Mas já houve momentos em que ele ficou extremamente desconfortável, agitado, passou mal, sem conseguir expressar o que estava sentindo, pedindo para parar com o som de uma furadeira, por exemplo”, relata.
Queima de fogos pode desencadear crise sensorial em autistas
De acordo com estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de dois milhões de habitantes diagnosticados com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A Organização Mundial de Saúde (OMS) define o autismo como uma série de sinais que indicam algum grau de dificuldade no comportamento social, comunicação e linguagem. Diante disso, é necessário estar ciente de que algumas situações podem ser desconfortáveis e estressantes para quem tem autismo.
Segundo especialistas, isso acontece porque pessoas autistas apresentam uma propensão à hipersensibilidade auditiva, associada a outras disfunções na integração sensorial. Existem relatos de pessoas dentro do espectro que afirmam sentir dor física quando estão expostos a barulhos altos. As crises geradas pela hipersensibilidade causam perturbação excessiva com ações involuntárias como agressão ou autoagressão, crises de choro, dores, entre outras reações.
O neuropediatra e professor da Escola de Medicina e Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Anderson Nitsche, explica que os efeitos dos fogos nos autistas podem ir além da hora da virada.
As crianças e pessoas autistas têm uma sensibilidade maior ao som e isso causa uma perturbação momentânea, mas que pode até durar por mais tempo, gerando sofrimento de insônia durante alguns dias”, afirma o professor.
Diante do barulho intenso, pessoas no espectro autista podem entrar no que é chamado de crise sensorial, em que o estímulo gera alterações de comportamento que vão desde ansiedade e vontade de fugir daquele meio, até agressividade contra si ou demais pessoas que estão ao redor. De acordo com Nitsche, o autismo tem uma prevalência mundial em torno de 3% da população. Nem todos os autistas têm alterações sensoriais, auditivas.
Hipersensibilidade sensorial: entenda o que é
A sensibilidade sensorial é uma característica comum em pessoas com autismo, influenciando diretamente suas experiências diárias. Pode manifestar-se de diversas formas, desde desconforto causado por estímulos excessivos até preferências sensoriais relacionadas a atividades prazerosas, estimulantes ou calmantes.
Pessoas com autismo, crianças ou adultas, frequentemente apresentam hipersensibilidade sensorial. Os fogos, por exemplo, podem ser percebidos como angustiantes ou até dolorosos, desencadeando reações como choro, gritos, isolamento, comportamento repetitivo ou até automutilação leve.
Segundo o psicólogo Amaro Ferreira, coordenador do curso de Psicologia do Uninassau – Centro Universitário Maurício de Nassau Recife, campus Caxangá, antecipar a programação da festa, preparar a pessoa com TEA com vídeos explicativos, histórias sociais e usar acessórios como abafadores de som e óculos escuros são formas de minimizar o impacto.
Além do preparo familiar, Amaro também destaca a importância de tornar as festas mais inclusivas, com áreas de descanso, identificação visível para pessoas com TEA e o uso de fogos silenciosos. A criação de “festas sensorialmente acessíveis”, com horários controlados, mapas visuais e sinalizações com pictogramas, também são ações que ajudam a incluir esse público sem comprometer a essência da celebração.
Muitas crianças com autismo têm alteração no processamento sensorial tornando-as sensíveis (hipo ou hiper reativa) a estímulos sonoros, por exemplo. A criança com autismo processa informações de forma diferente e pode ter uma reação diminuída ou exacerbada a sons ou outros estímulos sensoriais”, explica. Ariadny Abbud, especialista em terapia cognitiva comportamental com crianças e adolescentes.
Quando uma criança tem sensibilidade ao som, ou outro estímulo sensorial, estar exposta a esse estímulo aversivo, como os fogos de artifício, pode desencadear uma crise, gerando grande sofrimento e impacto para a criança. Por isso é importante que crianças com alterações sensoriais sejam acompanhadas por um profissional da terapia ocupacional, que trabalhe com integração sensorial, para que seja fornecido o suporte especializado necessário.
