Por Angie Piquet*
Em 29 de janeiro é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Trans no Brasil, uma data criada em 2004 para reafirmar o respeito e a luta pelos direitos das pessoas trans em nosso país. Mais que uma celebração, essa data é um convite à reflexão sobre os desafios enfrentados pela comunidade trans e um alerta para a urgência de garantir espaços seguros e dignos, onde todas as pessoas possam viver com liberdade e autenticidade.
A busca pela identidade é um caminho complexo, que não se restringe às pessoas trans. Desde que nascemos procuramos nos reconhecer como indivíduos e como parte de grupos — familiar, comunitário ou de amigos. Especificamente, a formação da identidade de gênero é uma tarefa particularmente desafiadora, pois envolve múltiplos fatores.
Para construir a percepção de si, cada indivíduo, de acordo com seu nível de desenvolvimento cognitivo e psicológico, precisa articular experiências pessoais com os valores e expectativas sociais e culturais, dando sentido à própria vida. Esse processo permite definir quem somos diante de nós mesmos e dos outros.
Toda essa jornada começa pela exploração de possibilidades, até alcançar uma integração de vivências, emoções e pensamentos. É um processo único, dinâmico e pessoal, que ocorre em diferentes momentos da vida.
Aceitação e apoio familiar
A aceitação, um pilar fundamental, inicia-se no próprio indivíduo trans, que precisa acolher sua verdadeira identidade e enfrentar medos internos e preconceitos internalizados. Essa caminhada é fortalecida pelo apoio afetivo, familiar e social.
Quando a família oferece amor, aceitação e acolhimento, cria um ambiente seguro que combate o medo, a rejeição e a solidão. Esse suporte é fundamental para a autoestima e o bem-estar emocional, capacitando a pessoa trans a enfrentar os desafios externos com mais confiança.
Por outro lado, a rejeição familiar é um fator de risco significativo, aumentando a vulnerabilidade à exclusão, violência doméstica, depressão e, tragicamente, ao suicídio, além de dificultar o acesso a direitos básicos como moradia e trabalho. É imprescindível que as famílias se eduquem sobre a diversidade de gênero, promovam o diálogo aberto e transformem seus lares em espaços de suporte incondicional.
Além da família, a sociedade precisa garantir respeito em todos os espaços – na escola, no trabalho, nas instituições. A inclusão deve ser prática contínua, assegurando que pessoas trans possam alinhar sua aparência, nome e documentação à sua identidade, superando obstáculos legais e a falta de acesso a profissionais especializados.
Enfrentar o estigma social e a discriminação exige mais do que coragem individual; requer de uma sociedade que reconheça e respeite a diversidade como um direito à dignidade e à liberdade.
Leia mais
Visibilidade trans faz sucesso na telinha, mas transfobia ainda persiste
Como passar pela transição de gênero de forma gratuita e segura
Visibilidade trans: luta por direitos começou pela Saúde
Nem toda mulher trans pode desejar uma ‘neovagina’
Solidão, medo da rejeição e vergonha
Solidão, medo da rejeição e vergonha são sentimentos comuns, agravados pela ausência de referências positivas e pela falta de compreensão familiar e social. O receio do preconceito e da violência transfóbica leva muitos a ocultarem sua identidade, impondo sobrecarga psicológica significativa que afeta diretamente a autoestima e a saúde mental. Viver a própria identidade em plenitude exige uma coragem imensa para superar não apenas os desafios emocionais, mas também barreira sociais e legais.
Em um polarizado, a influência das redes sociais e da mídia merece atenção. A identidade de gênero acaba sendo também expressão de ideologias e posicionamentos políticos, forçando pessoas a manter lealdades que dificultam ainda mais a jornada de autodescoberta e de integração.
O objetivo não é promover uma diversidade extrema que gere rejeição ou fragmentação social. O desafio é encontrar equilíbrio entre o reconhecimento da diversidade e a promoção da unidade social. Para isso é necessário compreender a complexidade do processo, combatendo intolerância e desinformação.
O Dia Nacional da Visibilidade Trans é um momento para reafirmar o compromisso com a igualdade, combater a discriminação e garantir que cada indivíduo possa viver de forma autêntica. A diversidade é um valor essencial, que deve caminhar junto à inclusão e à coesão social. É dever de todos nós construir uma convivência baseada no respeito mútuo, na dignidade humana e na valorização da diversidade que, em última instância, enriquece a todos.
#Doutora em psicologia e professora da Estácio




