Como criar filhos saudáveis e sem traumas alimentares?

Antes que doenças alimentares se instalem na psique de um adulto, pais podem tentar evitá-las desde a infância, diz psicóloga

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Por Camila Cury*

Vivemos em uma sociedade regida pelas imagens, é como se só existíssemos no mundo atual quando somos vistos pelo olhar dos outros, por meio daquilo que pensam que somos, com as características que criamos e que criaram sobre nós. Por vezes, estamos tão preocupados em adequar nossos filhos em um mundo onde prevalece a ditadura da beleza que acabamos associando os alimentos não-saudáveis a vilões de uma forma bem traumática, ou seja, nossa boa intenção gera o efeito contrário e, inclusive, pode resultar em sérios transtornos como a bulimia e a anorexia.

Lacan dizia que todos nós passamos pela Fase do Espelho na infância, a mesma que Freud chamou de Narcisismo. Nessa etapa, a criança investe toda a sua libido em si mesma, ou seja, ela se basta, vive em seu próprio mundo e é regida pelo Princípio do Prazer, pois ainda não assimilou o Princípio da Realidade.

Essa fase é passageira, ou pelo menos, deveria ser, mas o que vem acontecendo atualmente é uma volta tardia a ela, descrita por Freud como Narcisismo Secundário, e que torna a nossa sociedade coletivamente adoentada. Você pode não se julgar narcisista, já que não perde horas na frente do espelho e não sofre com as imperfeições do seu corpo a todo momento, mas o narcisismo está incrustado na nossa mente e em nossas atitudes de um modo que nem nos damos conta.

Quando fazemos uma viagem, às vezes, nos preocupamos mais em registrar o momento e postar nas redes sociais do que, de fato, aproveitar o tempo presente. Sentamos na cadeira da praia e, para afastar o tédio, nós ficamos onde? No celular. Tomamos sol para que nossa pele fique bronzeada já pensando no pós-viagem, em como vamos aparentar quando chegarmos.

De fato, todos estamos doentes, somos narcisistas, mesmo que em um menor nível. E mais, o desejo de ser o que não somos estimula o consumismo em todas as suas formas, pois compramos o que é dito necessário para alcançar a felicidade: o ideal de um corpo perfeito, a imagem padrão que vemos nas mídias, as roupas que devemos usar para sermos aceitos em um grupo etc.

Nossas identidades não são mais consolidadas, elas são voláteis, descartáveis. Ficamos à deriva do que dita a publicidade, a moda, a cultura do nosso país e da nossa época. Somos bombardeados por diferentes mundos culturais que nos rodeiam e nosso corpo “tem” que acompanhar as mudanças de padrões impostos.

Nossas crianças já nasceram nessa sociedade que cultua as imagens e alguns pais reforçam de forma muito violenta tal cobrança, inclusive por meio da alimentação. Como exemplo disso, posso citar uma mãe que gritava e humilhava sua filha toda vez que a via devorar chocolates e outras comidas não saudáveis.

Esse é um comportamento que observo ser cada vez mais comum, frases como: “você vai engordar”, “você está com muita barriga, pare de comer”, “se você ficar comendo isso, vai ficar feia”, “ninguém vai querer namorar você” só farão com que seu filho crie uma relação de amor e ódio com a comida e podem fazer com que ele desenvolva transtornos alimentares, como a Bulimia ou Anorexia.

O medo de que seus filhos não sejam aceitos por uma sociedade que valoriza as imagens pode cegar os pais com relação ao principal: a saúde mental de seus filhos. Isso não significa que devemos permitir que a criança coma de tudo a toda hora, uma alimentação saudável é sempre importante, mas proibir e, principalmente, humilhar e diminuir a imagem dos seus filhos para amedrontá-los não é a melhor maneira de ensiná-los, podendo resultar no efeito reverso.

Um dos transtornos alimentares que podem ser desenvolvidos a partir desses comportamentos é a anorexia, que é a recusa em comer. A boca é o primeiro contato com o mundo externo, quando nos negamos a comer, também estamos nos negando a aceitar viver nesse mundo, em uma sociedade que impõe padrões. É como se ela dissesse: “Eu não quero contato com esse mundo agressivo, que me dita o que devo ser e o que devo comer”.

Já no caso da bulimia, é como se buscássemos na comida o que nos falta na alma. Em alguns momentos, a pessoa devora os alimentos e, em outros, vai rejeitá-los. Na vida de uma pessoa que possui esse transtorno não há estabilidade, pois sua emoção é instável, está condicionada à emoção dos outros e não ao seu próprio julgamento.

Antes que essas doenças alimentares se instalem na psique de um adulto, como os pais podem tentar evitá-las desde a infância? Elogiando seus filhos, exaltando suas qualidades e criando uma rotina de alimentação saudável que permita que, de vez em quando, ele se delicie sem culpa com guloseimas. Ou seja, nós como pais devemos educar os filhos para que eles não estabeleçam uma relação de ódio, nem com os alimentos, nem com o próprio corpo.

Os bichos-papões que amedrontam as crianças de hoje em dia não são mais monstros em sua figura clássica, foram substituídos pelo medo de envelhecer, de engordar, de não serem aceitos por sua aparência física. Nós não podemos ajudar a criar tais monstros, devemos libertá-los, para que nossas crianças não sejam escravas de uma imagem imposta pela sociedade. Somente assim, nossos filhos estarão preparados emocionalmente para enfrentar um mundo repleto de desafios internos e externos.

*Camila Cury, psicóloga e presidente da Escola da Inteligência, mais completo e especializado programa de educação socioemocional, idealizado por Augusto Cury

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