Cada autista reage de maneira diferente
Segundo Cristiane Oliveira, terapeuta ocupacional da Clínica Médica MedAdvance, as diferenças sensoriais abrangem uma ampla gama, incluindo hipersensibilidade a odores, sabores, texturas de alimentos, toques, ruídos altos, luzes intensas e até mesmo sensibilidade à luz solar ao ar livre.
As festas de final de ano representam um desafio para os pais atípicos e crianças autistas com hipersensibilidade auditiva. Os fogos, característicos do Réveillon, podem causar desconforto, levando a criança a mostrar-se assustada e até apresentar dores físicas devido ao barulho”, ressalta a especialista.
As ramificações dessas diferenças são tão variadas quanto suas manifestações. É crucial destacar que, dada a singularidade de cada pessoa com autismo, as formas de vivenciar estímulos sensoriais e seus impactos diários variam consideravelmente.
A intensidade dessas influências depende do grau de autismo e da rotina individual de cada pessoa. Crianças com autismo frequentemente experimentam essa sensação de desregulação, episódios de sobrecarga sensorial, que podem ser intensos. É preciso atenção a isso, especialmente no final do ano, pois muitas vezes, isso pode ser confundido com as famosas ‘birras'”, explica a terapeuta ocupacional.
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A neuropediatra Solange Vianna destaca que o sofrimento causado pelo ruído dos fogos não é só para a criança autista, mas para toda a família. Ela ressalta que, no caso de fogos silenciosos, a luminosidade não é um problema, porque basta a família manter a criança com TEA longe de janelas.
De acordo com a neurologista e diretora clínica do Hospital INC (Instituto de Neurologia de Curitiba), Vanessa Rizelio,, as pessoas que têm TEA não conseguem processar que aquele ruído alto, por um período prolongado, é um momento de celebração – uma vez que, para eles, promove uma sensação desagradável que não é bem processada pelo cérebro.
O cérebro deles entende como uma coisa negativa, algo que está gerando um desconforto e a reação vai ser sair daquela situação. Muitas vezes, isso se vai manifestar como ansiedade, irritabilidade, fora o prejuízo depois no sono que pode impactar até o dia seguinte”, destaca Vanessa.
Fundadora da Associação de Neurologia do Estado do Rio de Janeiro (ANERJ), a neuropediatra Solange Vianna Dultra, aponta outros efeitos que a queima de fogos pode desencadear no organismo dessas pessoas.
O coração dá uma descarga de adrenalina, acelera, a pressão sobe. Eles não conseguem entender que é uma festa. É como se estivessem no meio de um tiroteio. Algumas pessoas se desregulam até na hora de recreio na escola por causa do barulho”, explicou a especialista.
O idoso com demência pode entrar em surto de delírios e alucinações diante da queima de fogos, prejudicando também o sono, a memória e o raciocínio para o dia seguinte. Os bebês também são afetados de maneira negativa, uma vez que têm uma necessidade de dormir por períodos mais longos do que crianças mais velhas e adultos.
Se o bebê passa a ser despertado por esse ruído ou não consegue adormecer, isso traz prejuízos. Porque os fogos começam a ser soltados muitas horas antes e o ruído vai gradualmente aumentando até chegar ao ápice, à meia-noite”, lembra Vanessa. Nesses casos, o uso no ambiente de outros sons, como ruído branco, ou de abafadores, para crianças maiores, pode minimizar esse impacto.
Reveillon inclusivo: estratégias para reduzir sobrecarga sensorial em crianças autistas
Juntamente com o terapeuta ocupacional, o psicólogo, ou analista do comportamento, vai pensar em estratégias comportamentais para auxiliar em situações em que a criança será exposta ao estímulo, bem como ensinar a criança a implementar as estratégias sensoriais propostas pelo TO, discriminar quando necessita de ajuda para se regular e ampliar o repertório de habilidades de regulação” pontua Nathalia Heringer, mestre em cognição e comportamento de crianças e adolescentes.
Com isso, a exposição deve ser planejada pelos terapeutas da criança de forma respeitosa e adequada ao nível de habilidades e consentimento da família e da criança, para que seus pais e familiares tenham as ferramentas e informações necessárias.
