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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade é definida pelo excesso de gordura corporal, em uma quantidade que representa possíveis prejuízos à saúde. É um dos principais fatores de risco para várias doenças não transmissíveis (DNTs), como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão, AVC e vários tipos de câncer.

Trata-se de uma doença crônica que acomete mais de 650 milhões de pessoas em todo o planeta e no Brasil deve acometer cerca de 30% da população adulta, segundo o levantamento realizado pelo Atlas Mundial da Obesidade, que coloca o país entre os que possuem os maiores índices de obesidade no mundo.

Segundo dados da OMS, 1 bilhão de pessoas já sofrem com o sobrepeso em todo o globo, número que se intensificou durante a pandemia do Covid-19. Estima-se que até 2025, ao menos 20% da população brasileira adulta esteja obesa. este cenário se dá especialmente pelos altos níveis de estresse a que fomos submetidos após o surto de Covid-19.

“Desde que a pandemia começou diversos estudos mostraram o aumento de casos de depressão, ansiedade e burnout, condições totalmente relacionadas ao estresse excessivo. A questão é que junto com elas vem as mudanças no estilo de vida e na alimentação, induzindo a um maior consumo calórico e compulsão alimentar que favorecem o sobrepeso e ao sedentarismo, que dificulta a perda de peso”, analisa a nutróloga e especialista em medicina integrativa Esthela Oliveira.

Canetas para emagrecer: a polêmica do emagrecimento químico

Em paralelo a esse cenário, estamos vendo um verdadeiro boom de medicamentos como o Ozempic e o Wegovy, as famosas “canetas para emagrecer”, tão populares entre celebridades internacionais, quanto entre mulheres comuns, determinadas a buscar o peso ideal. Mas ainda há muita polêmica em torno dos prós e contras do chamado “emagrecimento químico”.

Em um Brasil onde 96 milhões de adultos estão em condições de sobrepeso, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, assim como, cerca de 6,4 milhões de crianças, segundo dados do Ministério da Saúde de 2021, a liberação para comercialização do remédio nas farmácias nacionais, chega como uma forma segura e eficaz de combater essa comorbidade, a partir dos 12 anos de idade. Isso, claro, desde que prescrita e acompanhada por um médico especialista, unida a um plano alimentar adequado, exercícios físicos regulares e uma mudança no estilo de vida, que também engloba aspectos emocionais.

Esthela Oliveira alerta sobre o uso indiscriminado da medicação sem prescrição adequada. “Esses medicamentos com semaglutida, indicados para tratamento da Diabetes tipo 2 costumam ser prescritos off label para tratamento da obesidade e sobrepeso, o Wegov, por isso não precisam de receita médica controlada para a comercialização. Esse fácil acesso pode levar ao uso inadequado e banalizado do medicamento, visto que também há um aumento nos distúrbios alimentares e de autoimagem nos últimos anos”, alerta.

Fabricante também alerta para uso inadequado do medicamento

A jornada de um paciente com obesidade passa por caminhos que incluem o tratamento medicamentoso. Priscilla Mattar, endocrinologista e diretora médica da Novo Nordisk, laboratório que produz a semaglutida, fala sobre os avanços no tratamento da doença, a importância do acompanhamento médico aos pacientes com obesidade, além das ações e iniciativas realizadas pela empresa no combate aos estigmas e preconceitos relacionados à doença e seu tratamento.

“O uso inadequado de qualquer medicamento, em geral, ocasiona uma menor eficácia do produto, bem como interfere, diretamente, na segurança do paciente. Entretanto, informações equivocadas podem afetar, justamente, os indivíduos que utilizam a medicação de maneira correta”, afirma a especialista.

Entre os pacientes com obesidade, dúvidas relacionadas ao ganho de peso após a interrupção do tratamento, o medo de o produto causar dependência, entre outras, são cada vez mais comuns. “Nesse sentido, a difusão correta da informação impacta diretamente no sucesso terapêutico e na qualidade de vida dessas pessoas”, ressalta a médica.

