As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira e diversas regiões do Rio de Janeiro nesta semana trazem uma preocupação que vai além dos desalojamentos e danos materiais. Historicamente, o período pós-tempestade é marcado pelo aumento exponencial no risco de doenças infecciosas, com destaque para a leptospirose.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil contabilizou 2.103 casos da doença até setembro de 2025, com 164 mortes confirmadas. A infecção é provocada pela bactéria Leptospira, transmitida principalmente pelo contato com a urina de ratos presente em água e lama contaminadas.

Crise climática e o conceito de Saúde Única

O aumento na frequência e intensidade desses eventos extremos no Sudeste reflete diretamente os impactos da crise climática. Este cenário reforça a urgência do conceito de Saúde Única (One Health). A abordagem integra a saúde humana, animal e ambiental, reconhecendo que o desequilíbrio nos ecossistemas e a urbanização desordenada facilitam a migração de roedores e a persistência de patógenos no ambiente urbano, afetando diretamente a população.

Para a mestre em Ciências Farmacêuticas e coordenadora da Uninter, Ana Paula Weinfurter Lima Coimbra de Oliveira, os desastres triplicaram nas últimas décadas devido à negligência no planejamento urbano frente às mudanças climáticas. Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou mais de 7.500 eventos extremos.

A especialista reforça que o combate à leptospirose exige investimentos estruturais em saneamento e drenagem, indo além das medidas emergenciais de assistência – confira o artigo completo da especialista no final do texto.

Sintomas e a evolução para quadros graves

Neste sábado (28), a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) emitiu um alerta sobre os perigos após as chuvas. A parta esclarece que os sintomas da leptospirose costumam aparecer entre 3 e 7 dias após o contato. A fase precoce caracteriza-se por febre repentina, dor de cabeça, náuseas e, principalmente, uma forte dor muscular nas panturrilhas.

Segundo a infectologista Michelle Zicker, do São Cristóvão Saúde, cerca de 15% dos pacientes podem evoluir para a forma grave, conhecida como Síndrome de Weil, que inclui icterícia (pele amarelada), insuficiência renal e hemorragia pulmonar. O tratamento precoce com antimicrobianos é essencial para reduzir a letalidade.

Riscos dermatológicos e de infecções virais

Além da leptospirose, o contato com águas residuais oferece outros perigos. O dermatologista José Roberto Fraga Filho, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que microrganismos podem penetrar por pequenas lesões na pele, causando dermatites e até erisipela. Há também o risco de hepatites virais transmitidas pela água suja. A recomendação é lavar imediatamente qualquer área do corpo que tenha tido contato com a lama usando água limpa e sabão.

Perigo invisível: o alerta para choques elétricos

As inundações em áreas urbanas aumentam o risco de descargas elétricas. Juliana Favero Chiumento, médica da UPA Copacabana, ressalta que a segurança deve vir em primeiro lugar.

Nunca toque diretamente em uma vítima de choque enquanto ela estiver em contato com a eletricidade. Tente desligar o disjuntor ou use objetos de madeira seca para afastar o fio”, orienta.

Em caso de paragem respiratória, o acionamento do SAMU (192) ou Bombeiros (193) deve ser imediato.

Cuidados essenciais na limpeza de áreas alagadas

Para quem precisa retornar às casas ou limpar estabelecimentos após as enchentes, a prevenção é a única barreira eficaz. Especialistas recomendam:

  • Proteção física: Utilize sempre botas e luvas de borracha. Se não tiver, use sacos plásticos duplos para isolar as mãos e pés.

  • Desinfecção: Higienize superfícies com uma solução de hipoclorito de sódio (2 xícaras de chá de água sanitária para cada 20 litros de água), deixando agir por 15 minutos.

  • Consumo de água: Beba apenas água potável, fervida ou tratada.

  • Alimentos: Descarte qualquer alimento que tenha tido contato com a água da enchente, mesmo que esteja embalado.

Palavra de Especialista

Enxurradas, alagamentos e o fantasma da leptospirose

Por Ana Paula Weinfurter Lima Coimbra de Oliveira*

As mudanças climáticas e a urbanização desordenada têm intensificado os alagamentos em diversas cidades brasileiras. Os desastres provocados pelas chuvas no Brasil mais que triplicaram nas últimas décadas, na década de 1990, foram registrados 2.335 eventos; já entre 2020 e 2023, esse número saltou para 7.539. Os prejuízos econômicos também impressionam: R$ 132 bilhões entre 2020 e 2024, o que representa um aumento de 123 vezes em relação aos anos 1990.

Esses dados fazem parte da série “Brasil em Transformação”, publicada pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. A população enfrenta não apenas prejuízos materiais, mas também graves riscos à saúde. Entre eles, a leptospirose se destaca como uma ameaça silenciosa, capaz de provocar surtos epidêmicos e complicações fatais.

Dados sobre a leptospirose em 2025 são preliminares, mas indicam aumento de casos graves e óbitos em algumas cidades, como Curitiba, onde 30 casos e 6 mortes foram registrados nos primeiros meses, com 20% de letalidade. Causada pela bactéria Leptospira, essa doença é transmitida principalmente pela urina de roedores contaminados, que se mistura à água das enchentes.

Assim, qualquer contato com essas águas pode expor as pessoas ao risco de infecção. O problema é agravado pela falta de saneamento adequado, pelo acúmulo de lixo e pela insuficiência de drenagem urbana, que criam um ambiente propício para a proliferação de ratos e para a estagnação da água contaminada.

Os sintomas da leptospirose podem ser inespecíficos nos estágios iniciais, como febre, dor muscular e mal-estar, o que frequentemente leva a diagnósticos tardios. Nos casos graves, a doença pode evoluir para insuficiência renal, hemorragia pulmonar e até óbito. Diante disso, o acesso rápido ao diagnóstico e ao tratamento é essencial para reduzir a letalidade da infecção.

Prevenir surtos de leptospirose exige um esforço coletivo. Governos devem investir em infraestrutura urbana, melhorando o escoamento pluvial e garantindo o saneamento básico. A população, por sua vez, precisa estar atenta a medidas individuais de proteção, como evitar contato direto com água de enchentes, usar botas e luvas quando necessário e procurar assistência médica ao primeiro sinal de sintomas.

Enfrentar as consequências dos alagamentos não se limita a drenar a água das ruas ou reconstruir patrimônios perdidos. É preciso combater a raiz do problema: a negligência com o planejamento urbano e a saúde pública. Enquanto o Brasil continuar convivendo com enxurradas e enchentes sem estratégias eficazes de prevenção, o fantasma da leptospirose seguirá assombrando nossas cidades.

*Ana Paula Weinfurter Lima Coimbra de Oliveira é mestre em Ciências  Farmacêuticas e coordenadora de cursos da área da saúde no Centro Universitário Internacional – UNINTER

 

 

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