Enquanto o mundo discute a redução de danos para 2030, o cenário brasileiro revela uma dependência crescente de substâncias que ameaçam não apenas a biodiversidade, mas a segurança hídrica e a saúde humana. O país consolidou sua posição como um dos líderes globais na aplicação de agrotóxicos de alta periculosidade, contrariando as metas internacionais de preservação ambiental.
De acordo com um estudo recente a toxicidade total aplicada no campo aumentou drasticamente entre 2013 e 2019. O estudo da universidade alemã de Kaiserslautern-Landau aponta que o país precisaria retroceder aos níveis de uso de 15 anos atrás para se alinhar aos objetivos globais.
Enquanto a COP15 estabeleceu a meta de reduzir os riscos dos pesticidas em 50% até 2030, o Brasil, junto com Índia e Estados Unidos, responde por mais da metade da toxicidade aplicada no planeta. Atualmente, apenas 20 pesticidas respondem por 90% da toxicidade aplicada em território nacional.
A monocultura de soja, milho e algodão é a principal responsável por esse volume, utilizando classes químicas como organofosforados e piretroides, que devastam populações de polinizadores e organismos do solo, essenciais para a própria produtividade agrícola.
Ameaça invisível: atrazina na água e na chuva
A gravidade do quadro é reforçada pela recente reclassificação da atrazina — o sexto herbicida mais vendido no Brasil — pela Agência Internacional de Pesquisas sobre Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS). O composto, já banido na União Europeia, passou a ser considerado como “provável carcinogênico” para humanos, elevando o tom do debate sobre a regulação desses produtos no país.
Pesquisas brasileiras coordenadas pela cientista Cassiana Montagner, da Unicamp, e publicadas na prestigiada revista The Lancet Oncology,, revelam a onipresença de contaminantes no estado de São Paulo. A atrazina foi detectada em 100% dos pontos amostrados no rio Atibaia, responsável pelo abastecimento de Campinas e parte da Grande São Paulo.
Não há concentrações seguras quando se trata de câncer. Uma única gota já se torna intolerável”, alerta Montagner.
O estudo também identificou a presença do herbicida na água da chuva em cidades como São Paulo e Brotas. Embora em concentrações baixas, a interação dessas substâncias com microplásticos no ambiente pode potencializar sua toxicidade e transporte para locais antes preservados, criando um “coquetel químico” cujos efeitos a longo prazo ainda são incertos para a medicina.
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Como reverter o cenário?
Os especialistas indicam que o caminho para garantir a saúde pública e a preservação ambiental passa por três pilares:
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Substituição: Troca de pesticidas altamente tóxicos por moléculas mais modernas e menos persistentes.
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Bioinsumos: Expansão do controle biológico e alternativas não químicas.
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Agricultura orgânica: Incentivo a modelos de produção que respeitem os ciclos naturais e a saúde do trabalhador rural.
O conceito de saúde única como resposta à crise
A urgência em rever a legislação brasileira sobre agrotóxicos não é apenas uma pauta ambientalista, mas uma necessidade de sobrevivência para garantir que a água que bebemos e o alimento que chega à mesa não sejam veículos de doenças silenciosas.
Neste contexto, a abordagem de Saúde Única (One Health) torna-se indispensável. O conceito defende que a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental estão intrinsecamente conectadas e são interdependentes. Quando o Brasil aplica 800 mil toneladas de ingredientes ativos (conforme dados do Ibama de 2022), o impacto não termina na lavoura.
A contaminação do solo afeta os microrganismos, o escoamento de herbicidas atinge os rios que abastecem as cidades e a dispersão atmosférica leva resíduos até a água da chuva. Tratar a saúde humana de forma isolada, sem considerar o colapso dos ecossistemas provocado pelo uso intensivo de pesticidas, é ignorar a raiz do problema. A proteção das populações depende, obrigatoriamente, de um ambiente equilibrado e de sistemas agrícolas sustentáveis.
Fonte: Agência Brasil e assessorias




