Celebrado ao longo desse mês, o Abril Azul chama a atenção para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ganha ainda mais relevância com o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data instituída em 2 de abril pela Assembleia Geral da ONU, em 2007. Ao longo deste mês, a coluna Conexão TEA compartilha matérias especiais sobre questões sérias que precisam ser abordadas como um alerta para a sociedade. A proposta da campanha é ampliar informação de qualidade, combater o preconceito e fortalecer a inclusão das pessoas autistas em todos os espaços da vida social.

No Brasil, as ações têm reforçado a ideia de que autonomia não se constrói sozinha. O mote “Autonomia se constrói com apoio e respeito”, destacado em campanhas públicas de 2026, resume uma mensagem central. Pessoas autistas precisam de acolhimento, acesso a serviços, respeito às diferenças e condições reais de participação na escola, no trabalho e na comunidade.

O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta comunicação, interação social e comportamento de formas muito diversas, o que significa que cada pessoa autista apresenta características, habilidades e necessidades próprias. A Organização Mundial da Saúde estima que, globalmente, cerca de 1 em cada 127 pessoas era autista em 2021. Já o dado mais recente do CDC, nos Estados Unidos, aponta que cerca de 1 em cada 31 crianças de 8 anos foi identificada com TEA.

A cor azul, tradicionalmente associada à campanha, foi popularizada em ações internacionais de conscientização e, no Brasil, muitas vezes é relacionada ao fato de o autismo ter sido historicamente mais identificado em meninos. Hoje, o CDC informa que o TEA é identificado em meninos em uma proporção superior a três vezes a observada em meninas.

Ao mesmo tempo, estudos recentes indicam que essa diferença pode estar ligada, ao menos em parte, ao diagnóstico mais tardio em meninas e mulheres, o que tem levado especialistas a rever antigas leituras sobre prevalência por sexo.

Risco de morte por suicídio é 8 vezes maior

Especialistas alertam que a conscientização sobre o autismo não pode ficar restrita à infância. Na vida adulta, uma das questões mais urgentes e ainda pouco debatidas é a saúde mental.

Uma revisão sistemática publicada em 2024, reunindo 80 estudos sobre suicídio e comportamento suicida no autismo, concluiu que pessoas autistas podem apresentar risco de morte por suicídio de até oito vezes maior do que pessoas não autistas.

No mesmo levantamento, registros nacionais da Dinamarca apontaram aumento de 3,75 vezes no risco de morte por suicídio e de 3,19 vezes no risco de tentativa de suicídio em comparação com pessoas não autistas.

Segundo Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH em adultos, embora dados brasileiros específicos sejam escassos, a recorrência do tema em sua prática clínica reflete uma preocupante tendência global.

Esta realidade ressalta a necessidade premente de uma compreensão mais aprofundada das complexidades enfrentadas por indivíduos autistas na vida adulta, um grupo historicamente negligenciado tanto na pesquisa quanto na provisão de serviços de saúde.

Esses dados representam muito mais que estatísticas, são vidas que poderiam ter sido preservadas com intervenção adequada e oportuna”, alerta o Dr. Trilico, sublinhando a urgência de reconhecer essa disparidade como uma emergência de saúde pública que exige atenção imediata e estratégias de prevenção robustas.

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Masking: mascarar os sintomas aumenta o risco

Em termos clínicos, a vulnerabilidade é multifatorial. A literatura recente associa o aumento do risco à presença de comorbidades psiquiátricas, ao isolamento social, à dificuldade de acesso a cuidados em saúde mental adaptados ao perfil autista,

Outro fator é o chamado masking ou camuflagem social, quando a pessoa tenta esconder traços autistas para se ajustar a expectativas neurotípicas.  Estudos apontam que esse esforço constante pode se relacionar a maior sofrimento psíquico e a maior risco de pensamentos suicidas ao longo da vida.

O diagnóstico tardio também pesa nesse cenário. Pesquisas publicadas neste ano pelo BMJ e por autores ligados à própria revista mostram que meninas e mulheres autistas frequentemente recebem diagnóstico mais tarde e, antes disso, podem ser mal compreendidas ou até confundidas com outros quadros psiquiátricos. Esse atraso reduz o acesso a suporte adequado e pode aprofundar sentimentos de inadequação, exaustão e desesperança.

Inclusão também na vida adulta

Nesse contexto, o Abril Azul se impõe não apenas como campanha de visibilidade, mas como um chamado à responsabilidade coletiva. Falar sobre inclusão é importante, mas insuficiente se não houver atenção concreta à vida adulta, à permanência no mercado de trabalho, ao acesso a diagnóstico qualificado e ao cuidado em saúde mental.

Reconhecer o sofrimento psíquico de adultos autistas, sem estigma e sem infantilização, é parte essencial dessa agenda. A conscientização precisa ir além de símbolos e datas. Informar com responsabilidade, respeitar a neurodiversidade, ouvir pessoas autistas e ampliar redes de apoio são passos fundamentais para reduzir o preconceito e salvar vidas.

É importante lembrar que, no Brasil, pessoas em sofrimento emocional ou em crise podem buscar apoio gratuito e sigiloso 24 horas por dia no CVV, pelo telefone 188, em parceria com o SUS. O atendimento é totalmente sigiloso.

 

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