Estani, diretor executivo da DNDi na América Latina.

Ele também chama a atenção para a queda dos investimentos no desenvolvimento de novos fármacos e provas diagnósticas para Chagas e DTNs em geral. “É essencial a implantação de mecanismos de financiamento para pesquisas relacionadas a essas doenças, pois somente com um fluxo de recursos contínuo conseguiremos atingir as metas de controle e eliminação”, diz ele.

O diagnóstico, o tratamento e o cuidado integral da doença de Chagas trazem benefícios importantes, incluindo a prevenção da transmissão vertical, a grande possibilidade de cura em bebês e o controle e redução da progressão para formas avançadas da doença em adultos.

Todos esses benefícios podem ser conquistados caso exista conhecimento sobre as particularidades de cada contexto epidemiológico, protocolos adequados, conscientização social e maior investimento público e privado. Para isso, mecanismos de articulação institucional, pesquisa científica e inovação tecnológica são fundamentais para melhorar a informação disponível sobre o impacto socio-sanitário da doença e para viabilizar a implementação de mais ações e políticas concretas.

“É importante reconhecer que alguns avanços estão ocorrendo, mas é preciso ir além. É necessário garantir atendimento para todos em todo o país, e só será possível alcançar esse objetivo com a capacitação adequada dos profissionais de saúde e trazendo o atendimento para a ponta, ou seja, para as Unidades Básica de Saúde. Também é urgente avançar em estratégias de busca ativa para diagnóstico e garantir a sustentabilidade da oferta de tratamento”, afirma Clara Alves, especialista de advocacy e assuntos humanitários de MSF.

O que leva à proliferação do barbeiro no Brasil?

Atualmente, a Nortec Química é única empresa brasileira e uma das poucas no mundo que fabrica o IFA benznidazol (BZN), sendo sua produção de aproximadamente 150kg por ano, decorrente de um projeto tecnológico fruto de parceria com a farmacêutica suíça Roche.

“A produção do benznidazol é uma das várias linhas estratégicas essenciais para o país. Este medicamento é distribuído gratuitamente pelo SUS e visa diminuir os impactos da doença de Chagas na população. No entanto, precisamos avançar na compreensão do cenário socioeconômico que leva à proliferação do inseto transmissor, bem como no acesso às mais diversas populações que precisam desse tratamento”, comenta Marcelo Mansur, CEO da Nortec Química.

Em 2020, foi lançado o Consórcio Chagas, que visa diagnosticar, tratar e cuidar integralmente mulheres e recém-nascidos que vivem com a DC. O Consórcio é coordenado pela Fiocruz e envolve quatro países endêmicos da América Latina: Bolívia, Colômbia, Paraguai, além do Brasil. Com base neste e em outros recentes estudos clínicos que apontam a eficácia do benznidazol para o tratamento da enfermidade, há expectativa de aumento significativo da demanda pelo uso de BNZ.

Agenda Positiva

Para marcar o Dia Mundial da Doença de Chagas, o Ministério da Saúde, por meio do GT Chagas, realiza um evento internacional, que acontece nesta sexta-feira, dia 14, em Brasília. Na abertura, além de representantes do Ministério e da OPAS/OMS, vão participar membros do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) e da Federação Internacional de Associações de Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas (FINDECHAGAS).

Na sequência, ocorrem duas mesas de debate: uma sobre a importância da inserção da doença na atenção primária e outra para tratar sobre os avanços na prevenção das diversas formas de transmissão. Para acompanhar os debates, é necessário cadastrar-se no link https://webinar.aids.gov.br.

Com Assessorias

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