Uso de semaglutida não é indicado para perda rápida de peso

A obesidade é uma epidemia crescente no Brasil, com mais de 60% da população com sobrepeso ou obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde. Nos últimos anos, o uso da semaglutida ganhou espaço como tratamento clínico para o controle do peso, mas seu uso é contínuo, não deve ser utilizado para perdas de peso rápidas, requer acompanhamento com especialistas e não descarta o tratamento cirúrgico para os casos mais complexos de obesidade.

A semaglutida é uma medicamento análogo (que mimetiza) a ação de um hormônio produzido pelo intestino, em resposta à alimentação, chamado GLP-1. Assim, ele demonstra ao cérebro uma sensação de saciedade mais precoce, reduz a velocidade de esvaziamento do estômago (o que faz o indivíduo se sentir cheio por mais tempo), auxilia a secreção de insulina pelo pâncreas e reduz a resistência à ação da insulina em outros órgãos, como o fígado.

O medicamento ficou conhecido através do nome “Ozempic”, injeção utilizada para controle do Diabetes Tipo 2 que apresentou o efeito da perda de peso em alguns pacientes que utilizavam doses semanais de 1mg. Foi então que o medicamento passou a ser utilizado como tratamento off label (uso além das indicações previstas em bula), de acordo com a experiência do médico que prescreve.

Agora, a Anvisa liberou a semaglutida na dose de 2,4mg sob o nome de “Wegovy” especificamente para este tratamento. De acordo com a endocrinologista Paola Wyatt Brock, do Eco Medical Center, a semaglutida pode ser usada tanto para o tratamento do Diabetes Tipo 2 quanto para a obesidade e ajuda a perder peso a curto prazo, mas não é viável como solução única e não deve ser utilizada para situações específicas como o Carnaval, já que exige um acompanhamento médico.

“Com certeza é uma estratégia muito poderosa, porém, desde que aliada à prática regular de exercício físico adequado e também à reeducação ou reestruturação alimentar. Com isso, é possível que muitos casos não precisem chegar a uma cirurgia bariátrica porque vão estar com esse tratamento muito estruturado”, explica Paola.

Cirurgia ainda é mais indicada para obesidade grave e mórbida

No entanto, a endocrinologista não descarta o tratamento cirúrgico como uma importante ferramenta para o controle da obesidade e suas comorbidades e a possibilidade de somar os tratamentos para um controle da doença a longo prazo.

“No caso de não responder a este tratamento, a cirurgia bariátrica pode ser indicada e esses pacientes precisam ser acompanhados periodicamente. Em um segundo momento, caso o paciente não esteja perdendo peso de forma esperada, a medicação é uma possibilidade para auxiliar no tratamento, assim como no caso de pessoas que voltaram a ganhar peso após a cirurgia bariátrica”, reforça a especialista.

Neste sentido, o cirurgião bariátrico Alcides Branco, também do Eco Medical Center, explica que a obesidade é uma doença crônica, não tem cura e o tratamento cirúrgico da obesidade ainda é a ferramenta mais potente e eficaz para a qualidade de vida dos pacientes com obesidade grave e mórbida.

“Esses medicamentos não são uma solução mágica para o emagrecimento, mas sim um auxílio para o controle do peso e melhoria da saúde. A cirurgia bariátrica e metabólica são procedimentos reconhecidos há décadas. Além da perda de peso, o procedimento também auxilia para o controle de doenças metabólicas como o diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, reduz problemas cardiovasculares, entre outros benefícios”, reflete Alcides Branco.

Ainda segundo o cirurgião, estudos recentes têm demonstrado efeitos positivos a médio e longo prazo para a qualidade de vida destes pacientes.

“Cerca de 85% dos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e metabólica entram em remissão do diabetes, ou seja, deixam de tomar medicamentos e insulina, já no primeiro ano de pós-operatório. Estudos também demonstram que o procedimento também reduz em 40% o risco de mortalidade por causas cardiovasculares e em 63,1% a doença renal crônica causada pelo diabetes, por exemplo”, explica Branco.

