No Brasil, o país mais ansioso do mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sofrimento emocional tornou-se um mercado bilionário. No entanto, neste Janeiro Branco, um movimento liderado por cientistas e pesquisadores da Fiocruz e da USP propõe um debate corajoso: será que estamos tratando angústias existenciais com excesso de fármacos?

A nova fronteira da saúde mental sugere uma “retirada responsável” de antidepressivos e ansiolíticos em casos onde a medicação serve apenas para silenciar sintomas de uma rotina opressiva, sem tratar a causa real do sofrimento.

A explosão dos diagnósticos

Para se ter uma ideia do fenômeno, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) saltou de 128 categorias em 1952 para 541 modalidades de sofrimento psíquico em sua versão mais recente. Esse aumento de 400% sugere que estamos transformando comportamentos humanos e tristezas comuns em doenças que exigem pílulas.

“Os medicamentos psiquiátricos, em geral, são mal administrados e recomendados excessivamente, correspondendo mais a uma lógica de eficácia e funcionalidade do que aos benefícios para a saúde emocional”, afirmam especialistas que participaram do 8º Seminário Internacional “A Epidemia das Drogas Psiquiátricas”.

A ditadura do “smartphone” e o cansaço digital

Um dos grandes vilões contemporâneos é a hiperconectividade. A psicóloga Mariama Furtado, autora do livro O lugar do sofrimento na cultura contemporânea, ressalta que o impacto do uso abusivo de redes sociais e IAs tem levado a quadros de estresse e angústia evitáveis.

A sensação de pânico ao esquecer o celular ou a necessidade de responder mensagens instantaneamente são gatilhos para descargas de ansiedade. A recomendação médica agora inclui a higiene mental: momentos de recesso total da internet para evitar a “mercantilização do bem-estar”.

Por uma nova Reforma Psiquiátrica

Assim como o Brasil foi referência mundial ao lutar por uma “sociedade sem manicômios”, cientistas agora buscam uma reforma contra a “sociedade medicada”. O objetivo não é demonizar o remédio — que é essencial em casos graves —, mas promover recursos terapêuticos que incluam:

  • Acompanhamento psicoterapêutico: Para ressignificar padrões de comportamento.

  • Higiene do tempo: Aprender a desconectar e respeitar o ritmo do corpo (o tempo Kairós das emoções, versus o tempo Kronos do relógio).

  • Desmame assistido: Processos seguros de retirada de medicação sob supervisão médica rigorosa.

A saúde mental em 2026 pede equilíbrio entre o avanço da medicina e a preservação da nossa subjetividade. Cuidar da mente é, também, aprender a sentir e processar a vida sem filtros ou anestesias constantes.

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