O avanço da obesidade no Brasil passou a ocupar lugar central no debate sobre saúde pública após dados divulgados pelo Ministério da Saúde revelarem crescimento de 118% entre 2006 e 2024. Estudos internacionais indicam que entre 4% e 6% dos casos da doença podem ser atribuídos ao excesso de peso.

Reconhecida pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) como fator de risco para ao menos 13 tipos de câncer (entre eles os de mama pós-menopausa, colorretal, endométrio, fígado, rim e pâncreas), a obesidade está associada tanto ao aumento da incidência quanto à piora dos desfechos clínicos.

A alimentação é um dos pontos que explicam o atual cenário. O crescimento da obesidade está diretamente ligado às mudanças no padrão alimentar da população. Pesquisas recentes reforçam a associação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o risco de câncer.

Uma meta-análise publicada em 2023 identificou que cada aumento de 10% no consumo desses produtos está associado a um crescimento considerável no risco da doença, especialmente os cânceres de mama e colorretal. Resultados semelhantes foram observados em grandes estudos de coorte, como o NutriNet-Santé, que desde 2009 acompanha mais de 100 mil participantes na França.

Entre os mecanismos biológicos sugeridos estão inflamação crônica, resistência à insulina e alterações na microbiota intestinal, processos que podem ser favorecidos por dietas ricas em produtos ultraprocessados e contribuem para um ambiente metabólico mais propício ao desenvolvimento e progressão tumoral.

De acordo com Antônio Cavaleiro, coordenador da linha oncológica do Hospital Santa Catarina – Paulista,  o excesso de peso, aliado ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, contribui de forma significativa para a elevação dos casos e da mortalidade por câncer.

A maior disponibilidade e o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em carboidratos e pobres em nutrientes, contribuem diretamente para o aumento da obesidade e, consequentemente, do risco oncológico. Por isso, atuar na promoção de hábitos saudáveis é fundamental para reduzir a mortalidade por câncer e melhorar os desfechos clínicos, especialmente em uma população cada vez mais longeva”, concluí o oncologista.

Envelhecimento amplia o impacto

Embora a obesidade seja um fator modificável, ela se soma a um componente estrutural importante: o envelhecimento da população. Dados da IARC indicam que o número global de novos casos de câncer pode crescer cerca de 77% até 2050, impulsionado principalmente pela transição demográfica. Isso ocorre porque a incidência e a mortalidade por câncer aumentam de forma expressiva com a idade. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam mais de 700 mil novos casos por ano, com maior concentração entre pessoas acima dos 60 anos.

O câncer é, em grande medida, uma doença relacionada ao envelhecimento. O crescimento do número absoluto de mortes por câncer reflete, em grande parte, o envelhecimento populacional, mas também a melhora no registro e no diagnóstico da doença”, explica o Dr. Cavaleiro.

Na prática clínica, o reflexo do peso vai além da incidência. Pacientes com obesidade frequentemente apresentam inflamação crônica, alterações hormonais e maior risco de complicações durante o tratamento oncológico, o que exige uma abordagem ainda mais integrada e personalizada. “O sucesso do plano terapêutico requer um olhar atento para essa condição, desde o diagnóstico até o acompanhamento”, completa.

 

 

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *