Um dos períodos mais aguardadas pelos brasileiros, o Carnaval é uma data onde muitas famílias se preparam para viajar ou participar das festividades. Música, cores, fantasias e encontros fazem parte dessa época do ano, mas nem todas as famílias vivem esse momento da mesma forma.
A folia de Momo pode ser vivenciada como um momento de significativas experiências para crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e possibilidades de momentos de lazer e diversão entre pais e filhos. No entanto, essa época pode trazer desafios e contratempos, devido ao barulho, excesso de estímulos sensoriais e as mudanças na rotina.
Para quem tem crianças autistas, o período pode exigir planejamento extra para garantir conforto, segurança e bem-estar. Especialistas ouvidos pelo VIDA E AÇÃO são unânimes. Para famílias de crianças neurodivergentes, não existe uma forma certa de viver o Carnaval. O mais importante é respeitar o ritmo e as necessidades da criança.
Cada criança tem seu próprio jeito de viver o Carnaval. O objetivo não é fazer a criança se adaptar à festa, mas adaptar a experiência para que ela seja confortável e segura”, diz a psicóloga Sirlene Ferreira, da Clínica Conecta Aba Incluir Brincando.
Por que o Carnaval pode ser desafiador para crianças neurodivergentes?
Segundo Kadu Lins, diretor geral do Instituto do Autismo e especialista na abordagem inclusiva e respeitosa para crianças e adolescentes neuroatípicos, neste período é praticamente inevitável que as famílias com autistas não sejam impactadas.
Elas irão se deparar com os excessos sensoriais da festividade em algum momento, seja na rua ou mesmo em casa. Isso porque é muito comum a mudança também de comportamento dos vizinhos, da comunidade ao nosso redor – som alto, uso de fogos e buzinas, fantasias, entre outros fatores”.
A terapeuta ocupacional Mariana Asseituno, da Genial Care, lembra que muitas crianças autistas apresentam hipersensibilidade sensorial, uma característica do Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), que afeta a maneira como o sistema nervoso recebe e interpreta estímulos auditivos, táteis, visuais e vestibulares.
Na prática, isso significa que sons altos, multidões, luzes fortes, fantasias ou mudanças na rotina podem gerar sobrecarga sensorial e desconforto. Além disso, o Carnaval costuma alterar horários e rotinas familiares, o que também pode gerar ansiedade”.
Com a maior conscientização sobre os sinais e sintomas da condição, nos últimos anos, vem crescendo o debate sobre acessibilidade em eventos culturais. Em algumas cidades, já existem iniciativas para tornar festas e eventos mais inclusivos, com ambientes mais tranquilos ou espaços de descanso.
Blocos infantis e eventos familiares também costumam ser alternativas mais previsíveis e menos lotadas, o que pode ajudar crianças com maior sensibilidade sensorial. Para muitas famílias, adaptar o tipo de programação, o horário ou até o tempo de permanência já faz toda a diferença.
Planejamento extra para mais conforto e bem-estar
Planejamento, comunicação clara e respeito ao tempo da criança são pilares que ajudam a evitar a sobrecarga sensorial, especialmente em períodos de maior movimento. A antecipação de informações é um recurso importante. Rever o que vai acontecer reduz a ansiedade e facilita a adaptação.
Segundo a psicóloga Sirlene Ferreira, a preparação começa antes da viagem ou dos blocos saírem às ruas. Antecipe a rotina da festa ao apresentar cartões visuais ou histórias sociais. Mostrar fotos do local e explicar a sequência de atividades ajuda a reduzir a ansiedade do desconhecido.
Para Kadu Lins, trabalhar a previsibilidade sobre o que poderá ser vivenciado nesta fase é fundamental para minimizar os desconfortos dos autistas, principalmente dos que são mais sensíveis aos estímulos desta época. Segundo ele, é necessário se levar em consideração, antes de tudo, a condição de cada autista.
O entendimento das necessidades e probabilidades precisa ser olhado de forma individualizada”, diz o especialista, que aponta algumas dicas para a garotada que gosta da festividade e para os que são se sentem tão à vontade neste período.
Dicas para a fase de adaptação para a folia
Para as crianças e os adolescentes que gostam do carnaval é importante que as famílias preparem a garotada antecipadamente para ir acostumando os filhos a possíveis cenários que venham a se deparar no dia da festa, como o colorido e as diferentes texturas das fantasias, os jatos de pistolinhas de água, ambientes com maior concentração de pessoas e brincadeiras com confetes e serpentinas.
Atividades como vestir a criança antes com o abadá ou fantasia, mostrar fotos do evento, quem ela pode encontrar no bloco ou na prévia, brincar previamente em casa com confetes e até mesmo colocar músicas que possam tocar no dia irão ajudar bastante na adaptação e no melhor aproveitamento da festa.
Ficamos animados com a participação da garotada nas prévias. É uma incrível oportunidade para todos, famílias, crianças e sociedade como um todo. Sabemos que o Carnaval pode ser um momento de grande desafio para pessoas autistas, pelo excesso de estímulos sensoriais, mas acreditamos que, respeitando as particularidades individuais e estando em ambientes mais abertos, é possível sim proporcionar uma vivência única, prazerosa e marcante em plena folia de Momo”, enfatiza Kadu Lins.
Da escolha da fantasia ao uso de abafadores

Para garantir o bem-estar dos pequenos, algumas estratégias essenciais devem ser adotadas, como na hora de escolher a fantasia. Evite tecidos sintéticos, etiquetas ásperas ou texturas que incomodem. É recomendável manter itens de apoio, como garrafa de água, brinquedos sensoriais e óculos escuros, que contribuem para regular o ambiente.
