O Transtorno Bipolar é marcado por oscilações significativas no humor, na energia e na forma como a pessoa percebe e reage ao mundo Essa doença ainda é cercada por estigmas e, muitas vezes, confundida com simples mudanças de humor. Mas diferentemente das variações emocionais comuns do dia a dia, essas mudanças podem interferir profundamente na vida pessoal, profissional e social.
O tema ganha ainda mais visibilidade neste Dia Mundial do Transtorno Bipolar (30 de março), data dedicada a aumentar a conscientização e desmistificar a condição de saúde mental que afeta milhões de pessoas globalmente.
Relatos como o de Selena Gomez, de 33 anos, que tornou público em 2020 o histórico de diagnósticos incorretos antes de compreender sua condição. A cnntora e atriz tem sido aberta sobre sua jornada de saúde mental, incluindo experiências com episódios de mania e psicose, a importância do tratamento médico adequado e a luta para aceitar a condição.
Em seu documentário “Selena Gomez: My Mind & Me” (2022), ela detalha sua luta contra a doença, incluindo momentos de “escuridão” e a necessidade de internação. Selena destacou a dificuldade com a medicação inicial, que a fazia sentir como se tivesse “ido embora”, e a importância de ajustar o tratamento com ajuda profissional.
Hoje a artista utiliza sua plataforma para desmistificar a saúde mental, focando na educação sobre a doença e no combate ao estigma, enfatizando a importância de uma rede de apoio familiar e terapia
Levar até uma década para receber o diagnóstico correto não é exceção, mas uma realidade frequente para pessoas com transtorno bipolar. O dado, recorrente em estudos internacionais, expõe uma fragilidade relevante no cuidado em saúde mental: a dificuldade de identificar precocemente uma condição que exige manejo específico e acompanhamento contínuo.
Casos como esse ajudam a ilustrar um problema estrutural, que vai além da experiência individual e aponta para lacunas na avaliação clínica. Especialistas reforçam que ampliar o conhecimento sobre a condição é um passo essencial para promover acolhimento, diagnóstico precoce e tratamentos mais eficazes.
Principal desafio é identificar corretamente os sintomas
A bipolaridade é um transtorno mental caracterizado por alterações significativas de humor, energia e comportamento. Segundo a neuropsicóloga Aline Graffiette, uma das maiores dificuldades ainda está na identificação correta dos sintomas.
Muitas pessoas acreditam que transtorno bipolar significa apenas ‘mudar muito de humor’, mas estamos falando de alterações profundas que impactam comportamento, tomada de decisão, energia e funcionamento emocional”, explica.
A especialista destaca que o transtorno costuma se manifestar por ciclos que alternam períodos de depressão com fases de euforia ou irritabilidade intensa — conhecidas como episódios de mania ou hipomania. Nessas fases, a pessoa pode apresentar impulsividade, sensação exagerada de confiança, redução da necessidade de sono e aumento de energia.
Já nos episódios depressivos, podem surgir sintomas como tristeza persistente, perda de interesse em atividades antes prazerosas, cansaço intenso e dificuldade de concentração.
De acordo com Aline, a informação é uma das principais ferramentas para reduzir o estigma e ampliar o acesso ao diagnóstico. “Quanto mais entendemos o transtorno bipolar, mais conseguimos diferenciar o que é uma oscilação natural da vida e o que pode ser um sinal de alerta para buscar ajuda profissional”, afirma.
Outro ponto importante é que o diagnóstico não significa uma limitação permanente. Com acompanhamento adequado — que pode envolver tratamento psiquiátrico, psicoterapia e estratégias de regulação emocional — muitas pessoas conseguem manter estabilidade e qualidade de vida.
Falar sobre saúde mental com responsabilidade ajuda a quebrar preconceitos e abre espaço para que mais pessoas procurem ajuda sem medo”, conclui a especialista.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 37 milhões de pessoas vivem com transtorno bipolar no mundo, o equivalente a aproximadamente 0,5% da população. Ainda assim, o número pode ser subestimado, especialmente em função de subdiagnóstico e da sobreposição com outros transtornos mentais ao longo da trajetória assistencial.
A bipolaridade é caracterizada por alterações cíclicas de humor que alternam episódios de depressão e de elevação do humor, como mania ou hipomania. Um dos principais entraves está no fato de que o transtorno bipolar frequentemente se manifesta, inicialmente, por episódios depressivos.
