Sentar e levantar da cama, lavar louça, usar o fogão. Essas atividades fazem parte do cotidiano, porém, para quem acabou de ser operado para extrair um tumor no cérebro ou teve um aneurisma rompido, qualquer uma dessas atividades pode representar um grande desafio. Para contribuir com a retomada da autonomia desses pacientes, o Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IECPN) investiu na criação de um setor de reabilitação neurofuncional que, entre outros benefícios, oferece um apartamento modelo que simula os cômodos de uma residência.
Funcionando há um ano no Rio de Janeiro, o centro de reabilitação atende uma média de 100 pacientes por mês. No local, os pacientes são “treinados” para terem independência quando voltarem para a casa. O setor também trabalha e estimula a parte motora dos recém-operados em esteiras, bicicletas ergométricas, barras para treinar marcha e equipamento que simula subida e descida de escadas.
O vendedor Nelson Souza, de 62 anos, fez sua primeira sessão de reabilitação no apartamento modelo 10 dias após ser submetido a uma cirurgia para a retirada de um tumor do lado direito do cérebro. Na “casa”, Nelson se prepara para a rotina em casa com exercícios para executar as tarefas cotidianas. Ele foi diagnosticado com o tumor depois que amigos e familiares perceberam que estava com dificuldades para andar e que a fala estava lenta.
Minha família percebeu que algo não estava bem. Fui a uma unidade de saúde e lá fiz uma tomografia que mostrou o tumor. Dei entrada no Instituto do Cérebro no dia 15 de julho, fui internado, fiz todos os exames e operei no dia 19. Foi tudo muito rápido, considero um milagre de Deus eu estar aqui me recuperando. Estou muito grato por todo o atendimento que recebi. Esse hospital não cuidou só de mim, mas também da minha família e amigos que se preocuparam comigo. Estou me sentindo muito bem de saúde”, contou o vendedor, sem esconder a emoção.
A coordenadora de fisioterapia da unidade, Renata Freire, explica que a reabilitação no apartamento modelo é denominada de neurofuncional porque, ao invés de só usar equipamentos convencionais de fisioterapia, como pesos, o trabalho é feito com os utensílios que a pessoa usa no seu cotidiano.
É um trabalho conjunto de fisioterapia com a equipe multidisciplinar, que inclui terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos e nutricionistas, que deixam os pacientes mais seguros para voltarem para casa. Tentamos simular o mais próximo do ambiente de uma casa, da vida fora do hospital. O objetivo é devolver o paciente o mais independente possível para a sociedade, porque em muitos casos ele não tem condições de ter um acompanhamento diário”, afirma a fisioterapeuta.
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Em 11 anos, unidade realizou 13,5 mil cirurgias
Ao completar 11 anos de atividades, em 1º de agosto, a unidade celebra as mais de 13,5 mil cirurgias de alta complexidade realizadas neste período, exclusivamente para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). No instituto, além da neurocirurgia, os pacientes fazem todos os exames pré e pós operatórios, os tratamentos complementares de ponta, como quimioterapia, a reabilitação com fisioterapia e terapia ocupacional e acompanhamento ambulatorial pós-cirurgia.
O instituto, além de referência internacional em neurocirurgia de alta complexidade, se destaca por oferecer procedimentos altamente especializados com equipamentos de última geração, como o Gamma Knife, que realiza micro radiocirurgia no cérebro com extrema precisão e sem necessidade de incisões. O instituto é a única unidade pública do país a ter o equipamento. Atualmente, entre 28 a 30 tratamentos com o aparelho são realizados mensalmente.
Em 2018, após ser diagnosticado com acromegalia – tumor que faz crescer as extremidades, como pés e mãos e deixa a mandíbula pronunciada -, o advogado Rafael Silva Batista, 43 anos, foi operado pelo neurocirurgião Paulo Niemeyer. Em 2022 o tumor voltou, fez uma segunda cirurgia na unidade e tratamento complementar com o Gamma Knife.
Tive a honra de ser operado pelo doutor Paulo Niemeyer, mas não posso esquecer de citar toda a equipe do hospital, desde o pessoal da recepção, aos enfermeiros e todos os médicos que me atenderam. Fiquei maravilhado com o tratamento humano e acolhedor que recebi no Instituto do Cérebro”, afirmou.
Desde a inauguração, em 2013, a unidade já realizou 168 mil consultas, 172 mil exames de imagem e 2,7 milhões de exames de laboratório. No ambulatório, o número de atendimentos bateu recorde nos primeiros cinco meses de 2024, com mais de 10 mil pacientes atendidos.
O número é cerca de 80% maior em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram realizadas 5.532 consultas. Há um ano, o IECPN teve as instalações ampliadas. Atualmente conta com um total de 110 leitos, entre enfermaria e UTI adulto e pediátrica.
Ensino e pesquisa são destaques
A unidade também se destaca na área de ensino e pesquisa. Já formou 16 neurocirurgiões em seu programa de residência, que tem duração de 5 anos. O IECPN está realizando pesquisa pioneira que reproduz células vivas de tumor cerebral, em busca de um caminho mais eficaz para o combate ao câncer.
O estudo inovador no Brasil é liderado por cientistas do Instituto do Rio de Janeiro, em parceria com pesquisadores da Universidade de Paris VI, na França. A pesquisa é incentivada pelo Governo do Estado, que investiu cerca de R$ 20 milhões na ampliação da unidade.
Atualmente, o IECPN realiza pesquisas em diversas frentes, como a que testa o uso do vírus da Zika no combate a células de tumor. Também está em estudo a constatação da presença de microRNA em pacientes com epilepsia medicamentosa resistente.
Fonte: SES-RJ