O ano de 2025 entrou para a história como o terceiro mais quente do planeta, mas para milhares de mineiros, o verão de 2025 será lembrado como o ano da lama e do luto.  Em Minas Gerais, a conta da crise climática chegou com força total. O estado possui hoje o maior número de municípios em situação crítica no país: das 853 cidades mineiras, 306 estão sob ameaça constante de deslizamentos e inundações. Isso coloca 1,5 milhão de vidas em risco direto toda vez que as nuvens carregadas avançam sobre as montanhas.

Além dos fatores naturais, especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a negligência política agrava as tragédias. Em Minas Gerais, por exemplo, o orçamento destinado à Defesa Civil sofreu cortes drásticos nos últimos anos. A falta de planejamento urbano também empurra populações vulneráveis para áreas de risco, controladas pelo capital imobiliário.

Para o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o cenário é de “negligência deliberada”. A ocupação de áreas de risco por populações pobres não é uma escolha, mas uma consequência do mercado imobiliário que empurra os mais vulneráveis para as encostas. Sem investimento em contenção e drenagem, o resultado é o que vimos em Juiz de Fora: uma cidade que recebeu em apenas 24 horas quase toda a chuva esperada para o mês.

Toda essa onda negacionista relacionada às mudanças climáticas reverbera agora em desastres como esses. A pauta climática não é um entrave ao desenvolvimento, mas uma condição para a sobrevivência”, diz o especialista, completando  que a prevenção exige políticas públicas integradas.

Sudeste concentra 43% dos desastres hidrológicos

Aquecimento global e desastres climáticos: os desafios para o Brasil após o terceiro ano mais quente da história

O planeta confirmou uma tendência alarmante: 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, com a temperatura média global atingindo 1,47 °C acima dos níveis pré-industriais. O Brasil sentiu o golpe em forma de desastres: 336.656 pessoas afetadas e um prejuízo de R$ 3,9 bilhões, segundo o relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

O Cemaden alerta que o número de desastres climáticos no Brasil cresceu 222% desde a década de 1990. O relatório aponta que o Brasil registrou 1.493 eventos hidrológicos em 2025, incluindo secas intensas, enxurradas e deslizamentos de terra. A região Sudeste foi a mais atingida, concentrando 43% das ocorrências.  O estudo utiliza informações de órgãos internacionais de prestígio, como o serviço europeu Copernicus, e acende um alerta sobre a vulnerabilidade do território brasileiro diante da crise climática.

O meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, explica que o aquecimento do Oceano Atlântico é um dos grandes vilões. Com águas até 3 °C acima da média histórica em alguns pontos da costa brasileira, há uma evaporação maior, lançando volumes massivos de umidade na atmosfera. O resultado é a transformação desse vapor em chuvas torrenciais e destrutivas ao encontrar frentes frias ou áreas de montanha.

Cidades resilientes: soluções e perspectivas para o futuro

Para enfrentar esse cenário, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação defende o investimento em monitoramento contínuo e a adaptação das cidades. Entre as soluções propostas por especialistas em engenharia e hidrologia estão:

  • Adoção de “pôlderes”: muros de isolamento com sistemas de bombas para drenagem controlada.

  • Criação de parques inundáveis: áreas verdes que ajudam na absorção da água, reduzindo o escoamento superficial.

  • Treinamento comunitário: capacitar moradores de áreas de risco para rotas de fuga rápidas, inspirando-se no modelo japonês.

Cidades resilientes ou cidades submersas?

O meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, é enfático: o Brasil registrou um aumento de 222% nos desastres climáticos desde a década de 90. A adaptação não é mais uma opção, é sobrevivência.

  • Soluções de Engenharia: Especialistas da UFRJ sugerem a implementação de “pôlderes” (técnica holandesa de drenagem) e parques inundáveis para permitir que a terra respire e absorva o excesso de água.

  • Gestão Pública: O governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção em Juiz de Fora via Novo PAC, mas até o momento, menos de 5% desse valor foi efetivamente liberado.

A ciência é clara: o mar está mais quente, a atmosfera está mais úmida e a política brasileira continua ignorando os alertas. Enquanto a pauta climática for tratada como entrave econômico e não como prioridade de saúde e segurança, o cenário de 2026 tende a ser ainda mais desafiador.

Saúde Única: o equilíbrio rompido pela febre do planeta

O cenário descrito pelo Cemaden reforça a urgência da abordagem de Saúde Única (One Health). O conceito reconhece que a saúde das pessoas está intrinsecamente ligada à saúde dos animais e ao equilíbrio do meio ambiente. O aquecimento do Oceano Atlântico (que chegou a registrar 3 °C acima da média na costa brasileira) altera o regime de chuvas e favorece a proliferação de doenças.

Eventos climáticos extremos, como as secas que atingiram 100% do território de estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo em novembro passado, desequilibram ecossistemas inteiros. Esse desequilíbrio facilita a propagação de zoonoses (doenças transmitidas entre animais e humanos), compromete a segurança alimentar e agrava problemas respiratórios e cardiovasculares devido às ondas de calor e incêndios.

Proteger a saúde humana em 2026 e nos anos seguintes exige, obrigatoriamente, a preservação ambiental e a mitigação dos efeitos do aquecimento global. No Vida e Ação, reforçamos que esses eventos não são isolados. Eles estão profundamente conectados ao conceito de Saúde Única (One Health). Quando negligenciamos as mudanças climáticas, quebramos o elo entre saúde ambiental, animal e humana.

A destruição da vegetação nativa interrompe os “rios voadores” da Amazônia, criando um ciclo vicioso de secas extremas e tempestades severas. Sem um ambiente equilibrado, a saúde da população é a primeira a colapsar, seja por desastres físicos, surtos de zoonoses ou crises de saúde mental pós-catástrofe.

Com informações da Agência Brasil

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