Nas situações em que a criança é exposta a estímulos aversivos podemos ajudar retirando-a do espaço, garantindo conforto e suporte emocional, ajudando-a a se regular e no caso de estímulos sonoros há abafadores que podem diminuir o impacto do barulho. Podemos também dar previsibilidade para a criança explicando anteriormente como será o evento, o que ela pode esperar, como será a duração do barulho e o que ela pode fazer se o estímulo à estiver incomodando. Não forçar a criança a ficar no local é importante, pois juntamente com a desregulação emocional é comum desencadear respostas de medo e ansiedade”, completa Dra. Ariadny Abbud.
Medidas preventivas para pais e responsáveis de crianças autistas
As especialistas em saúde mental infantil e adolescente, Nathalia Heringer e Ariádny Abbud, listaram medidas preventivas para os pais e responsáveis de crianças autistas, visando reduzir os impactos durante eventos com a queima de fogos:
- Esteja acompanhado por uma equipe de profissionais que ajude a pensar em estratégias específicas para o caso da sua criança diante das situações da vida real que vocês encontram mais dificuldade. Avisar a equipe de intervenção que irão passar o ano novo em um local onde haverá fogos de artifício, por exemplo, será uma oportunidade para pensarmos juntos estratégias para dar suporte à criança e à família.
- O melhor caminho é sempre aumentarmos o repertório de habilidades para a criança. invista em ampliar as habilidades do seu filho e o treino para situações da vida real.
- Peça aos profissionais que o acompanham para ensinar a você formas de estimular seu filho e estratégias de regulação. Os pais são os maiores especialistas de seus filhos e precisam estar ferramentados para auxiliar a criança nos desafios do dia a dia.
- Estejam cientes dos desafios que podem enfrentar em cada situação e construam com a equipe um plano de ação para as crises. Desta forma você se sentirá mais seguro para enfrentar a situação sabendo o que fazer.
- Não deixe de se expor a lugares e passeios que você gosta pela dificuldade do seu filho. É claro que precisamos respeitar as habilidades atuais dele e as necessidades, mas faça também aquilo que é importante para você. Ou pelo menos tenha um plano de conseguir retornar a essas atividades que você valoriza.
- O autismo não é uma corrida de 100 metros, e sim uma maratona. Então lembre-se que você precisa estar bem para percorrer todo o processo com seu filho. Você também importa nessa equação.
- Previsibilidade é uma estratégia muito útil. Explicar como será o local, o que esperar ou até mesmo usar uma história social para preparar a criança para a situação pode ajudar nesses casos.
Dicas e cuidados nas comemorações de fim de ano para pessoas com autismo
Autismo: dicas para criar ambientes mais agradáveis e confortáveis
As festas de fim de ano são um momento de celebração e reuniões familiares, mas é importante lembrar que algumas pessoas precisam de cuidados adequados nesta época, como aquelas com autismo. O Instituto Jô Clemente (IJC), que atende crianças com autismo e doenças raras, dá dicas de cuidados importantes para garantir que todos possam curtir o Natal e Ano Novo com alegria e segurança.
Veja a seguir algumas dicas para as festas serem mais agradáveis para todos:
- Sons: músicas e sons muito altos podem causar incômodo e até mesmo dor física. Opte por músicas mais calmas e ajuste o volume para um nível mais baixo. Uma sugestão interessante é o uso de abafadores de ouvido, que proporcionam uma barreira eficaz contra ruídos excessivos;
- Fogos de artifício: atualmente, a Lei 6881/17 prevê a proibição destes artefatos, considerando que o barulho pode ser prejudicial para pessoas com autismo. O estouro dos fogos pode gerar ansiedade e crises naqueles que são mais sensíveis a sons. Portanto, é fundamental buscar alternativas mais tranquilas para a celebração;
- Luzes: luzes de enfeite de Natal neutras com regulagem de cores e intensidade contribuem para um ambiente mais confortável. Evite luzes muito intensas ou piscantes;
- Locais agitados: avalie se o local escolhido para as celebrações é adequado para a pessoa com autismo. Locais agitados podem ser desconfortáveis e é importante ter um plano B caso a pessoa não se sinta à vontade.
Ao tomar esses cuidados especiais, podemos contribuir para um ambiente inclusivo e acolhedor durante as festas de fim de ano em que todos possam celebrar com harmonia e segurança”, finaliza Marina Alves, supervisora do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação (CNR) do Instituto Jô Clemente (IJC).
Terapias podem ajudar a lidar com o incômodo
Para possibilitar a participação das crianças autistas na temporada festiva, a terapeuta ocupacional Cristiane Oliveira sugere estratégias simples para reduzir estímulos excessivos e criar um ambiente mais acolhedor, tais como:
- usar máscara para os olhos, tampões ou fones de ouvido em situações de muito barulho;
- fornecer óculos escuros e bonés para momentos de muita claridade;
- escolher lugares mais tranquilos para festejar, evitando aglomerações, e
- oferecer a opção de afastar a criança, por alguns instantes, para um ambiente mais sossegado, permitindo que ela se autorregule.
A mudança na rotina e o ambiente festivo fora do habitual também contribuem para o estresse. Por isso, é importante respeitar os limites sensoriais de cada um e evitar forçar a permanência em locais com excesso de estímulos.
Cada indivíduo no espectro reage de forma diferente, e o suporte necessário varia. Temos que trabalhar a conscientização para garantir que as festas sejam inclusivas e prazerosas para todos”, ressalta o psicólogo Amaro Ferreira.
Para lidar com o impacto emocional desse período, terapias baseadas em ABA, TEACCH e a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) são eficazes. Essas abordagens trabalham desde o preparo gradual até o controle da ansiedade e estratégias de autorregulação emocional. Com apoio adequado, é possível fazer com que a pessoa com TEA se sinta segura e confortável, vivenciando a festa de forma positiva”, afirma o psicólogo.
Cidades criam alternativas
Algumas cidades brasileiras já começaram a rever a prática da queima de fogos na virada do ano em celebrações públicas e há legislações específicas proibindo artefatos com barulho. A adoção de fogos sem estampido, espetáculos de luzes e apresentações com drones são alternativas para preservar o simbolismo das celebrações, sem impor um custo sensorial a parte da população.
A psicóloga com especializações em neuropsicologia e em saúde mental, Ana Maria Nascimento, acredita que essas alternativas mantêm o caráter coletivo da festa e ampliam o direito à participação. Em um contexto em que já existem soluções ao barulho, ela defende que insistir no uso de fogos ruidosos “parece um gesto de indiferença”.
Celebrar pressupõe convivência. Quando a alegria de uns depende do sofrimento de outros, é legítimo questionar se essa tradição ainda faz sentido”.
Vanessa Rizelio critica que, embora em muitas cidades brasileiras esteja proibida a venda de fogos de artifício, não há uma fiscalização de fato.
Em Curitiba, por exemplo, essa lei já está em vigência há mais de cinco anos e nós continuamos ouvindo muitos fogos de artifício com barulhos intensos sendo soltos em comemorações, principalmente no ano novo”. Ela defende mais rigor para “minimizar o impacto de um comportamento humano que já deveria ter sido mudado há muito tempo”, afirma.
Como tornar as celebrações mais acolhedoras para pessoas com TEA
O professor da PUC-PR também ressalta a necessidade de a sociedade olhar para a questão com mais empatia, adaptando tradições para promover a inclusão dessas pessoas nas festividades. “Acolher, entender e perceber que há pessoas que sofrem com determinadas tradições é tão importante quanto as próprias vivências”, aponta Anderson Nitsche.
Para o especialista, empatia é a palavra-chave para a questão. “O processo de inclusão passa pela ideia de entender que há pessoas que são diferentes da gente e que, muitas vezes, a minha liberdade fere a liberdade do outro e gera nelas um sofrimento desnecessário”.
A sociedade também tem um papel fundamental nesse processo. Atitudes simples, como optar por fogos silenciosos, reduzir os horários de queima ou criar áreas de acolhimento em eventos, já fazem uma grande diferença para o bem-estar das pessoas com TEA.
Mais do que celebrar, é tempo de refletir sobre empatia, inclusão e respeito às diferenças. Com pequenas adaptações, mostramos que todas as vivências importam e que o espírito junino pode, sim, abraçar a diversidade”, finaliza Amaro Ferreira.
Com informações de Assessorias e da Agência Brasil