Nas capitais e regiões onde os blocos de rua e escolas de samba ganham protagonismo, o barulho é uma das principais preocupações. Protetores auriculares e fones abafadores de som ajudam a reduzir o impacto, proteger a criança da poluição sonora e prevenir crises de hipersensibilidade auditiva.
Como as cidades mudam seu ritmo e sua rotina neste período, deparar-se com situações com muito barulho é praticamente inevitável. Escolher horários mais tranquilos e trajetos alternativos permite circular com segurança sem expor a criança a estímulos que possam gerar desconforto.
Outro ponto essencial neste período é o cuidado com a segurança em locais cheios. A recomendação é manter identificação visível na criança, combinar pontos de encontro e evitar circulação em multidões. Em situações de grande fluxo, segurar a mão, usar pulseiras de contato e redobrar a atenção ajudam a prevenir desencontros.
Carnaval na rua: 8 cuidados para uma experiência mais tranquila
A pesquisa “Ainda somos o país do Carnaval?”, realizada pela MindMiners, mostra que 43% dos brasileiros acompanham a festa de alguma forma, enquanto 57% preferem não participar diretamente. Entre quem acompanha, muitos assistem pela TV ou internet, enquanto outros escolhem blocos e festas presenciais.
Se a família decidir participar de blocos ou eventos, alguns cuidados podem ajudar:
1. Escolha eventos que combinem com a criança
Blocos infantis ou eventos familiares costumam ser menos lotados.
2. Pense na proteção contra o barulho
Abafadores podem ajudar, principalmente se a criança já estiver acostumada.
3. Priorize fantasias confortáveis
Tecidos macios e roupas já conhecidas costumam funcionar melhor.
4. Evite acessórios que possam incomodar
Máscaras, tiaras ou chapéus podem gerar desconforto.
5. Explique antes o que vai acontecer
Roteiros visuais e histórias sociais ajudam na previsibilidade.
6. Observe acesso a banheiros e estrutura básica
Isso evita estresse desnecessário.
7. Fique atento a sinais de cansaço ou sobrecarga
Pausas fazem parte da experiência.
8. Facilite a comunicação
Se a criança usa CAA, leve os recursos necessários.
Dá para aproveitar o Carnaval em casa? Sim e pode ser muito especial
Nem toda criança vai se sentir confortável em blocos ou festas grandes. E tudo bem. Então, para os que não curtem a folia o ideal é que sejam programadas atividades que a garotada goste e possa fazer dentro de casa ou em ambiente distante do movimento das festas.
Criar um Carnaval em casa pode ser uma experiência divertida e segura. Um baile de Carnaval pode acontecer na sala ou no quintal, com luzes suaves, músicas escolhidas com cuidado e brincadeiras que respeitem o interesse da criança”, sugere Mariana.
Algumas ideias para curtir o carnaval com seu filho autista
- montar um mini baile em casa
- escolher músicas que a criança gosta
- usar fantasias confortáveis
- reduzir estímulos como sons altos ou luzes fortes
- convidar pessoas próximas e conhecidas
Se a opção for viajar..
Em caso de viagem para lugares que não tenham tantos estímulos, é importante preparar as crianças para o que está sendo programado, para o que virá. Como o autismo é uma síndrome comportamental, quanto mais a criança estiver preparada e souber o que vai fazer durante aquele período, melhor será sua adaptação.
Para famílias que pretendem viajar para a praia, orientar sobre a textura da areia e a temperatura da água pode ajudar a minimizar incômodos. Levar guarda-sol e criar um espaço mais reservado também favorece uma vivência confortável.
No campo, o foco costuma estar em garantir previsibilidade. Caminhadas, visitas a áreas verdes e atividades ao ar livre podem ser positivas quando organizadas com pausas e momentos de descanso.
Rotina deve ser preservada
Durante todo o Carnaval, preservar a rotina básica da criança é essencial. Horários de alimentação e sono, mesmo que com pequenas adaptações, colaboram para manter o equilíbrio emocional. Outro ponto é respeitar limites. Caso apareçam sinais de irritação ou cansaço, uma pausa rápida costuma ser suficiente para estabilizar o comportamento.
O objetivo não é impedir a participação nas atividades, mas criar condições para que cada criança viva o período de forma segura e prazerosa. Com organização, diálogo e atenção às necessidades individuais, o Carnaval pode se tornar uma experiência inclusiva e acolhedora para famílias com crianças autistas”, concluiu Sirlene.
O que fazer diante de uma crise sensorial?
Todas essas estratégias, no entanto, não garantem que uma crise sensorial não possa acontecer. Nessas horas, é importante o acolhimento dos acompanhantes de pessoas autistas, É preciso ter atenção redobrada aos sinais verbais e não-verbais que possam indicar algum desconforto. Nesses casos, é importante respeitar a tolerância e o limite do indivíduo, redirecionando-o para um espaço mais calmo e com menos estímulos sensoriais.
Com planejamento, respeito às necessidades sensoriais e pequenas adaptações, muitas famílias conseguem construir memórias positivas nessa época do ano, seja em casa, seja em eventos externos. Porque, no fim, o melhor Carnaval é aquele em que a criança pode participar do seu jeito, no seu tempo e com segurança emocional”, finaliza a terapeuta ocupacional Mariana Asseituno.






