A mais intensa e incapacitante entre as cefaleias (termo médico para dor de cabeça) surge de forma súbita e alcança o pico da dor em poucos minutos. A cefaleia em salvas afeta cerca de 0,1% da população, na maioria, mulheres, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia. 

No entanto, até obter o diagnóstico correto, muitos pacientes enfrentam uma verdadeira peregrinação por diferentes especialidades médicas, passando por diversas consultas, até finalmente chegar ao neurologista, o profissional mais capacitado para reconhecer a condição e conduzir o tratamento de forma adequada e assertiva.

A neurologista Thais Villa dedica-se há 20 anos, exclusivamente, ao diagnóstico e tratamento da enxaqueca e ao estudo e cuidado de pacientes com dor de cabeça, na maioria, mulhres No Dia Internacional da Cefaleia em Salvas (21 de março), a médica responde a seguir as cinco principais dúvidas sobre a cefaleia em salvas:

  1. O que é a cefaleia em salvas?

A cefaleia em salvas é uma apresentação de dor de cabeça em que a pessoa tem períodos limitados de crises muito severas, várias vezes ao dia, durante um período determinado que pode ser de semanas até meses. Essas crises podem se repetir a cada ano ou duas vezes no ano e, depois, essas crises autolimitadas param de acontecer.

O problema é que essas crises são muito severas. Então, mesmo que elas aconteçam por 15 dias ou por um mês, a dor é excruciante e limita completamente a atividade da pessoa.

  1. Quais as principais características da condição?

A cefaleia em salvas caracteriza-se por uma dor unilateral, que se manifesta sempre do mesmo lado da cabeça (raramente apresentando alternância entre os lados). Com dor ao redor dos olhos e, principalmente, na têmpora.  É uma dor excruciante, por isso, também chamada de ‘cefaleia suicida’, com duração curta de 30 a 40 minutos, porém, a pessoa tem uma sensação de morte porque essa dor é muito severa.

Diferente da enxaqueca, as pessoas tendem também a apresentar uma agitação extrema e não procuram repouso. Olhos vermelhos, lacrimejamento ocular, narinas entupidas do mesmo lado da dor também podem aparecer.  As características da cefaleia em salvas são bastantes típicas e a severidade é muito intensa.

  1. É verdade que a cefaleia em salvas é  mais comum em homens?

Sim, a cefaleia em salvas é uma apresentação de dor de cabeça mais comum em homens, a explicação que se sabe até hoje é por motivo de uma combinação de fatores biológicos, hormonais e comportamentais, e também relação com o tabagismo.

Tanto homens quanto mulheres podem apresentar quadro típico de enxaqueca entre um período de salvas e outro. É comum quem tem cefaleia em salvas ter enxaqueca também, inclusive, com aura que são sintomas neurológicos positivos como alterações visuais, flashes, pontos escuros e luminosos, embaçamento visual ou mesmo com perdas momentâneas de audição ou olfato.

  1. Como é feito o diagnóstico?

Não existe exame que demonstre a cefaleia em salvas, o diagnóstico é totalmente clínico, realizado por um médico especialista para reconhecer o quadro. Por se apresentar em espaçamento de tempo mais longo e por ter características diferentes e muito específicas, o diagnóstico acaba sendo tardio, apesar de existir um tratamento de prevenção.

  1. Como devem ser feitos a prevenção e o tratamento?

A indicação para o paciente sair mais rapidamente do período de salvas é o procedimento de bloqueio anestésico, que podem ser próximos e seriados. O uso de oxigênio durante as crises para evitar a medicação com analgésicos que não são indicados para os pacientes com essa condição e podem postergar a duração das salvas. Existem tratamentos preventivos a base de medicações, só que atualmente usamos medicamentos anti-CGRP, um deles já aprovado em estudos para esse tipo de doença.

O importante é que esse paciente procure rapidamente o serviço especializado e tenha uma avaliação que também considere hábitos como o tabagismo e, principalmente, a instituição do tratamento para evitar que a salva se torne crônica. As crises podem complicar e, em vez de vir em momentos espaçados, podem nunca mais passar.

Já atendemos vários casos em que o paciente entra numa salva de crises que nunca mais terminam, tornando crônica e diária. Por isso, se a pessoa tiver qualquer tipo de dor de cabeça com as características da cefaleia em salvas, busque urgente o atendimento especializado.

