O cenário da saúde ocupacional no Brasil enfrenta um desafio sem precedentes. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais. O número de afastamentos do trabalho causados por ansiedade, depressão, transtorno bipolar e outros transtornos representa um salto de 15,66% em relação ao ano anterior, consolidando uma tendência de crescimento que sobrecarrega o sistema previdenciário e acende um alerta para as empresas.
No Rio de Janeiro, a situação é crítica. O estado ocupa a quarta posição no ranking nacional de concessões, com 41.997 benefícios liberados em 2025. Só perde para São Paulo (149.375), Minas Gerais (83.321) e Rio Grande do Sul (46.738), O reflexo desse adoecimento também é sentido na ponta do atendimento: as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do estado registraram mais de 146 mil atendimentos por crises de ansiedade, pânico e depressão no último ano.
Predominância feminina e os diagnósticos líderes
Os dados revelam um recorte de gênero nítido: a maior parte dos benefícios foi concedida a mulheres, que representam 63,46% do total nacional. Em 2025, dos mais de 546 mil benefícios, 346.613 foram para mulheres e 199.641 para homens.
No topo da lista de causas do levantamento divulgado pelo Ministério da Previdência Social nesta quinta-feira (28/01), os transtornos ansiosos (CID F41) aparecem isolados na liderança, seguidos pelos episódios depressivos.
Ranking de concessões em 2025 (Brasil):
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Outros transtornos ansiosos (F41): 166.489 casos
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Episódios depressivos (F32): 126.608 casos
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Transtorno afetivo bipolar (F31): 60.904 casos
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Transtorno depressivo recorrente (F33): 60.551 casos
Sobrecarga cognitiva e a falácia da eficiência extrema
Para especialistas, o recorde de afastamentos expõe uma crise na forma como o trabalho é organizado. Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação, alerta para o conceito de saúde cognitiva, que vai além da exaustão emocional.
“Observa-se sobrecarga mental persistente e decisões tomadas de forma automática. Cuidar da saúde mental também envolve qualificar a forma de pensar e decidir, acionando o cérebro com mais intenção para atravessar tempos de excesso”, explica Clara.
Complementando essa visão, Patricia Ansarah, CEO do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP), aponta o paradoxo da produtividade tecnológica. Segundo ela, embora a automação tenha reduzido erros operacionais, os indicadores humanos mostram times com concentração fragmentada e queda da energia necessária para criar.
A exaustão mental não é apenas um problema de saúde, é um risco organizacional que afeta o engajamento e aumenta a intenção de desligamento”, afirma Patricia.
Comunicação falha como gatilho de desgaste emocional
Outro fator determinante para o adoecimento é a qualidade das relações interpessoais. Vivian Rio Stella, pós-doutora em Linguística, observa que o desgaste muitas vezes nasce do que é dito — ou omitido — no cotidiano corporativo.
“Palavras mal escolhidas ou ambíguas geram desgaste emocional contínuo. É preciso priorizar mensagens objetivas, com prazos e expectativas claros, tornando as conversas frequentes e previsíveis para reduzir o peso emocional sobre o colaborador”, defende Vivian.
Ranking nacional: afastamentos por transtornos mentais em 2025
Confira abaixo a lista dos estados brasileiros ordenada pelo volume de benefícios concedidos pelo INSS em decorrência do Capítulo V da Classificação Internacional de Doenças CID 1
| Posição | Estado | Concessões |
| 1º | São Paulo | 149.375 |
| 2º | Minas Gerais | 83.321 |
| 3º | Rio Grande do Sul | 46.738 |
| 4º | Rio de Janeiro | 41.997 |
| 5º | Santa Catarina | 39.441 |
| 6º | Paraná | 28.831 |
| 7º | Bahia | 22.587 |
| 8º | Pernambuco | 16.493 |
| 9º | Ceará | 13.597 |
| 10º | Goiás | 13.320 |
| 11º | Distrito Federal | 12.588 |
| 12º | Mato Grosso do Sul | 9.736 |
| 13º | Paraíba | 9.457 |
| 14º | Espírito Santo | 8.607 |
| 15º | Rio Grande do Norte | 8.339 |
| 16º | Pará | 7.770 |
| 17º | Mato Grosso | 5.556 |
| 18º | Maranhão | 5.386 |
| 19º | Sergipe | 5.206 |
| 20º | Piauí | 4.034 |
| 21º | Alagoas | 3.606 |
| 22º | Amazonas | 3.043 |
| 23º | Rondônia | 2.102 |
| 24º | Tocantins | 1.975 |
| 25º | Roraima | 1.384 |
| 26º | Acre | 1.186 |
| 27º | Amapá | 579 |
| – | TOTAL BRASIL | 546.254 |
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Saúde Única: o equilíbrio necessário entre mente, corpo e ambiente
Sob a ótica da Saúde Única, conceito que norteia os pilares do portal Vida e Ação, o aumento desses índices demonstra que o bem-estar humano não pode ser dissociado do ambiente em que o indivíduo está inserido. O local de trabalho é um ecossistema que, se tóxico, desequilibra a saúde integral do trabalhador.
A interconexão entre a saúde mental, as condições ambientais de trabalho e a estabilidade social é o que define a qualidade de vida. Ignorar os riscos psicossociais no trabalho é comprometer não apenas a produtividade, mas a saúde coletiva da sociedade.
Novas leis e o papel das empresas no Rio de Janeiro
Para tentar conter esse avanço, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) analisa o Projeto de Lei nº 6368/2025, de autoria da deputada Lilian Behring (PCdoB). A proposta obriga empresas com mais de 20 funcionários e órgãos públicos a implementarem programas de promoção da saúde mental e prevenção de transtornos psicológicos.
O estigma sobre a saúde mental precisa ser quebrado, e é obrigação do Estado criar as condições para que nossos trabalhadores se sintam amparados e cuidados. Este projeto é um passo fundamental para garantir ambientes de trabalho mais saudáveis”, afirmou a deputada estadual.
Além disso, as novas diretrizes do Ministério do Trabalho (NR-1) agora tornam obrigatória a inclusão de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos das empresas. Caso o transtorno seja comprovado como doença ocupacional (causado por assédio ou metas abusivas), o trabalhador pode ter direito a 12 meses de estabilidade após o retorno.
Onde buscar ajuda no Rio de Janeiro
Se você ou alguém que você conhece está passando por uma crise, o estado oferece diversos pontos de apoio:
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CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): A capital conta com 40 unidades para atendimento interdisciplinar gratuito.
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UPAs Estaduais: 27 unidades sob gestão estadual realizam atendimentos para crises de ansiedade e pânico.
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CEREST (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador): Unidade especializada em orientar trabalhadores sobre doenças ligadas ao ambiente laboral.
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CVV (Centro de Valorização da Vida): Apoio emocional disponível 24 horas pelo telefone 188.
Fonte: Ministério da Previdência




