No mês dedicado às mulheres, um novo alerta surge sobre uma fase natural da vida biológica feminina, mas que ainda é tratada com invisibilidade pelo poder público: a menopausa. Esta fase natural na vida da mulher deixou de ser apenas uma questão de saúde para se tornar um gargalo econômico e social invisibilizado.

Um estudo detalhado do Instituto Esfera, lançado em Brasília nesta terça-feira (3), revela que o país ignora as necessidades de 29 milhões de mulheres na menopausa. Embora quase 88% apresentem sintomas, apenas 22,4% buscam tratamento. Globalmente, o custo da falta de assistência chega a US$ 150 bilhões por ano; no Brasil, a falta de dados estruturados impede um cálculo exato, mas o impacto na cidadania de milhões de mulheres é concreto.

Peso da menopausa é maior nas mulheres negras

O documento alerta que a falta de políticas públicas estruturadas não é neutra e o impacto desse período não é uniforme, atingindo com muito mais severidade as mulheres negras e aquelas em situação de vulnerabilidade social. A menopausa empurra as mulheres para o desemprego, sobrecarrega a Previdência e aprofunda o racismo estrutural, já que o impacto biológico e social é severamente maior sobre as mulheres negras.

De acordo com a pesquisadora Clarita Costa Maia, uma das autoras do trabalho em conjunto com a médica Fabiane Berta de Sousa, existe um cruzamento de fatores biológicos e sociais que sobrecarrega a mulher negra. O cenário é crítico para as mulheres negras, que frequentemente são os arrimos de suas famílias e líderes comunitárias.

“São mulheres que sentem a menopausa com mais peso”, explicou ela à Agência Brasil. A combinação de sintomas não tratados com a precariedade do trabalho gera uma “insustentabilidade da relação profissional”,  destacando que muitas delas são arrimos de família , ficando em posição de extrema fragilidade no mercado de trabalho quando os sintomas não são tratados.

Impactos na saúde mental e na economia

Além disso, o estudo aponta riscos graves à saúde a longo prazo: a falta de assistência aumenta significativamente as chances de desenvolvimento de Alzheimer e depressão, além de potencializar o fenômeno da menopausa precoce, acelerada pelo modo de vida atual.

O estudo aponta que a ausência de tratamento adequado para os sintomas físicos e psicológicos da menopausa pode levar a consequências graves, como:

  • Aumento significativo nas chances de desenvolvimento de Alzheimer e depressão.

  • Rupturas em relacionamentos pessoais e profissionais por falta de compreensão do processo biológico.

  • Queda de produtividade e maior pressão sobre a Previdência Social.

Os números que o Brasil não pode ignorar

A pesquisa, detalhada pelas especialistas, traz dados que expõem a urgência de um mapeamento nacional:

  • Público afetado: 29 milhões de brasileiras estão na fase da menopausa.

  • Sintomas: 87,9% delas sentem os efeitos da menopausa, apresentando sinais físicos ou psicológicos.

  • Acesso a tratamento: 77,6% estão desassistidas (não buscam/não recebem tratamento).

  • Impacto na renda: Dados globais indicam uma queda de 10% nos rendimentos das mulheres afetadas pela falta de suporte nesta fase.

  • Prejuízo global: A negligência com a menopausa custa **US$ 150 bilhões por ano** à economia mundial (nos EUA, o custo é de US$ 26,6 bilhões anuais).

O silêncio que custa caro

Atualmente, em vez de o mercado contar com trabalhadoras em sua melhor fase intelectual, o país assiste a um aumento de pedidos de afastamento e pressão previdenciária por causas que poderiam ser mitigadas com informação e reposição adequada. O documento reforça que tratar a menopausa no SUS e nas empresas não é “patologizar o envelhecimento”, mas garantir produtividade e cidadania.

Tratar a menopausa como política pública não significa “patologizar” o envelhecimento feminino, mas reconhecê-lo como etapa legítima do ciclo de vida que demanda cuidado, informação e proteção institucional”, afirma o documento do Instituto Esfera.

Resposta governamental

Presente no lançamento do estudo, a secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, confirmou que o tema está ganhando força na agenda governamental e da sociedade civil. E reconheceu a necessidade de maior atenção à prevenção no envelhecimento.

Ela destacou que um fórum de mulheres criado recentemente pela pasta teve o grupo de mulheres na menopausa como um dos mais ativos, sinalizando que a demanda por direitos e saúde integral está ganhando voz nos corredores do poder.

O impacto ambiental

Fatores ambientais e o modo de vida contemporâneo — que inclui estresse urbano, alimentação e exposição a poluentes — têm contribuído para fenômenos como a menopausa precoce.

Ao negligenciar políticas públicas para este grupo, o Estado falha em proteger a saúde humana em sua totalidade, gerando um efeito dominó que sobrecarrega o sistema previdenciário e desestabiliza o núcleo familiar, que é a base da organização social.

Com informações da Agência Brasil

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