A Praia do Flamengo, um dos cartões-postais mais conhecidos do Rio de Janeiro, tem se tornado o cenário de uma transformação profunda para a população transexual e travestis. Projetos como o Aquatrans e o Transmaromba estão ressignificando o espaço público e devolvendo a sensação de liberdade a corpos que, muitas vezes, são afastados do convívio social devido ao preconceito.

Para muitos indivíduos trans, o ambiente da praia — que antes da transição era um território comum — torna-se hostil pela exposição do corpo. “Quando a gente está no mundo, o mundo engole a gente com as microviolências cotidianas”, afirma Maya Alves, estudante de história e vice-presidenta do Aquatrans. O contato com o mar, segundo ela, permite um resgate de si mesma.

O mar como espaço de acolhimento e proteção coletiva

O projeto Aquatrans surgiu em 2024 pelas mãos do educador físico Marcelo Silva, um homem trans. A iniciativa oferece aulas de natação em águas abertas a preços populares e já conta com cerca de 120 participantes. As turmas, divididas por níveis e apelidadas carinhosamente de anêmonas, água-vivas e golfinhos, abrem novas vagas para o início de 2026.

A prática coletiva funciona como um escudo contra a discriminação. De acordo com o pesquisador e educador físico Leonardo Peçanha, doutorando pela Fiocruz, a coletividade gera uma inversão de poder. “No coletivo, há uma proteção. Os homens trans, por exemplo, sentem-se confortáveis para tirar a camisa, mesmo aqueles que ainda não realizaram a mastectomia”, explica.

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Transmaromba: força e resistência sob o sol do Rio

Além da natação, a musculação rústica ganha força com o Transmaromba. O grupo se reúne ao ar livre para treinar com equipamentos de cimento e ferro, focando no empoderamento de homens trans. Kayodê Andrade, um dos idealizadores, ressalta que o projeto busca construir uma comunidade inclusiva onde a atividade física serve como ferramenta para a saúde mental.

Para quem utiliza binders ou tapes (faixas para compressão do peito), o calor do Rio de Janeiro pode tornar a prática de exercícios em academias convencionais um desafio logístico e emocional, devido ao desrespeito ao nome social e ao uso de vestiários. Espaços seguros como esses eliminam essa barreira.

Benefícios para a mente e a busca por políticas públicas

O impacto dessas atividades vai além do condicionamento físico. O psiquiatra Daniel Mori, da USP, destaca que a atividade física é um pilar de estabilidade durante o processo de transição, período marcado por estresse crônico e medo do julgamento. “As atividades em grupo mostram que elas não estão a sós. O isolamento é um grande fator de sofrimento psíquico”, pontua.

Diante dos benefícios comprovados, Leonardo Peçanha defende que a Educação Física seja integrada oficialmente ao Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS). A inclusão de profissionais capacitados no SUS é uma das principais reivindicações da comunidade para garantir que o cuidado com o corpo trans seja pautado pelo respeito e pela autonomia.

Para alunos como o sushiman Átila Lino, o resultado é nítido: “Os impactos são diretos na minha saúde e autoestima”. Mais do que força física, o que se cultiva na areia e no mar do Rio é a vontade de ocupar a cidade com dignidade.

Fonte: Agência Brasil

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