Câncer de cólon: conheça a doença que abateu o Rei Pelé

A partir dos 50 anos, OMS preconiza rastreamento para o câncer de cólon, a doença do Pelé. Hábitos alimentares são principal fator de risco

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Será velado nesta segunda-feira (2/12), no estádio de Vila Belmiro, em Santos (SP), o corpo de Edson Arantes do Nascimento, conhecido mundialmente como o Rei Pelé, após receber inúmeras homenagens de personalidades e esportistas em vários países, no mês dedicado à Copa do Mundo. Aos 82 anos, o maior jogador de futebol do mundo morreu na última quinta-feira (29/12), em decorrência de um câncer de cólon (parte final do intestino), diagnosticado  em setembro de 2021, durante uma bateria de exames de rotina.

O ídolo mundial do esporte estava internado desde 29 de novembro, no Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, chegou a passar por uma cirurgia para retirada do tumor e recebeu sessões de quimioterapia. Mas diante do agravamento do seu quadro de saúde no último mês, teve essa modalidade de terapia suspensa e passou a receber cuidados paliativos, focados no conforto e alívio das dores, enquanto permaneceu internado.

Em todo o mundo, o câncer de intestino – que abrange os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso chamada cólon e no reto (final do intestino) e ânus – é o terceiro tipo mais comum, sendo responsável por cerca de 10% de todos os diagnósticos de câncer. No Brasil, dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam que este é o terceiro tumor oncológico mais frequente no país – deve responder por 6,5% dos registros para o período de 2023-2025 -, excetuando-se o câncer de pele não-melanoma.

Em incidência, este é o segundo tipo de câncer mais comum em homens e mulheres, sem considerar os tumores de pele não-melanoma, ficando respectivamente atrás do câncer de mama na parcela feminina da população e do câncer de próstata entre a masculina. A estimativa para 2022 é de 45.630 novos casos, sendo 21.970 homens e 23.660 mulheres. Em mortalidade é o terceiro tipo mais comum. O número de mortes ficou em 20.245, sendo 9.889 homens e 10.356 mulheres (dados de 2020).  Ou seja, alta incidência com alta mortalidade.

De um modo geral, o risco de desenvolver câncer colorretal ao longo da vida é um pouco menor nas mulheres do que nos homens; cerca de 1 em 23 (4,4%) para homens e 1 em 25 (4,1%) para mulheres. A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) informa que o câncer colorretal é o terceiro mais frequente em homens, atrás do câncer de próstata e de pulmão, e o segundo mais comum em mulheres, após o câncer de mama, segundo dados do Inca. A idade avançada está entre os principais fatores de risco do câncer de intestino, que acomete especialmente as pessoas acima dos 50 anos.

Polêmica em torno do rastreamento da doença

 

  • Médicos ouvidos por ViDA & Ação esclarecem que esse é um tumor que se desenvolve no intestino grosso – conhecido como câncer do cólon e do reto – e pode ser prevenida em boa parte dos casos. Por isso, alertam para os sintomas que não podem ser negligenciados. Afinal, quando descoberto em estágios iniciais, o tumor pode ser curado em 70% dos casos.
  • A principal forma de diagnóstico e prevenção é através do exame de colonoscopia, em que um tubinho flexível com uma câmera na ponta é introduzido no intestino e faz imagens que revelam se há presença de possíveis alterações, permitindo, inclusive, remoção de pólipos e biópsias de lesões suspeitas. Mas, atualmente, há um debate sobre a idade ideal para iniciar o rastreamento.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o rastreamento do câncer de cólon e reto em pessoas acima de 50 anos, mas algumas sociedades médicas já orientam realizar o rastreamento a partir de 45 anos. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda iniciar o rastreio do câncer de cólon e reto da população adulta de risco habitual na faixa etária de 50 anos, mas muitos países já reduziram para 45 anos de idade.

“Grande parte dos tumores de intestino aparece a partir dos chamados pólipos, que são lesões benignas que crescem na parede interna do órgão, mas que se não identificadas preventivamente podem evoluir e se tornarem malignas com o passar do tempo”, explica a oncologista Renata D’Alpino, colíder da especialidade de tumores gastrointestinais do Grupo Oncoclínicas.

Segundo ela, após os 50 anos de idade, a chance de apresentar pólipos aumenta, ficando entre 18% e 36%, o que consequentemente representa um aumento no risco de tumores malignos decorrentes da condição a partir dessa fase da vida e por isso ela foi estabelecida como critério para início do rastreio ativo. Além de detectar esses pólipos, a colonoscopia permite que eles sejam retirados, o que funciona como mais uma forma de prevenir o câncer.

“O diagnóstico precoce é imprescindível para o sucesso do tratamento em qualquer caso de câncer. Para este tumor oncológico, podemos alcançar 95% de chances de cura se detectarmos a doença no seu início”, explica o médico oncologista Ramon Andrade de Mello, professor da disciplina de oncologia clínica do doutorado em medicina da Universidade Nove de Julho (Uninove), em São Paulo, e médico pesquisador honorário do Departamento de Oncologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Quando a atenção deve ser redobrada

Ela lembra que pessoas com histórico pessoal de pólipos ou de doença inflamatória intestinal, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, bem como registros familiares de câncer colorretal em um ou mais parentes de primeiro grau, principalmente se diagnosticado antes de 45 anos, devem ter atenção redobrada e realizar controles periódicos antes da idade base indicada para a população em geral.

Ainda assim, a médica afirma que há muitos tabus que cercam o rastreio preventivo do câncer colorretal, o que contribui para a baixa adesão ao controle precoce da doença mesmo entre pessoas que fazem parte do grupo com risco aumentado.

“Muitas vezes, o tumor só é descoberto tardiamente, diante de sintomas mais severos, como anemia; constipação ou diarreia sem causas aparentes; fraqueza; gases e cólicas abdominais; e emagrecimento. Apesar do sangue nas fezes ser um indício inicial de que algo não vai bem na saúde, muitas pessoas costumam creditar essa ocorrência a outras causas convencionais, como hemorroidas, e acabam postergando a busca por aconselhamento médico e a realização de exames específicos. Isso faz com que muitas pessoas só descubram o câncer em estágios avançados”, diz.

Má alimentação é um dos principais fatores de risco

Os principais fatores de risco são a má alimentação (como o consumo pobre em frutas, vegetais e alimentos que contenham fibras, o alto consumo de carnes processadas como salsicha, mortadela, linguiça, presunto, bacon, blanquet de peru, peito de peru e salame e a ingestão excessiva de carne vermelha), idade igual ou acima de 50 anos e excesso de peso corporal.

As causas evitáveis dos cânceres colorretais são o baixo consumo de fibras alimentares, atividade física insuficiente, consumo de carne processada, de carne vermelha acima do recomendado (até 500 gramas por semana), de bebidas alcoólicas e excesso de peso. Além da prevenção, a detecção precoce ajuda porque quanto mais cedo o câncer for descoberto, melhores as chances de cura.

“Outros fatores relacionados à maior chance de desenvolvimento da doença são histórias familiares de câncer de intestino, ovário, útero ou mama, além de tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas. Doenças inflamatórias do intestino: retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn, bem como doenças hereditárias, como polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC)”, completa a oncologista.

Como prevenir o câncer de cólon

Quase 30% de todos os cânceres colorretais (cânceres de intestino) podem ser evitados com alimentação saudável, prática de atividades físicas e abandono de bebidas alcoólicas.  Segundo o médico oncologista Ramon Andrade de Mello, “evitar alimentos ultra processados e colocar no prato alimentos in natura são algumas orientações para a prevenção desse tumor”. A prevenção passa também por manter a prática regular de exercícios físicos.

A melhor forma de prevenção é buscar qualidade de vida como a manutenção do peso corporal adequado, a prática de atividade física regulares e uma alimentação saudável, além de evitar bebidas alcoólicas e cigarro. A dieta deve ser rica em fibras e com diminuição na quantidade de sal. Deve-se limitar o consumo de carnes vermelhas e evitar o consumo de alimentos processados, enlatados e embutidos, dando preferência a frutas, verduras, legumes, cereais integrais, feijões e outras leguminosas, grãos e sementes.

“Esse padrão de alimentação é rico em fibras e, além de promover o bom funcionamento do intestino, também ajuda no controle do peso corporal. Não fumar e não se expor ao tabagismo e abstenção do álcool”, acrescenta a médica. “O câncer de intestino está muito relacionado à saúde do paciente como um todo. Por isso, levar uma vida saudável com prática de atividade física e alimentação balanceada são fundamentais para a prevenção, assim como não fumar e não se expor ao tabagismo”, diz Maria Ignez Braghiroli, diretora da SBOC.

Incidência cresce entre jovens adultos

Para Renata, outro ponto de grande relevância no combate ao câncer colorretal é o estabelecimento de uma recomendação mais clara para triagem de casos assintomáticos, quando não há sinais de sintomas clássicos que podem levantar suspeitas – caso de sangramentos corriqueiros visíveis nas fezes – entre a porção da população com menos de 50 anos.

Entre as ações possíveis, ela destaca uma iniciativa liderada pela US Preventive Services Task Force que considera que testes menos invasivos poderiam ser iniciados precocemente e repetidos com intervalos menores em comparação à colonoscopia. Além disso, prevê mudar a idade de rastreamento para os 45 anos, devendo ser repetido a cada 5 anos em caso de resultados normais, como já vem sendo sugerido desde 2019 pela American Cancer Society (ACS).

“Nos EUA o debate sobre uma possível mudança de protocolo, passando a adotar a idade de 45 anos como remendada para o início do rastreio periódico, está sendo baseada na avaliação de centenas de levantamentos e ensaios clínicos que levam em conta o perfil de pessoas assintomáticas na faixa etária acima dos 40 anos. Uma forma possível de ampliar as chances de prevenção seria a indicação de pesquisa das fezes, por meio de testes imunoquímicos e testes de sangue oculto fecais em pessoas mais jovens e que não apresentam mudanças de saúde perceptíveis. De acordo com os resultados, havendo achados suspeitos, a colonoscopia seria então realizada”, ressalta a especialista da Oncoclínicas.

Um dos estudos científicos que embasam a argumentação foi publicado no Journal of the National Cancer Institute e realizado nos Estados Unidos de 1974 até 2014. A análise mostrou que nas pessoas entre 20 a 39 anos de idade, por exemplo, o número de casos novos de câncer de intestino vem crescendo anualmente, entre 1% e 2,4%, desde a década de 1980. Já os casos de câncer de reto, nas pessoas entre 20 e 29 anos de idade, tiveram um aumento anual médio de aproximadamente 3,2%, desde 1974.

“Em grande parte, esses resultados apontam para uma consequência de hábitos de vida menos saudáveis, com maior taxa de sedentarismo e consumo de alimentos ultraprocessados como refrigerantes, salgadinhos e enlatados. A predisposição genética conta como risco, mas não podemos esquecer que há outros fatores que podem contribuir para o surgimento da doença, tais como obesidade, sedentarismo, dieta rica em carnes vermelhas, tabagismo e alcoolismo. E esses são fatores que fazem parte da ‘vida moderna’ e ajudam a desvendar as razões pelas quais devemos reforçar a conscientização sobre os impactos das nossas decisões pessoais no crescimento de casos de câncer – e não apenas do colorretal”, finaliza Renata D’Alpino.

Entenda o câncer de cólon

Também conhecida como tumor colorretal, o câncer de cólon se desenvolve no intestino grosso: no cólon ou em sua porção final, o reto. O principal tipo é o adenocarcinoma e, em 90% dos casos, o tumor se origina a partir de pólipos,  inicialmente identificados como lesões benignas, que crescem na parede do cólon e que, se não identificados e tratados, podem sofrer alterações ao longo dos anos, podendo se tornar cancerígenos.

“O câncer de cólon, também conhecido como câncer de intestino ou câncer colorretal, compreende os tumores que se iniciam no intestino grosso chamada cólon e no reto (parte final do intestino, imediatamente antes do ânus). Grande parte desses tumores se inicia a partir de pólipos, que são lesões benignas que podem crescer na parede interna do intestino grosso e ao longo do tempo podem se transformar em um tumor maligno”, explica Tatiana Barros, oncologista do Adventista Silvestre, do Rio de Janeiro.

Como detectar os principais sinais

Azia, má digestão, dificuldade para engolir e perda de peso podem ser sinais do câncer que causou a morte do Rei Pelé. O cirurgião do aparelho digestivo Rodrigo Barbosa, da capital paulista, explica que alguns sinais ajudam na detecção precoce como diarreia ou prisão de ventre, sangue nas fezes, dor ou desconforto abdominal, além de sensação de cansaço ou até anemia.

Os principais sinais e sintomas sugestivos deste câncer são: sangramento nas fezes, massa (tumoração) abdominal, dor abdominal, perda de peso, anemia e mudança de hábito intestinal.

“Pacientes com predisposição genética podem desenvolver o tumor, que é diagnosticado com maior frequência nas pessoas que não mantêm hábitos alimentares saudáveis”, detalha o Dr Rodrigo.

O oncologista explica que os sintomas do câncer de cólon podem ser confundidos com outras doenças. O paciente pode apresentar sangue nas fezes, alterações intestinais, bem como dor e desconforto abdominal. A perda de peso, sem motivos aparentes, pode ser outro sintoma.

Principais exames para diagnóstico

É muito importante traçar o histórico médico do paciente, justamente para a identificação de possíveis fatores de risco. Existem pessoas com risco aumentado, são as que possuem um histórico familiar de câncer colorretal, certos tipos de pólipos ou de síndromes de câncer colorretal hereditárias, como polipose adenomatosa familiar ou síndrome de Lynch. Ou, histórico pessoal de doença inflamatória intestinal (Colite ulcerativa ou doença de Crohn) ou de certos tipos de pólipos e o de radioterapia prévia do abdome ou região pélvica.  As pessoas com risco aumentado podem precisar iniciar o rastreamento antes dos 45 anos, fazer exames com mais frequência e/ou realizar exames específicos.

O exame físico, como palpação do abdômen, pode ajudar na busca de possíveis anormalidades como órgãos aumentados ou massas. Os tumores de intestino podem ser detectados precocemente por meio de dois exames principais: pesquisa de sangue oculto nas fezes e endoscopias (colonoscopia ou retossigmoidoscopia).

Esses exames devem ser realizados em pessoas com sinais e sintomas sugestivos de câncer, visando ao diagnóstico precoce, ou como rastreamento, nas pessoas sem sinais e sintomas, mas pertencentes a grupos de médio risco (pessoas com 45 anos ou mais) e alto risco (indivíduos com história pessoal ou familiar de câncer de intestino, de doenças inflamatórias do intestino ou síndromes genéticas, como a de Lynch).

“O check up anual precisa fazer parte da vida de todo mundo com a realização anual do exame de sangue oculto nas fezes, principalmente para pessoas acima de 50 anos, passando por todas as especialidades médicas”, alerta Dr. Rodrigo.

Além disso, o médico pode realizar o exame digital retal, onde é inserido um dedo (protegido por luva lubrificada) no reto para avaliação. Outros exames que podem ser solicitados são:

  • Exame de fezes;
  • Exames de sangue;
  • Colonoscopia;
  • Biópsia; e
  • Exames de imagem (raio X, ultrassonografia, ressonância magnética, tomografia computadorizada e PET Scan).

Formas de tratamento

O câncer de intestino é uma doença tratável e frequentemente curável. O tratamento depende de cada caso, principalmente do tamanho, localização e extensão do tumor. “A melhor estratégia será definida pelo especialista e pode ser indicada a cirurgia, com a retirada da parte do intestino afetada”, explica o dr Rodrigo. A médica Tatiana Barros complementa:

“Quando a doença está localizada a cirurgia é o tratamento inicial, retirando a parte do intestino afetada e os gânglios linfáticos (pequenas estruturas que fazem parte do sistema de defesa do corpo). Ou em alguns casos do câncer no reto, a radioterapia associada à quimioterapia pode ser utilizada. Nos casos de metástase para outros órgãos, o tratamento sistêmico torna-se mais importante e frequentemente usamos quimioterapia , terapia alvo e mais recentemente, imunoterapia”.

  • A SBOC tem um infográfico sobre a doença. Para acesso e download, acesse este link.

Com Assessorias 

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