O papel da educação na formação ética dos estudantes e na construção de valores como responsabilidade e verdade
Quem já não caiu numa pegadinha do 1º de abril, tão popularmente conhecido como o Dia da Mentira? De jornais de grande circulação ao colega de escritório, todo mundo já pregou uma peça em alguém. Mas, o que fazer quando pegamos nossos filhos numa mentira? A graça dá lugar à preocupação e aí vem a dúvida: como ensinar as crianças que a mentira não é aceitável quando vivemos num mundo de fake news?
Essa é a pergunta para a qual muitos pais não encontram resposta. Muitas vezes, pais e mães observam suas crianças inventando histórias e mentindo. Claro, todos gostaríamos que eles dissessem “não sei” quando não tivessem as respostas para as perguntas. Simplesmente falar a verdade, mesmo sabendo que teriam que enfrentar consequências, seria o melhor dos mundos. Tudo, menos usar como recurso uma mentira deslavada.
Embora pequenas “mentiras do bem” façam parte do desenvolvimento infantil, estudos mostram que a compreensão sobre verdade e mentira começa a se formar bem cedo. Uma pesquisa publicada em 2016 pela Universidade de Toronto, no Canadá, identificou que crianças a partir dos 2 ou 3 anos já conseguem mentir de forma intencional, geralmente como forma de evitar punições ou obter algum benefício. Conforme os anos passam, mais comum a mentira se torna: depois dos quatro, 90% das crianças mentem, e as taxas chegam a 100% por volta dos sete e oito anos.
Como ensinar as crianças que a mentira não é aceitável quando vivemos num mundo de fake news?
Psicóloga desvenda o que está por trás das mentiras infantis
“Sentimos, como pais, que tentamos de todas as formas ensiná-los a dizer a verdade, sem sucesso. Muitas vezes, inclusive, nos convencemos de que nossos filhos são pequenos grandes mentirosos. Aí, caímos na vala comum da culpa e do questionamento: onde foi que eu errei?”, pondera Yafit Laniado, psicóloga e hipnoterapeuta, criadora da Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e filhos.
Baseada na teoria de Alfred Adler, a Relacionamentoria entende que para a criança, a mentira é a manifestação da necessidade de pertencer e de ser relevante para os pais.
“A teoria adleriana preconiza que todo o comportamento da criança segue um objetivo, de forma que a mentira não necessariamente visa enganar ou ludibriar. Ela é muito mais a tentativa de atingir um determinado objetivo, como chamar atenção ou demonstrar poder”, explica Yafit.
Se a mentira é uma ferramenta que a criança utiliza para atingir um objetivo, a psicóloga orienta que a pergunta que devemos nos fazer é: qual o objetivo da criança mentir?
“Há algumas alternativas. Entre elas, a necessidade de pertencimento, ou seja, a criança usa a mentira para ser reconhecida ou se sentir respeitada. O desejo de dominar uma situação é mais uma alternativa, uma vez que algumas crianças usam a mentira como recurso para demonstrar força e poder. A própria imaginação e criatividade deve ser avaliada, porque, principalmente nas crianças mais novas, a mentira muitas vezes não é intencional, mas fruto de uma imaginação fértil”, descreve a especialista.
O caminho para lidar com a mentira passa muito mais pela confiança, compreensão e comunicação do que pela bronca, castigo ou demonstrações de desagrado.
“Acredite, seu filho sabe que mentir é errado, especialmente se este é um valor para você. Nossa reação diante do comportamento indesejado de nosso filho será determinante para a repetição ou anulação do tal comportamento. Por isso, não dê bola para o comportamento que não interessa que seja repetido. Lembre-se que o principal objetivo da criança é se conectar aos pais, nem que seja através de uma mentira como recurso”, alerta Yafit.
A psicóloga também orienta que os pais foquem na criança, não na mentira, e procurem perceber qual era o objetivo por trás da enganação, assim como não rotulem a criança como mentirosa. “Ela entenderá que essa é sua expectativa em relação a ela e fará de tudo para corresponder. Isto é, continuará mentindo.”
Por fim, Yafit ressalta que nada é mais poderoso do que o exemplo pessoal. “As crianças aprendem principalmente observando os pais e os adultos à sua volta.
Quando seus filhos percebem que os pais agem com sinceridade e transparência com amigos, vizinhos e entre si, esse é o modelo que irão seguir. Ao demonstrar sua confiança em seus filhos, eles entenderão que não precisarão mentir para serem aceitos e amados. Então, o 1º de abril será só mais um dia onde eles terão que ficar atentos para saber o que é verdade e o que é mentira.”
1º de abril: dia traz reflexão sobre a mentira e a importância de trabalhar o tema desde a infância
Entenda por que as crianças mentem e como lidar com esse desafio na educação dos filhos
Mentir é comum socialmente desde sempre. Há quem separe a mentira como boa ou ruim, há quem diga que uma mentirinha só não faz mal, e ainda aqueles que exigem sempre a verdade. O fato é que os pais criam seus filhos para serem honestos, mas será que é esse o exemplo que estão dando? A biomédica e especialista em neurociência e desenvolvimento infantil Telma Abrahão explica por que as crianças mentem e como identificar quando as mentiras se tornam um problema.
Responder que estamos bem quando realmente não estamos. Elogiar alguém por seu novo corte de cabelo ou peça de roupa quando essa não é nossa mais sincera opinião. Fato é que mentir acabou virando um hábito socialmente aceitável. A mentira permeia todos os aspectos da nossa vida social. Normalmente, quando uma pessoa se atrasa para chegar ao trabalho porque acordou tarde ou porque estava com dor de barriga, não conta isso para seu chefe, mas diz que pegou muito trânsito, pois contar a verdade a deixaria envergonhada e constrangida.
Importante entender que crianças pequenas não mentem de forma intencional. Elas ainda não possuem o córtex pré-frontal suficientemente amadurecido para “arquitetar” um plano racional para enganar os pais ou qualquer outra pessoa. Crianças pequenas mentem porque misturam realidade com fantasia ou por medo. Em muitos casos, elas simplesmente confundem vida real com o mundo lúdico.
Quando a história contada não condiz com a realidade é apenas uma mistura do mundo lúdico em que ela está inserida com o que de fato aconteceu. “Até por volta dos 4 anos elas são propensas a simplesmente confundir o que realmente aconteceu com sua imaginação ou esquecer a verdade. Isso somado à dificuldade natural de controle de impulsos nessa idade”, conta Telma.
Já crianças maiores mentem, na maioria das vezes, pelos mesmos motivos que adultos: para evitar um resultado negativo, punição ou constrangimento; ajudar alguém a se sentir melhor; impressionar; exercer poder sobre os outros e ganhar a admiração ou para evitar desapontar uma figura de autoridade.
A especialista ainda completa: “Crianças maiores já possuem o córtex pré-frontal suficientemente desenvolvido para inventar uma mentira e mantê-la de forma lógica e intencional. Elas já possuem a habilidade de mentir deliberadamente para se livrar de problemas ou de algo que não querem fazer. Mas também desejam desfrutar de um relacionamento próximo e confiante com os pais, mesmo que isso signifique enfrentar a consequência ocasional por algo que fizeram ou deixaram de fazer”, complementa a especialista em educação neuroconsciente.
E como lidar com as mentiras?
“A chave é manter a comunicação adequada à idade”, afirma. Saber como funciona o comportamento da criança ajuda a entender os motivos da mentira, que muitas vezes é apenas uma fuga para evitar um castigo ou a desaprovação e decepção dos pais. Telma conta que entender essas fases de desenvolvimento cognitivo e emocional pode ajudar a manter a comunicação aberta com aquela criança, trazendo exemplos de confiabilidade, conversando sobre honestidade e deixando fluir o papo naturalmente, adequando as explicações à idade.
“É preciso evitar ameaças e castigos, sejam físicos ou psicológicos, para que a criança não desenvolva medo de contar algo. A reação quando ouvimos uma história e percebemos que não corresponde à realidade deve ser comedida também. Uma explosão de raiva, um sermão, rótulos de mentiroso, muita argumentação ou até pedir muitos detalhes da história para mostrar que pegou a mentira podem afastar a criança e criar ali uma barreira que depois fica ainda mais difícil de transpor para acabar com o costume de mentir”, aconselha Telma.
Treinar em família para falar sempre a verdade pode ser um exercício difícil, mas necessário. As crianças veem o mundo preto no branco e entendem aquela ‘mentirinha boa’ como algo aceitável já que os pais fazem e são o principal modelo dos filhos. “Importante ser um bom exemplo de honestidade, pois nossos filhos vão detectar as mentiras inocentes que contamos. É bom lembrarmos que não existe perfeição na humanidade, somos falhos e errantes, mas podemos apender a errar menos e ensinar os nossos filhos a fazerem o mesmo”, finaliza.
O Dia da Mentira, uma data tradicionalmente associada a brincadeiras e pegadinhas, também pode servir como ponto de partida para reflexões importantes dentro do ambiente escolar. Para educadores e especialistas, o momento é uma oportunidade de discutir com crianças e jovens temas como honestidade, responsabilidade e pensamento crítico — valores considerados fundamentais para a convivência em sociedade.
O aprendizado sobre honestidade também se desenvolve com a orientação de adultos e instituições educacionais. Para Andréa Piloto, diretora da Escola Vereda, o ambiente tem papel importante nesse processo, ao criar espaços de diálogo e reflexão sobre comportamento e ética. “A escola é um espaço onde os estudantes aprendem a lidar com regras, responsabilidades e consequências. É nesse convívio que também se desenvolve a compreensão sobre a importância da honestidade nas relações”, afirma.
Nesse contexto, a escola pode contribuir para que os estudantes desenvolvam senso de responsabilidade e consciência ética desde cedo. Para Andréa, trabalhar valores de forma cotidiana é uma das estratégias mais eficazes. “Mais do que dizer que mentir é errado, é importante criar situações em que os alunos possam refletir sobre confiança, respeito e consequências das próprias atitudes”, explica.
A discussão ganha ainda mais relevância em um cenário de circulação intensa de informações. Um relatório do MIT (Massachusetts Institute of Technology) publicado na revista Science em 2018 mostrou que notícias falsas se espalham até seis vezes mais rápido nas redes sociais do que informações verdadeiras, evidenciando a importância de desenvolver pensamento crítico desde a escola.
De acordo com Andréa, esse contexto reforça o papel da educação na formação de cidadãos mais conscientes. “Ensinar sobre verdade e responsabilidade hoje também envolve preparar os jovens para questionar informações, verificar fontes e compreender o impacto que a desinformação pode ter na sociedade”, afirma.
Para educadores, datas simbólicas como o Dia da Mentira podem ser usadas de forma pedagógica, incentivando debates sobre ética, confiança e convivência. Ao estimular conversas abertas sobre o tema, a escola contribui para que crianças e jovens desenvolvam valores que ultrapassam o ambiente escolar e acompanham toda a vida.
Quando o estudante entende o valor da verdade nas relações, ele passa a perceber que honestidade é uma base essencial para a confiança, seja na escola, na família ou no futuro profissional”, conclui a diretora.
Com Assessorias




