Mais de 130 mil pessoas morreram em decorrência da explosão de bombas atômicas no Japão, durante a 2ª Guerra Mundial. No dia 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram a primeira bomba atômica da história sobre a cidade japonesa de Hiroshima, matando mais de 70 mil pessoas. Três dias depois, em 9 de agosto, uma segunda bomba atingiu Nagasaki, com cerca de 80 mil mortos.
Os sobreviventes vivenciaram momentos terríveis e perderam familiares e amigos. Mesmo assim, mantiveram a perseverança, a vontade de viver e a vontade de ajudar outras pessoas. Após 80 anos do o primeiro e único momento na história em que armas nucleares foram usadas em guerra e contra alvos civia, sobreviventes desses ataques, conhecidos como hibakushas, ainda convivem com os efeitos dos bombardeios.
Em São Paulo, residem cerca de 56 sobreviventes, sendo que parte deles recebe acompanhamento no Hospital Japonês Santa Cruz (HJSC). Entre eles está Kunihiko Bonkohara, de 85 anos. Quando a bomba atingiu Hiroshima, ele, que tinha 5 anos, estava com o pai a cerca de dois quilômetros do epicentro da explosão.
Foi, então, quando tudo brilhou. Meu pai, que estava em pé ao meu lado, me puxou para debaixo da mesa e ficou em cima de mim, como se tivesse me cobrindo. Neste mesmo instante ouvi o som da bomba e senti o seu vento”, relata.
No dia seguinte, os dois saíram de bicicleta em busca da mãe e da irmã. “No caminho, havia muitos corpos mortos e vários entulhos jogados”, lembra. Elas nunca foram encontradas. Bonkohara também foi exposto à chamada “chuva preta”, precipitação radioativa que caiu sobre a cidade após a explosão. Anos depois, passou a apresentar sintomas como bolhas com pus pelo corpo.
Ele chegou ao Brasil aos 20 anos. Tempo depois, em 1988, se juntou à Associação Hibakusha Brasil pela Paz. “As vítimas que se encontravam no Brasil não recebiam os auxílios. O maior desejo ao se criar a associação foi justamente de que as vítimas pudessem receber tratamento no local onde estivessem”, afirma.
Efeitos tardios na saúde dos sobreviventes
Os efeitos da radiação nos organismos dos sobreviventes não se limitaram ao impacto imediato das explosões. Em muitos casos, os sintomas apareceram anos mais tarde.
A radiação afeta o DNA das células e as consequências desse impacto podem levar de cinco a dez anos ou até mais para se manifestar. Os cânceres não surgem de forma imediata. A leucemia, por exemplo, pode aparecer até dois anos após a exposição, enquanto os tumores sólidos começaram a surgir de forma mais significativa cerca de dez anos depois”, explica Lídia Miyoshi, clínica geral do Hospital Japonês Santa Cruz.
Entre os cânceres mais comuns estão os de tireoide, mama, próstata, pulmão, intestino e estômago. “A radiação altera o material genético e aumenta o risco de vários tipos de câncer, inclusive em órgãos não diretamente expostos”, afirma a médica.
As mutações também podem atingir as gerações seguintes. Filhos de hibakusha podem nascer com maior incidência de malformações e apresentar risco aumentado para doenças genéticas ao longo da vida.
Além do câncer, muitos pacientes apresentam doenças autoimunes, catarata precoce, distúrbios cardiovasculares e neurológicos. “Também há um impacto mental que muitos lidam até hoje com traumas psicológicos graves, como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático”, completa Dra. Lidia.
Governo japonês financia tratamentos no Brasil
O atendimento médico a hibakushas começou no Japão em 1950, mas por muitos anos era necessário viajar ao país para ter acesso aos serviços. Em 2004, quando o Hospital Japonês Santa Cruz firmou acordo com o governo japonês, por meio da organização Hiroshima International Council for Health Care of the Radiation-exposed (HICARE), passou a ser um dos hospitais credenciados para realizar os check-ups dos sobreviventes no Brasil.
Na época, cerca de 130 pessoas foram atendidas. Os exames incluem avaliação clínica, laboratoriais, ginecológicos, raio-X, ultrassonografia e endoscopia digestiva, entre outros. Desde 2019, além do diagnóstico, o tratamento médico desses pacientes também passou a ser custeado pelo governo japonês.
Nem todos os hibakushas fazem os check-ups regularmente, mas permanecem cadastrados e têm acesso ao atendimento conforme a necessidade. A cada dois anos, médicos de Hiroshima e Nagasaki visitam o país para supervisionar os procedimentos. Já os profissionais do nosso hospital participam, anualmente, de treinamentos no Japão, promovidos pelas organizações Hicare e Nashim (Nagasaki Association for Hibakushas Medical Care)”, explica o diretor-presidente do Hospital Japonês Santa Cruz, Masato Ninomiya.
Hospital realiza realiza mais de 1 milhão de atendimentos por ano
A história do Hospital Japonês Santa Cruz vem antes do lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. A instituição foi inaugurado em 29 de abril de 1939, em São Paulo, com a missão de auxiliar os imigrantes japoneses e oferecer um atendimento médico-hospitalar de excelência no Brasil.
O acompanhamento oferecido pelo hospital busca garantir qualidade de vida aos sobreviventes e preservar a memória dos impactos da guerra nuclear, reafirmando o compromisso com a saúde, a dignidade e a paz”, finaliza o diretor-presidente.
Com destaque nos serviços em oftalmologia, neurologia, ortopedia, cardiologia, entre outras especialidades, a instituição possui 165 leitos distribuídos entre apartamentos, enfermarias e UTI, complementada com uma unidade específica para o transplante de medula óssea.
Anualmente, a entidade realiza mais de 1 milhão de atendimentos, em mais de 40 especialidades médicas e tem em sua estrutura dois pronto-atendimentos (geral e oftalmológico) e dois centros cirúrgicos (geral e oftalmológico), capacitados para atendimentos de alta complexidade. O Hospital Japonês Santa Cruz tem certificação da Organização Nacional de Acreditação (ONA II), que atesta a segurança e qualidade dos processos assistenciais e médicos.