Sem uma investigação mais aprofundada, esses quadros tendem a ser classificados como depressão unipolar, o que direciona o paciente para abordagens terapêuticas que não contemplam a dinâmica cíclica da doença.
De acordo com Edson Kruger Batista, psiquiatra da ViV Saúde Mental e Emocional, esse desencontro diagnóstico tem impacto direto na evolução clínica. Durante esse intervalo, há prejuízos significativos no funcionamento social, ocupacional e nas relações interpessoais, além de maior risco de agravamento dos episódios.
Quando a bipolaridade não é identificada precocemente, o paciente pode permanecer por anos em tratamentos pouco efetivos. Isso prolonga o sofrimento e pode contribuir para a piora do curso da doença ao longo do tempo”, explica.
Heterogeneidade clínica exige olhar especializado
Outro fator que contribui para o subdiagnóstico é a própria complexidade do transtorno. Nem todos os pacientes apresentam episódios claros de mania, o que dificulta a identificação fora de contextos especializados. Quadros de hipomania, por exemplo, podem ser interpretados como períodos de maior energia, produtividade ou bem-estar.
Além disso, a bipolaridade abrange diferentes apresentações clínicas, como os tipos I e II, além de manifestações dentro do espectro bipolar. Essa variabilidade exige avaliação longitudinal e escuta clínica qualificada.
O diagnóstico não se baseia em um episódio isolado, mas na análise da trajetória do paciente ao longo do tempo. Sem essa reconstrução, aumenta o risco de confusão com outros transtornos, como depressão ou ansiedade”, destaca Batista.
Impacto ampliado e barreiras no acesso ao cuidado
Mesmo com impacto expressivo em saúde pública, o transtorno bipolar ainda enfrenta barreiras relacionadas ao estigma, à desinformação e ao acesso a serviços especializados. Esses fatores contribuem para que uma parcela significativa dos pacientes não receba tratamento adequado ou sequer tenha um diagnóstico estabelecido.
A consequência é um ciclo de instabilidade clínica, com impactos diretos na qualidade de vida, na produtividade e na manutenção de vínculos sociais. Diante desse cenário, especialistas reforçam que a qualificação do diagnóstico é uma das estratégias mais relevantes para melhorar os desfechos clínicos. Isso passa por ampliar o acesso a profissionais especializados, aprimorar a escuta clínica e fortalecer a disseminação de informação confiável sobre saúde mental.
Qualificação do diagnóstico como ponto central do cuidado
O tratamento do transtorno bipolar envolve abordagem contínua, com associação entre medicação, psicoterapia e monitoramento ao longo do tempo. Quando corretamente conduzido, é possível alcançar estabilidade e preservar a funcionalidade do paciente.
“O principal ganho está em reduzir o tempo até o diagnóstico correto. Esse é o ponto de inflexão que muda a trajetória do paciente”, conclui o especialista.
Neste Dia Mundial do Transtorno Bipolar, o debate avança para além da conscientização: trata-se de enfrentar um desafio estrutural da prática clínica e ampliar a capacidade de identificar precocemente uma condição ainda frequentemente subdiagnosticada.
5 sinais de alerta de bipolaridade que muitas pessoas ignoram
Segundo a neuropsicóloga Aline Graffiette, alguns sinais podem indicar que as oscilações de humor vão além de variações emocionais comuns do dia a dia. Entre os principais pontos de atenção estão:
1. Mudanças intensas de humor
Períodos alternados de grande euforia ou irritabilidade seguidos por fases de tristeza profunda ou desânimo persistente.
2. Alterações no nível de energia
Momentos de energia excessiva, sensação de produtividade extrema ou necessidade reduzida de sono, seguidos por períodos de cansaço intenso.
3. Comportamentos impulsivos
Tomada de decisões precipitadas, gastos excessivos, atitudes de risco ou comportamentos fora do padrão habitual.
4. Dificuldade de concentração e organização
Oscilações cognitivas que podem afetar a capacidade de foco, planejamento e tomada de decisões.
5. Impacto nas relações e na rotina
Quando as mudanças de humor começam a interferir no trabalho, nos relacionamentos ou na qualidade de vida.
A especialista reforça que a presença desses sinais não significa necessariamente um diagnóstico, mas indica a importância de buscar avaliação profissional. “Quanto mais cedo identificamos o que está acontecendo, maiores são as chances de desenvolver estratégias de cuidado e promover qualidade de vida”, explica.
Com Assessorias






