O diagnóstico da influenciadora Evelin Camargo, de 34 anos, trouxe à tona um tema que gera dúvidas e preocupação entre mulheres com próteses de silicone: o linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário (BIA-ALCL). Recentemente, a influenciadora compartilhou em suas redes sociais que, seis anos após a cirurgia, notou um aumento súbito no volume de uma das mamas. O caso, embora raro, serve como um alerta vital sobre a importância da vigilância contínua.
Diferente do que muitos pensam, o BIA-ALCL não é um câncer de mama primário, mas sim um tipo de linfoma (câncer do sistema linfático) que se desenvolve na cápsula fibrosa ao redor do implante. De acordo com a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a condição é tratável e apresenta prognóstico favorável quando identificada em estágios iniciais.
Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2016, este linfoma está associado principalmente a implantes de superfície texturizada. Segundo dados do FDA (U.S. Food and Drug Administration), até 2020, haviam sido registrados cerca de 773 casos no mundo. A incidência é considerada baixa, com risco estimado variando entre 1 em cada 2.200 a 1 em cada 86 mil mulheres com próteses texturizadas.
Sintomas e sinais de alerta: o que observar
O principal indicativo da doença é o chamado seroma tardio — um acúmulo de líquido que surge anos após a colocação da prótese, causando assimetria e inchaço repentino. No caso de Evelin, o seio esquerdo chegou a triplicar de tamanho em pouco tempo.
Todo seroma tardio deve ser considerado anormal até que se prove o contrário. Embora a maioria das causas seja benigna, como inflamações ou traumas, a investigação é fundamental”, explica o mastologista Idam Jr., membro da SBM.
Além do inchaço, outros sinais incluem:
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Nódulos palpáveis na mama ou axila;
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Dor ou endurecimento da região;
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Vermelhidão ou alterações na pele da mama.
Tratamento e as chances de cura
O diagnóstico é confirmado através da análise do líquido ao redor da prótese (punção), buscando especificamente pela proteína CD30, um marcador essencial para identificar o linfoma. A boa notícia para as pacientes é que, na maioria dos casos em que a doença está restrita à cápsula do implante, a cura é alcançada apenas com a intervenção cirúrgica. O procedimento consiste no explante (retirada da prótese) combinado com a remoção total da cápsula fibrosa.
O meu tratamento vai ser o explante. O exame mostrou que a alteração está apenas na prótese”, relatou Evelin Camargo, tranquilizando seus seguidores sobre a eficácia da conduta adotada quando o diagnóstico é rápido. Em situações mais avançadas, pode ser necessária a associação de quimioterapia, mas o índice de sucesso terapêutico permanece alto.
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Recomendações para mulheres com silicone
Apesar da repercussão do caso, a Sociedade Brasileira de Mastologia é enfática: não há indicação para a retirada preventiva das próteses em mulheres que não apresentam sintomas. A recomendação de ouro é manter os exames de rotina e o acompanhamento mastológico anual.
A informação correta é a melhor ferramenta contra o pânico. O BIA-ALCL é uma condição rara e, acima de tudo, uma prova de que a atenção ao próprio corpo e a busca imediata por auxílio médico são os pilares para garantir que, sim, o câncer tem cura.
Além do linfoma: o raro caso de carcinoma espinocelular no Brasil
Recentemente, a comunidade médica brasileira documentou um caso ainda mais raro que o da influenciadora Evelin Camargo. Trata-se do primeiro registro no país de carcinoma espinocelular associado ao implante de silicone (BIA-SCC). Enquanto o linfoma atinge o sistema imunológico, o BIA-SCC é um tumor de pele (epitelial) que se desenvolve na cápsula da prótese.
O estudo, coordenado pelo mastologista Idam de Oliveira Junior e publicado na prestigiada revista científica Annals of Surgical Oncology (ASO), detalha o caso de uma paciente de 38 anos. Diferente do linfoma, este tipo de tumor é considerado altamente agressivo e possui pouco mais de 20 relatos em toda a literatura médica mundial desde 1992.
Diagnóstico precoce e a “Doença do Silicone”
O caso brasileiro reforça que, embora o silicone seja um material seguro e amplamente utilizado desde a década de 60, o acompanhamento de longo prazo (especialmente após 10 anos da cirurgia) é indispensável. No episódio registrado no Hospital de Amor, em Barretos (SP), a paciente também apresentou aumento de volume e dor, sintomas que inicialmente podem ser confundidos com complicações comuns.
Apesar do alerta, especialistas da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), como o vice-presidente Cícero Urban, trazem uma mensagem de tranquilidade. Um estudo multicêntrico publicado no Journal of the National Cancer Institute (JNCI) com quase 10 mil mulheres indicou que a chamada “doença do silicone” (síndrome autoimune) não possui evidência científica sólida e não deve ser confundida com esses tumores raros.
Pontos fundamentais para pacientes com prótese:
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Não há motivo para pânico: Tanto o BIA-ALCL quanto o BIA-SCC são raríssimos diante dos milhões de implantes realizados anualmente.
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Vigilância, não medo: O foco deve ser o diagnóstico precoce. Qualquer alteração tardia (inchaço, dor ou nódulos) deve ser levada ao mastologista imediatamente.
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Contribuição científica: O estudo brasileiro propôs uma nova forma de estadiamento e padronização cirúrgica para o carcinoma, visando aumentar as chances de sobrevida e controle da doença no mundo todo.
Com Assessorias





