O Brasil consolidou-se em um posto alarmante: é o país com o maior número de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo. Segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 19 milhões de brasileiros (aproximadamente 9,3% da população) convivem com a condição. O país também ocupa o primeiro lugar na América Latina em quadros depressivos.

Apesar da magnitude do problema, um descompasso estrutural chama a atenção de especialistas: enquanto o consumo de antidepressivos e medicamentos controlados disparou — com um crescimento de 58% nas vendas apenas em 2021 —, o acesso a tratamentos terapêuticos permanece restrito a uma pequena parcela da sociedade.

A estratégia do alívio imediato

Dados do Índice Instituto Cactus-Atlas de Saúde Mental (iCASM) revelam que apenas 5,1% dos brasileiros estão em acompanhamento terapêutico, enquanto 16,6% fazem uso de medicamentos controlados. Na prática, um em cada seis cidadãos recorre à farmácia para lidar com o sofrimento psíquico, mas poucos chegam ao divã.

Para a psicóloga Maria Klien, esse cenário expõe um desequilíbrio perigoso. “Estamos diante de um cenário em que a resposta imediata oferecida pela sociedade é a medicação. Ao tratarmos apenas os sintomas, negligenciamos as origens do sofrimento e perpetuamos um ciclo de dependência química em substituição ao cuidado integral”, alerta.

A sobrecarga do Sistema Único de Saúde (SUS), do qual 70% da população depende exclusivamente, agrava o quadro. Com a escassez de psicólogos e a alta demanda, a prescrição de fármacos acaba sendo a alternativa mais rápida, embora muitas vezes insuficiente para enfrentar as causas emocionais profundas.

Geração Z e a influência das redes sociais

O fenômeno da medicalização precoce atinge em cheio os jovens. A Geração Z concentra hoje o maior consumo de psicofármacos, lidando com altos índices de burnout e depressão.

Especialistas apontam que as redes sociais, como TikTok e Instagram, desempenham um papel central nesse processo. Conteúdos superficiais que “normalizam” o uso de medicamentos sem a devida compreensão clínica criam um ambiente onde o remédio é visto como solução para qualquer desconforto emocional ou pressão cotidiana.

“Estamos anestesiando uma geração inteira. A medicalização substituiu a escuta e a elaboração subjetiva”, pontua Klien.

Tratar o sintoma não é tratar a dor

O psicólogo e pesquisador Jair Soares, fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), explica que o medicamento muitas vezes atua como um “curativo” que não fecha a ferida. “O sintoma é um sinal do inconsciente. Se tratamos apenas o desconforto, mas não olhamos para o que o produz, o alívio dura pouco e a dor retorna”, afirma.

Soares desenvolve pesquisas na Universidade de Flores (Argentina) sobre a Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG). O método foca em reorganizar memórias emocionais e traumas que sustentam os sintomas de ansiedade e depressão. “Quando o registro que alimenta o sintoma é reorganizado, o corpo deixa de reagir como se estivesse diante de um perigo constante. O alívio não é apenas consciente; é neurológico”, explica o pesquisador.

Impacto econômico e a “quarta onda”

A crise da saúde mental não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas um problema de ordem econômica. Em 2024, o Ministério da Previdência registrou 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, gerando um impacto de R$ 3 bilhões.

Com a chegada da chamada “quarta onda” de saúde mental — o aumento significativo de casos após crises globais e o avanço da tecnologia —, o desafio de reformular o modelo assistencial brasileiro torna-se urgente. Cientistas e profissionais defendem agora uma nova “Reforma Psiquiátrica”, focada na retirada responsável de fármacos quando estes são recomendados inadequadamente e no investimento em políticas que democratizem o acesso à psicoterapia e à higiene mental.

Quando buscar ajuda profissional?

Especialistas recomendam atenção aos seguintes sinais para buscar avaliação:

  • Uso prolongado de antidepressivos sem melhora na qualidade de vida.

  • Retorno imediato dos sintomas após a tentativa de suspensão da droga.

  • Dependência emocional do alívio imediato proporcionado pelo fármaco.

  • Repetição constante de padrões emocionais negativos ou crises recorrentes.

  • Comprometimento das funções sociais, produtivas e afetivas

 

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