Indicações para tratamento cirúrgico

Entre os critérios de indicação para a cirurgia bariátrica está o Índice de Massa Corporal (IMC) entre 34,9 kg/m² e 40 kg/m² na presença de comorbidades relacionadas ao excesso de peso; acima de 40 kg/m², sem comorbidades; e constatação de “intratabilidade clínica da obesidade” por um endocrinologista.
No caso da cirurgia metabólica, que tem como foco o controle do Diabetes Tipo 2, os critérios são IMC entre 30 kg/m² e 34,9 kg/m², idade entre 30 e 70 anos, ter diabetes mellitus tipo 2 há menos de 10 anos, indicação cirúrgica feita por endocrinologista e parecer mostrando que o paciente apresentou resistência ao tratamento clínico com antidiabéticos orais e/ou injetáveis, mudanças no estilo de vida e que compareceu ao endocrinologista por no mínimo dois anos.

5 dúvidas sobre a semaglutida

Recentemente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a aprovação da semaglutina 2,4 mg para pessoas com obesidade. O endocrinologista e metabologista André Camara, da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP), responde abaixo 5 dúvidas sobre a nova medicação para o ‘Especial Obesidade’, do Portal ViDA & Ação. Confira!

1.        O que a semaglutida oferece de diferente em comparação a outros medicamentos para tratar a obesidade?

semaglutida é uma droga da classe dos analógos do GLP-1 que tem como efeito diminuir a fome, aumentar a saciedade e controlar a glicemia e deve ser usada sob prescrição e acompanhamento médico em associação com reeducação alimentar, atividade física, sono adequado e controle de stress/ansiedade/depressão. É válido ressaltar que normalmente todos nós sintetizamos o GLP-1 (hormônio endógeno) sob o estímulo após refeições pelas células neuroendócrinas da mucosa intestinal, e assim de forma fisiológica este hormônio atua regulando a fome, a saciedade e a glicemia.

semaglutida e outros análogos de GLP-1 apresentam algumas vantagens em comparação com a sibutramina pois apresentam pouca interação medicamentosa (o que faz com que a semaglutida tenha poucas contraindicações) e atua no sistema nervoso central de forma mais específica e seletiva, causando menos efeitos colaterais relacionados à alteração de humor, libido, concentração entre outras funções coginitivas.

Em comparação à liraglutida, a semaglutida tem maior facilidade de posologia, diária e semanal respectivamente, o que aumenta a aderência e apresenta perda média de peso maior, entretanto apresenta, no geral, mais efeitos colaterais gastrointestinais como náuseas e vômitos. Por enquanto apenas a apresentação subcutânea de semaglutida está aprovada para perda de peso em pacientes com sobrepeso/obesidade. Porém, já existe via oral (comprimidos), liberada para pessoas com diabetes.

Lembrando que cada paciente tem suas particularidades e resposta ao tratamento e eventualmente tem indicação de uma ou outra substância.

2.        Para que tipo de perfil de paciente esse medicamento deve ser receitado?

Esta medicação está indicada para pacientes com dificuldade de perder peso com reeducação alimentar e atividade física que tenham obesidade (IMC> ou = 30) e/ou sobrepeso com IMC>27 com uma comorbidade associada à obesidade e que não tenha contraindicações à mesma. Outra indicação da semaglutida é tratamento de diabetes mellitus tipo 2.

3.        Esse medicamento pode ser usado para combater a obesidade infantil ou é apenas para adultos?

Este medicamento é aprovado no mercado brasileiro para ser usado em pacientes a partir de 18 anos, entretanto já foram publicados trabalhos para tratamento de adolescentes com obesidade a partir de 12 anos, inclusive com aprovação do FDA (órgão dos Estados Unidos semelhante à ANVISA) para essa faixa etária.

4.        Quais as perspectivas que se abrem para o tratamento da obesidade com a aprovação desta medicação?

semaglutida é uma droga que tem mostrado excelentes resultados (média de 16% do peso perdido, com alguns pacientes perdendo mais do que isso) no médio prazo. De maneira geral, perda de peso maior ou igual a 10% diminui risco de comorbidades associadas à obesidade.

