Segundo a Unesco, o bullying, definido como prática repetitiva de agressão física, verbal ou psicológica, é um problema que permeia os sistemas educacionais como um todo, exigindo atenção contínua de escolas, famílias e formuladores de políticas públicas.

O Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, celebrado em 7 de abril,  reforça a importância de ampliar o debate sobre violência entre crianças e adolescentes, dentro e fora do ambiente escolar. O tema, que mobiliza educadores em todo o mundo, ganha ainda mais relevância diante do crescimento de episódios associados também ao ambiente digital, como o cyberbullying.

No Brasil, a violência no ambiente escolar brasileiro segue em escalada e já impacta diretamente a permanência dos alunos nas salas de aula.  A tendência de crescimento, que já vinha sendo observada antes da pandemia, ganhou força a partir de 2022, evidenciando um agravamento do problema e acendendo o alerta de especialistas e autoridades.

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) revelam que a violência interpessoal no contexto escolar tem crescido de forma expressiva: enquanto em 2013 foram registradas 3,7 mil vítimas, o número saltou para 13,1 mil em 2023, um aumento de mais de três vezes no período de dez anos.

Os números ajudam a dimensionar os efeitos desse cenário para além das estatísticas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com os ministérios da Saúde e da Educação, mais de 1,5 milhão de estudantes brasileiros deixaram de ir à escola por medo da violência no trajeto entre casa e sala de aula.

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), divulgados ano passado, indicam que, em 2024, foram registrados cerca de 15.759 episódios de violência relacionados ao contexto escolar atendidos por serviços de saúde, um aumento de 23% em relação ao ano anterior.

Como essas ocorrências são de notificação obrigatória no os dados refletem apenas os casos que chegam aos serviços de saúde, o que indica que a dimensão real da violência, incluindo o bullying, pode ser ainda maior.

Apoio e respeito no ambiente escolar e sensação de pertencimento

O contexto escolar exerce influência relevante sobre o bem-estar de crianças e adolescentes, e interações de apoio com professores e colegas estão correlacionadas à satisfação com a vida. É o que confirma estudo feito por pesquisadores de quatro universidades brasileiras com 1.766 crianças do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. 

No Conversation Brasil, as pesquisadoras Aline Lopes Moreira e Vanessa Barbosa Romera Leme compartilham os principais pontos da pesquisa, que mergulhou na contribuição do clima escolar (relação aluno-professor e aluno-aluno) e da vitimização por bullying como fatores do bem-estar.

Relações baseadas em apoio e respeito no ambiente escolar, aliadas ao sentimento de pertencimento, podem, por outro lado, fornecer suporte psicológico essencial ao desenvolvimento infantil e influenciar a satisfação com a vida dos estudantes, o que, por sua vez, contribui para um clima escolar mais positivo”, explicam.

Programa Escola Que Protege

A experiência cotidiana de intimidação entre estudantes não está restrita a contextos isolados, sendo apontada por organismos internacionais e por dados oficiais como um desafio estrutural que atravessa diferentes realidades educacionais. Essas ocorrências contemplam estudantes, professores e outros membros das comunidades escolares, incluindo casos de intimidação, hostilidades e discriminação repetitiva entre pares.

Esses riscos tendem a se intensificar no período de adaptação ao retorno às aulas, quando as relações sociais estão em reorganização. Para a psicóloga e pesquisadora Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere, reconhecer o bullying como um fator de sofrimento emocional é essencial para uma resposta eficaz.

Tratar o bullying como algo passageiro ou uma fase pode atrasar intervenções necessárias. Uma escuta qualificada, validação do sofrimento e encaminhamentos coordenados entre escolas e famílias podem transformar trajetórias e reduzir riscos de sofrimento mais profundo”, afirma.

Programa Escola que Protege, do Ministério da Educação, reforça que a resposta ao bullying precisa ser estruturada e contínua, com registro formal das ocorrências, comunicação com responsáveis, preservação de evidências — especialmente em casos de violência digital — e acompanhamento sistemático da vítima, do agressor e da turma.

Em situações graves ou reincidentes, a orientação é acionar instâncias como Conselho Tutelar, Ministério Público ou delegacias especializadas, a fim de garantir proteção e responsabilização adequadas.

Tipos de bullying 

O bullying pode se manifestar de diversas formas, cada uma com características específicas – desde agressões físicas e verbais até exclusão social e ameaças constantes, com consequências capazes de ir além do ambiente escolar e virtual, levando a consequências sérias para a saúde emocional de crianças e adolescentes, como ansiedade, depressão, queda do rendimento escolar e evasão.

O bullying físico envolve agressões diretas, como empurrões, socos, tapas ou danos às propriedades da vítima, já o verbal, caracteriza-se por insultos, apelidos pejorativos, ameaças e humilhações públicas. Há, ainda, o  psicológico ou emocional, que busca minar a autoestima da vítima por meio de manipulação, chantagens, exclusão social ou perseguições constantes. 

O ciberbullying, por sua vez, utiliza as tecnologias digitais para espalhar rumores, criar perfis falsos, enviar mensagens ofensivas ou compartilhar fotos íntimas sem consentimento. O sexual envolve comentários, gestos ou toques de natureza sexual, além de difamações relacionadas à orientação sexual da vítima, enquanto o social consiste na exclusão deliberada da vítima de grupos sociais, atividades ou interações, visando isolar e marginalizar.

Meu filho está sofrendo bullying! E agora?

Especialista explica os sinais de alerta que pais e responsáveis devem observar e como agir nesta situação 

Segundo Mariana Ramos, professora de psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, a detecção precoce é essencial para mitigar seus efeitos, e que pais e educadores devem criar um ambiente de confiança, onde a criança se sinta segura para compartilhar suas experiências.

