O Carnaval é o momento em que a cidade se torna de todos, e nesta terça-feira (10), as ruas de Niterói foram palco de um manifesto de alegria e dignidade. O bloco Loucos pela Vida, que há mais de duas décadas transforma a folia em conscientização, desfilou da Praça Arariboia à Praça da Cantareira com um recado direto: “CAPS não é meme”. O enredo é um grito contra o preconceito e uma exaltação ao trabalho dos Centros de Atenção Psicossocial.

A secretária municipal de Saúde, Ilza Fellows, destacou que o bloco é a oportunidade perfeita para quebrar rótulos. “É reforçar a importância dos nossos CAPS com a descontração que só o carnaval proporciona”, afirmou. Para Maria Célia Vasconcellos, diretora da FeSaúde, o crescimento da agremiação ano após ano é sinônimo de resgate da cidadania.

A realeza que vem do cuidado

Um dos grandes destaques do desfile foi a rainha da bateria, Ana Paula Ramos. Sua trajetória simboliza a potência do cuidado em liberdade: mesmo durante seu período de internação no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, seu talento como passista foi incentivado, e ela era levada para os ensaios.

Ao ingressar no Centro de Cultura e Convivência, o reconhecimento veio através da coroa. “Todo mundo torcia para eu ser a realeza. Ganhei este ano e estou muito feliz”, comemorou.

O desfile também foi marcado pela emoção e saudade. Estandartes homenagearam Francisco Protasio, militante histórico do movimento antimanicomial que faleceu recentemente. Sua viúva, a psicóloga Juliana Cecchetti, lembrou que Protasio sempre defendeu que o cuidado deve acontecer nos territórios de vivência, para além dos muros das unidades de saúde.

Leia mais

Blocos da saúde mental combatem o estigma e celebram o direito à alegria
Loucos por Carnaval: blocos da saúde mental agitam as ruas do Rio
Saúde mental é liberdade: o papel da luta antimanicomial no Brasil
Psicofobia: por que esse tipo de preconceito ainda existe?

Resistência sob chuva e os próximos passos no Rio

Enquanto Niterói celebrava sob o sol desta terça, o movimento da saúde mental no Rio de Janeiro também deu provas de resiliência nos últimos dias. No último domingo (8), o bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou! não se deixou abater e desfilou sob chuva na Avenida Pasteur, na Urca, zona sul carioca.

O grupo celebrou os 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica, mostrando que a luta por uma sociedade sem manicômios resiste a qualquer previsão do tempo. A agenda de inclusão na capital fluminense ainda não acabou. Outras agremiações importantes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) ainda prometem ocupar as ruas cariocas:

  • Império Colonial: Desfila nesta terça-feira (10/02), em Jacarepaguá, homenageando o legado artístico de Arthur Bispo do Rosário.

  • Loucura Suburbana: O tradicional bloco do Engenho de Dentro encerra o ciclo na quinta-feira (12/02), saindo do Instituto Municipal Nise da Silveira com a expectativa de reunir milhares de foliões.

Para profissionais como o psicólogo Vinícius Ramos, do CAPS III, ver os usuários nas ruas é dar à cidade uma nova faceta da saúde mental. “É um jeito de construir um outro lugar para esses indivíduos dentro da cidade, mostrando que são pessoas que querem se divertir e ser felizes como qualquer outra”, conclui.

Próximos desfiles no Rio

Bloco Data Horário Local
Império Colonial 10/02 14h30 Praça N. Sra. de Fátima, Jacarepaguá
Loucura Suburbana 12/02 16h Inst. Municipal Nise da Silveira, Eng. de Dentro

Fonte: Secretarias Municipais de Saúde de Rio e Niterói.

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *