O Brasil atingiu um marco preocupante em sua relação com o meio ambiente. Segundo pesquisa recente da Ipsos para o Instituto Talanoa, 24% dos brasileiros já precisaram abandonar temporariamente suas casas devido a eventos climáticos extremos. O dado, que revela que um em cada quatro cidadãos já sentiu na pele o deslocamento forçado, coincide com o Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, celebrado nesta segunda-feira (16).

Entre os impactos mais severos relatados nos últimos 12 meses, as ondas de calor extremo lideram a lista (48%), seguidas pela falta de energia elétrica (42%) e tempestades fortes (35%). A percepção de urgência é alta: 70% da população acredita que esses eventos estão se tornando mais frequentes, afetando diretamente pilares como saúde, alimentação e moradia.

Apesar dos custos envolvidos, a população brasileira demonstra alto apoio a medidas de prevenção. Cerca de 76% dos entrevistados concordam com obras de infraestrutura climática quando financiadas com recursos públicos, e 66% apoiam mudanças em regras de construção para tornar as cidades mais seguras.

Plano Clima: metas ousadas até 2035

Como resposta estratégica, o Governo Federal lançou o Plano Clima, que orienta Estado e sociedade para enfrentarem a crise climática. O plano descreve ações de mitigação e adaptação para o Brasil ser uma economia de baixo carbono, sustentável do ponto de vista socioambiental.

A meta principal é reduzir entre 59% e 67% as emissões de dióxido de carbono até 2035 (percentuais da meta são relativos a 2005). A contenção será caminho para que até 2050 não haja mais emissões dos gases de efeito estufa no Brasil.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou que o plano não é apenas uma agenda ambiental, mas um guia para o desenvolvimento do país em uma era de emergência climática.

Para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o foco agora é antecipar soluções através da ciência, garantindo que o país não apenas reaja aos desastres, mas se prepare para um futuro onde o clima será o protagonista das decisões econômicas e sociais.

O plano conta com robusto suporte financeiro, incluindo:

  • Fundo Clima: Com orçamento recorde de R$ 27,5 bilhões para 2026.

  • Eco Invest Brasil: Focado em atrair capital privado para a transição ecológica.

  • Crédito emergencial: O Conselho Monetário Nacional (CMN) já autorizou a liberação de R$ 500 milhões para pessoas físicas e empresas atingidas pelas recentes chuvas de fevereiro e março.

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Redução nas emissões e o “alerta” do desmatamento

Embora o Brasil tenha avançado na agenda climática, o cenário ainda exige cautela. Dados do novo relatório do Observatório do Clima (OC), baseados no Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), revelam que as emissões brutas no país caíram 16,7% em 2024, totalizando 2,145 bilhões de toneladas de CO2 equivalente.

Esta foi a segunda maior queda da série histórica, impulsionada principalmente pelo recuo de 32,5% no desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Entretanto, o relatório faz um alerta importante: o controle das emissões brasileiras está excessivamente dependente do combate ao desmate. Enquanto o uso da terra registrou queda, outros setores estratégicos apresentaram alta nas emissões:

  • Resíduos: alta de 3,6%;

  • Processos industriais: alta de 2,8%;

  • Energia: alta de 0,8%.

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O peso recorde das queimadas na saúde e no clima

Um dado alarmante é o impacto dos incêndios florestais. Em 2024, as emissões causadas pelo fogo atingiram o maior nível da série histórica: 241 milhões de toneladas de CO2e. Se esses números fossem contabilizados no inventário oficial, as emissões líquidas do Brasil poderiam dobrar.

O fogo não apenas acelera o aquecimento global, mas degrada severamente a qualidade do ar, provocando um aumento imediato em doenças respiratórias e cardiovasculares nas populações locais, reforçando a conexão intrínseca entre a saúde ambiental e a humana.

Metas em risco para 2025

Apesar do progresso, o Brasil corre o risco de não cumprir sua meta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) para 2025. A projeção aponta que o país deve registrar 1,44 bilhão de toneladas de CO2e líquidas — um volume 9% acima do limite estipulado (1,32 bilhão).

No ranking das emissões brutas por estado, o Pará lidera (278 MtCO2e), seguido por Mato Grosso (231 MtCO2e) e Minas Gerais (190 MtCO2e). O caso de Mato Grosso é emblemático: com 60 toneladas por habitante, o estado possui uma emissão per capita três vezes maior que a dos Estados Unidos, evidenciando o peso da atividade agropecuária e do uso da terra no balanço climático nacional.

Para conferir o detalhamento completo dos dados por setor e estado, acesse o relatório oficial do SEEG.

Enfrentamento aos incêndios: planejamento e brigadas

Para evitar que os recordes de emissões por queimadas se repitam, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) detalhou o Planejamento de Enfrentamento aos Incêndios Florestais para 2026. A estratégia foca na transição do combate reativo para a prevenção científica, utilizando uma infraestrutura que alcança todo o território nacional.

Entre as principais frentes da operação estão:

  • Força tarefa: Mobilização de 4.660 brigadistas em todo o país, com destaque para a composição inclusiva: 50% da força é formada por indígenas e 10% por quilombolas, aproveitando o conhecimento ancestral sobre os territórios.

  • Monitoramento yecnológico: Atuação de uma Sala de Situação permanente e monitoramento via satélite em tempo real, permitindo respostas rápidas em áreas de maior risco.

  • Prevenção tegionalizada: Publicação de portarias de emergência ambiental que estabelecem períodos críticos específicos para cada região, baseados em critérios de déficit de chuvas e histórico de calor.

Apesar de 2024 ter sido um ano crítico em emissões por fogo, o governo destaca que o esforço contínuo já mostrou resultados em biomas sensíveis: em 2025, o Pantanal registrou uma queda superior a 90% nos focos de incêndio, enquanto a Amazônia reduziu os índices em 75%. O desafio para 2026 é manter essa tendência de queda mesmo diante das mudanças climatológicas imprevisíveis.

Resposta à tragédia e o conceito de Saúde Única

A urgência de ações de adaptação climática no Brasil torna-se ainda mais evidente quando lembramos da tragédia recente na Zona da Mata de Minas Gerais, que resultou em 72 mortes no mês passado. O episódio é um lembrete doloroso de como a degradação ambiental e a falta de infraestrutura resiliente impactam a vida humana de forma irreversível.

Eventos como as enchentes em Minas não apenas destroem lares, mas desequilibram a fauna local e contaminam recursos hídricos, criando um ciclo de doenças que sobrecarrega o sistema público de saúde.

Neste cenário, o portal Vida e Ação reforça a importância do conceito de Saúde Única (One Health). A abordagem integra a saúde humana, animal e ambiental, entendendo que o equilíbrio do ecossistema é a única barreira eficaz contra a proliferação de zoonoses e o agravamento de crises sanitárias decorrentes do clima.

Com informações da Agência Brasil

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