A especialista explica que se houver suspeita de que uma criança esteja sofrendo bullying, é importante buscar apoio profissional e dialogar com a escola para encontrar soluções conjuntas. “A intervenção precoce é essencial para garantir o bem-estar e o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes”.

Identifique os sinais

É fundamental estar atento a mudanças no comportamento e no estado emocional da criança ou adolescente. Os sinais podem variar, mas costumam incluir:

  • Mudanças bruscas de comportamento, como isolamento, irritabilidade, agressividade, medo de ir à escola ou queda no rendimento escolar;
  • Sintomas físicos sem causa aparente, como dores de cabeça, dores de estômago, náuseas ou insônia;
  • Alterações no sono e no apetite, incluindo pesadelos, perda de apetite ou comer em excesso;
  • Ansiedade antecipatória, como chorar antes das aulas ou demonstrar resistência em sair de casa;
  • Evitar redes sociais ou demonstrar angústia após o uso do celular;
  • Comportamentos autodestrutivos, como se machucar, falar sobre morte ou apresentar sinais de depressão.

Como os pais ou responsáveis devem agir?

Dra Mariana ressalta a necessidade do acolhimento sem julgamentos, oferecendo escuta e segurança emocional. Evitando minimizar o sofrimento com frases como “isso é bobagem” ou “você precisa ser mais forte”. A criança precisa sentir-se ouvida e protegida.

Outro ponto destacado pela psicóloga é a necessidade de uma comunicação assertiva neste momento “Comunique a escola, registre o ocorrido e solicite acompanhamento psicológico, tanto para a vítima quanto para os envolvidos. É importante lembrar que o agressor também necessita de apoio, muitas vezes, ele próprio já foi vítima em outro contexto”, conclui.

A psicóloga explica que a implementação de programas de prevenção, como palestras, rodas de conversa, oficinas e campanhas de conscientização, são  essenciais para reduzir os casos de bullying. Essas ações fortalecem o respeito às diferenças, a empatia e as habilidades socioemocionais, promovendo um ambiente escolar mais acolhedor e colaborativo.

Nesse sentido, treinamentos contínuos para professores e funcionários ajudam na identificação e no manejo adequado das situações, enquanto espaços de escuta psicológica e grupos de apoio oferecem suporte aos alunos. Além disso, a integração entre família e escola é fundamental para um cuidado compartilhado, assim como os projetos de educação socioemocional, que estimulam a autorregulação e a resolução pacífica de conflitos.

Colaboração entre famílias e educadores é fundamental

Transmitir valores e regras com clareza, para que as crianças compreendam os limites e reconheçam os papéis de cada um, é responsabilidade de todos os envolvidos na educação

O aumento dos episódios de violência e bullying nas escolas tem preocupado famílias e educadores em todo o país. Relatos frequentes de agressões físicas, intimidação verbal e exclusão social evidenciam um cenário que exige atenção constante e respostas coordenadas. Mais do que números, o que se observa é um ambiente que precisa ser fortalecido por meio do diálogo, da escuta e da corresponsabilidade entre família e escola.

Para a psicopedagoga e escritora infantil Paula Furtado, são diversos fatores que contribuem para o aumento desse número, e que, geralmente, sempre há uma história de dor, negligência ou falta de pertencimento por trás de uma agressividade do aluno em relação a colegas ou professores.

Vivemos um tempo de grande desregulação emocional. As crianças e adolescentes chegam para estudar carregando ansiedades, frustrações e inseguranças que, muitas vezes, não encontram espaço de escuta ou acolhimento. O excesso de telas e o enfraquecimento do vínculo familiar contribuem para os comportamentos impulsivos e agressivos. A violência pode ser um pedido de ajuda”, revela a profissional.

Responsabilidades educativas

De acordo com Paula, um dos principais desafios na relação família-escola hoje é a divisão de responsabilidades. “Frequentemente, a instituição de ensino é cobrada por questões que pertencem ao âmbito familiar, enquanto parte dos responsáveis espera que o estabelecimento educacional eduque emocionalmente seus filhos. A falta de tempo, de vínculo e de confiança dificulta a colaboração necessária para um desenvolvimento saudável”.

Apesar de complementares, os papéis são distintos; a escola educa para o convívio social e para o conhecimento, enquanto a família transmite valores essenciais para a vida, como respeito, empatia e responsabilidade. “Quando esses papéis se confundem, as crianças perdem referências claras e têm mais dificuldade de compreender regras e limites de convivência”, completa.

Ajuda profissional

Quando a agressividade deixa de ser pontual e começa a se manifestar de forma intensa e recorrente, prejudicando o aluno e seu grupo, ela se torna um sinal de alerta que exige atenção especializada. “Acompanhamento psicológico é fundamental para identificar as causas do comportamento e oferecer caminhos mais saudáveis de expressão e regulação emocional”, pontua Paula.

É igualmente importante zelar pelo bem-estar dos professores que, diante de pressões e do desgaste emocional, também podem apresentar condutas inadequadas. “O diálogo mediado pela coordenação e pela equipe pedagógica é sempre o melhor caminho para acolher e corrigir eventuais equívocos”, destaca a psicopedagoga.

Prevenir conflitos

Encontros mais frequentes e menos burocráticos permitem que as reuniões sejam além da simples identificação de problemas. São oportunidades onde todos podem ouvir e ser ouvidos, compartilhar estratégias e criar soluções para proteger o ambiente escolar da violência.

É possível promover momentos de troca, reuniões temáticas, oficinas e palestras que envolvam os pais de forma ativa e afetiva. “Quando ambos reconhecem que compartilham o mesmo objetivo, que é o bem-estar da criança, o diálogo se torna mais produtivo”, frisa Paula.

Com Assessorias

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