5.      Esse medicamento pode diminuir a necessidade de bariátricas em pacientes com obesidade acima de grau 3?

semaglutida isoladamente tem mostrado uma boa perda ponderal próximo ao resultado da cirurgia bariátrica “sleeve” (perda média de 20%) e a cirurgia bariátrica Bypass gástrico (perda média de 30%). Além do resultado isolado da semaglutida, temos que pensar também em possíveis associações com outras medicações que temos no mercado ou com novas substâncias (associação de semaglutida com cagrilintida já está em estudo com resultados promissores), além de outras medicações que estão vindo (Tirzepatida) o que pode fazer essa perda ser mais expressiva ainda, com a possibilidade de diminuir a demanda por cirurgia bariátrica.

Palavra de Especialista

Injeção para perda de peso: endocrinologistas aguardam ansiosos

Por Maria Augusta Karas Zella*

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima, em 2025, 2,3 bilhões de adultos ao redor do mundo acima do peso, sendo 700 milhões de indivíduos com obesidade, isto é, com um índice de massa corporal (IMC) acima de 30. No Brasil, a obesidade aumentou 72% nos últimos 13 anos, saindo de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019, de acordo com a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico 2019 (Vigitel)

obesidade é uma doença crônica, recorrente, multifatorial, com característica genética e progressiva, reconhecida como doença em 1997 pela OMS e incluída no CID-6 (Código Internacional de Doença) em 1946. Associa-se a outras doenças crônicas, piorando a evolução ou desencadeando doenças como hipertensão arterial, dislipidemia, doença cardiovascular, diabetes melitus, osteoartrite e apneia obstrutiva do sono. Sabemos que reduções de peso na ordem de 10-15% trazem consigo a melhora do risco cardiovascular, com impacto na hipertensão arterial, controle da glicemia e dislipidemia

Para quem trabalha no dia a dia com obesidade, a entrada de novas medicações traz consigo a oportunidade de mudar a história dessa doença dentro do tratamento clínico. A Endocrinologia brasileira comemora a entrada da caneta de semaglutida 2,4mg com agulha incluída (Wegovy ™) de uso subcutâneo semanal para tratar obesidade e pacientes com sobrepeso associado a comorbidades (hipertensão, síndrome metabólica, dislipidemia), promovendo perda de peso de 16%-17% do peso corporal em 68 semanas. A medicação já estava sendo usada na caneta de 1mg para tratamento do diabetes (Ozempic ™). 

A semaglutida faz parte das medicações agonistas do GLP-1 (glucagon like peptide-1 receptor agonista) que agem não apenas retardando o esvaziamento gástrico, mas também reduzindo ingestão alimentar por ação central no apetite. Principais efeitos colaterais apresentados foram efeitos gastrointestinais como náusea, vômitos, diarreia e constipação intestinal

Será comercializado pela farmacêutica Novo Nordisk, com o nome Wegovy. Trabalhos preliminares com as injeções semanais ajudaram na redução de até 20% do peso corporal de uma em cada 3 pessoas, sendo a redução igual ou superior a 5% do peso corporal vista em 83,5% dos pacientes

A medicação já vem sendo utilizada nos Estados Unidos, onde foi aprovada para comercialização em 2021 pelo FDA. Países como Reino Unido, Japão e Dinamarca já aderiram a medicação. Aqui no Brasil esperamos sua entrada no segundo semestre de 2023. Ainda seu preço não foi definido

Mas é importante lembrar que a entrada de novas opções terapêuticas para tratar ambos, obesidade e sobrepeso com comorbidades, não nos isenta do foco na melhoria de qualidade da alimentação e atividade física. Pelo contrário, são estratégias a serem somadas no tratamento da obesidade. Lembrando que obesidade precisa de tratamento de longo prazo, como toda doença crônica.

Professora de Endocrinologia e Semiologia da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR) e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia — regional Paraná.

Com Assessorias

 

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