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Enxaqueca exige atenção redobrada das mulheres

Oscilações hormonais, uso de anticoncepcionais combinados e tabagismo podem aumentar a intensidade das crises e elevar o risco de AVC

A enxaqueca não é uma condição exclusiva das mulheres, mas são elas as mais debilitadas pela doença, apresentando crises de dor de cabeça e outros sintomas associados mais severos, duradouros e frequentes.

Essa maior vulnerabilidade está relacionada, principalmente, às variações hormonais. O estrogênio, hormônio presente em maior quantidade no organismo feminino, exerce influência direta sobre os mecanismos cerebrais envolvidos na dor. Oscilações nos níveis de estrogênio,como as que ocorrem ao longo do ciclo menstrual, podem atuar como gatilhos ou intensificadores para as crises  nessas mulheres.

 Essa não é uma doença exclusiva em mulheres, mas são elas que, por apresentarem quadros mais severos de dor de cabeça, acabam procurando mais por atendimento especializado e, consequentemente, são mais diagnosticadas com a enxaqueca”, esclarece a neurologista Thais Villa.

A enxaqueca é caracterizada por um estado de hiperexcitabilidade cerebral. Durante as crises, o cérebro reage de forma exacerbada a estímulos internos e externos, o que desencadeia dor e uma série de sintomas associados. A causa é hereditária, ou seja, a pessoa já nasce com predisposição para doença. Fatores ambientais e hormonais atuam como gatilhos ao longo da vida.

Entre as mulheres, as crises tendem a ser mais intensas e incapacitantes, particularmente da adolescência até cerca dos 50 anos, período marcado por maior atividade hormonal. Nessa fase, os níveis e as oscilações do estrogênio são mais pronunciados, o que contribui para o aumento da frequência e da gravidade das crises.

Enxaqueca eleva risco de AVC até 15 vezes

Esse período de crises mais intensas coincide justamente com a idade fértil da mulher, fase em que muitas recorrem à pílula anticoncepcional como método contraceptivo. A maioria utiliza formulações combinadas, com estrogênio e progesterona. Segundo Thais Villa, com base em estudos recentes, essa associação pode representar “uma verdadeira bomba”, elevando em até 15 vezes o risco de AVC.

O cenário se torna ainda mais preocupante quando há a combinação de fatores enxaqueca com aura (caracterizada, entre outros sintomas, por alterações visuais), uso de anticoncepcional com hormônios combinados e tabagismo. Nesses casos, o risco de acidente vascular cerebral pode ser até 30 vezes maior.

Se os números impressionam, a boa notícia para quem convive com a enxaqueca é a possibilidade de controlar as crises e reduzir de forma significativa as dores de cabeça, um dos principais sintomas, entre muitos outros que acompanham a doença.

Como tratar a enxaqueca

O tratamento mais eficaz é o integrado e individualizado, conduzido por uma equipe multidisciplinar que considera todas as variáveis envolvidas em uma condição tão complexa. Neurologista,  psicólogo, nutricionista e outros profissionais podem atuar de forma complementar, avaliando fatores hormonais, emocionais, alimentares e comportamentais. Com acompanhamento adequado e estratégias personalizadas, é possível melhorar a qualidade de vida e devolver autonomia à paciente.

Existe tratamento eficaz para a enxaqueca e ele precisa enxergar o paciente como um ser único. Isso significa combinar tratamentos de última geração com estratégias não medicamentosas, capazes de prevenir e reduzir a frequência das crises. O cuidado deve ser individualizado e contínuo”, explica Thais Villa.

Segundo a especialista, além do acompanhamento com neurologista, é fundamental que a mulher seja orientada  sobre o método contraceptivo mais seguro, evitando o agravamento das crises ou outras complicações associadas.

Villa destaca ainda que o uso frequente de medicamentos por conta própria e o consumo excessivo de cafeína, embora possam proporcionar alívio momentâneo, são práticas que não tratam a doença e podem perpetuar o ciclo da dor, favorecendo a cronificação da enxaqueca.

Com diagnóstico adequado, acompanhamento especializado e mudanças no estilo de vida, é possível reduzir a frequência e a intensidade das crises, devolvendo qualidade de vida e autonomia às pacientes”, finaliza a especialista.

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