O Dia Internacional da Mulher de 2026 não foi apenas de celebração, mas de forte protesto e denúncia. O domingo foi marcado por mobilizações intensas em diversas capitais brasileiras. Os protestos reforçam que, para além da celebração, o 8 de março permanece como uma data de resistência e exigência por sobrevivência.
Capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador, Manaus e Porto Alegre registraram atos expressivos. Mesmo sob chuva em algumas regiões, o movimento ocupou vias principais e promoveu intervenções artísticas em memória das vítimas de violência.

O movimento nacional reforçou os dados da Rede de Observatórios da Segurança, que apontam que 12 mulheres foram vítimas de violência a cada 24 horas no último ano, reafirmando que a luta por direitos é uma questão de sobrevivência. Conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.
Sob o lema de combate à violência de gênero, as manifestações uniram pautas históricas, como o fim do feminicídio e as novas demandas trabalhistas, com destaque para a extinção da escala 6×1. Para os movimentos sindicais e sociais, como a CUT e o MST, a redução da jornada de trabalho é uma pauta de gênero, uma vez que as mulheres frequentemente enfrentam duplas ou triplas jornadas de cuidado doméstico.
“Juntas somos gigantes”: mulheres marcham contra o feminicídio no 8M
No Rio de Janeiro, as manifestantes ocuparam a Avenida Atlântica, em Copacabana, em uma marcha marcada pelo clamor por segurança e orçamento para políticas de igualdade. O ato ocorreu em meio à comoção diante do estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos que chocou a cidade na última semana, trazendo um tom de urgência às reivindicações.
O ato fluminense reforçou a necessidade de igualdade e segurança, ecoando vozes de diversos coletivos que pedem o fim da impunidade. As manifestantes entoaram paródias pedindo o direito de “andar sem medo nas ruas” e “ficar sem medo em casa”.
Uma das performances mais impactantes foi realizada por um grupo de artistas em pernas de pau (pernaltas), que deitaram no chão simulando as vítimas de feminicídio, levantando-se logo em seguida ao grito de “Todas vivas!”.
Embora o combate à violência tenha sido o eixo central — em um contexto onde o Rio registra uma agressão a cada 36 minutos —, o manifesto lido no carro de som na Praia de Copacabana abraçou demandas estruturais:
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Mundo do trabalho: Defesa do fim da escala 6×1 e aumento das licenças-maternidade e paternidade.
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Educação inclusiva: Criação de espaços para crianças com deficiência ou neurodivergentes.
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Economia: Linhas de crédito específicas para mulheres empreendedoras.
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União de gerações e o papel dos homens
A marcha no Rio de Janeiro reuniu desde militantes históricas da década de 80 até crianças pequenas, como a pequena Amara, de 7 anos, que carregava o cartaz “Lute como uma menina”. A presença de pais com seus filhos, como Thiago Martins e o pequeno Miguel, de 9 anos, também foi destacada pelas organizadoras como parte essencial da desconstrução do machismo geracional.
A cultura misógina é geracional. É ótimo conscientizar adultos, mas precisamos de apoio dos governos para mudar essa cultura desde as crianças”, defendeu a manifestante Rita de Cássia Silva em entrevista à Agência Brasil.
‘Parem de nos matar’, cobra mobilização em São Paulo

Simultaneamente, em São Paulo, milhares de mulheres percorreram o trajeto entre a Avenida Paulista e a Praça Roosevelt. Na capital paulista, o recorde de 270 feminicídios em 2025 — uma alta de 96,4% em comparação a 2021 — foi o combustível para as críticas à falta de orçamento público.
Não basta só pacto, palavras, nota de apoio, a gente quer orçamento público e medidas efetivas”, afirmou a coordenadora do Levante Mulheres Vivas, Alice Ferreira, referindo-se ao Pacto Nacional contra o Feminicídio, recém-lançado.
Segundo ela, o ato também pretende reforçar a importância da aprovação de um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que pretende tipificar a misoginia, que é conduta de ódio contra as mulheres, como crime.
Enquanto o discurso feminista é boicotado pelas big techs, o discurso red pill [movimento de homens que usam a internet para promover discursos misóginos] é impulsionado. Então, criminalizar é o primeiro passo para começarmos a reverter essa lógica”, disse Alice.
Durante o ato na Avenida Paulista, as mulheres também fizeram algumas intervenções independentes em homenagem ás mulheres que tiveram suas vidas interrompidas. Em uma delas, posicionaram diversos sapatos femininos pela avenida, representando vítimas de feminicídio do país. Outra instalação com bonecas em frente ao Fórum Pedro Lessa remetia à violência contra as meninas, vítimas de misoginia e estupro de vulnerável.

As crianças que também sofrem com toda essa misoginia, inclusive por conta do escândalo da quase legalização da pedofilia no judiciário”, ressaltou Alice Ferreira, se referindo ao caso de um desembargador que absolveu homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos em Minas Gerais.
Brasília foca em orçamento e críticas ao governo local
Na capital federal, o protesto percorreu o trajeto entre a Funarte e o Palácio do Buriti. Além das faixas com os dizeres “Parem de nos Matar”, as manifestantes em Brasília direcionaram críticas à gestão de Ibaneis Rocha (MDB). A denúncia principal envolve a falta de recursos para políticas de proteção, agravada por polêmicas financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
Com 88 anos completados no sábado (7), a histórica militante do movimento de mulheres negras Lydia Garcia foi à manifestação, mesmo com risco de chuva. Professora de música aposentada do Coletivo Mulheres Negras Baobá, ela é mãe de cinco filhos, tem 11 netos, três bisnetos, e é pioneira da capital federal.
Nós mulheres, principalmente as mulheres negras, estamos impondo a este mundo e a este Brasil a nossa força, as nossas lutas e vitórias por dias melhores contra a violência dos jovens negros, contra o feminicídio”, disse Lydia.

A artista plástica Daniela Iguizzi, de 55 anos, levou consigo a obra Medo retratando um revólver apontado contra uma mulher. “A mulher não tem um minuto de paz. Ela não tem sossego no seu lar. Ela não tem sossego no seu trabalho. Em todos os lugares nós podemos ser assediadas, podemos ser assassinadas. Por isso, o nome dessa obra é medo. Medo é o que toda mulher brasileira sente”, disse à Agência Brasil.

A ativista Jolúzia Batista, da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), destacou que a perda de qualidade nos serviços e nas campanhas educativas é reflexo do desvio de finalidade de orçamentos públicos. Por outro lado, o movimento celebrou os dez anos da Marcha Unificada na cidade, pontuando avanços no debate social sobre assédio e o aumento no número de delegacias especializadas.
Outros atos pelo país
Pelo Brasil, outras cidades também registraram atos potentes:
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Belo Horizonte (MG): Uma instalação com 160 cruzes na Praça da Liberdade homenageou vítimas de feminicídio no estado entre 2025 e 2026.
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Salvador (BA): O protesto caminhou do Morro do Cristo ao Farol da Barra, defendendo o “Bem Viver” e a soberania.
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Belém (PA): Centenas de mulheres marcharam pelo Centro da capital paraense pedindo o combate à violência vicária e proteção às mulheres da Amazônia.
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Porto Alegre (RS): Uma performance com sapatos manchados de tinta vermelha simbolizou o rastro de sangue deixado pela violência de gênero no Rio Grande do Sul.
‘Não podemos nos conformar com homens matando mulheres’, diz Lula
Em rede nacional, presidente reforça combate ao feminicídio e diz que governo “vai meter a colher” contra a violência
Na véspera das mobilizações que tomaram o país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento oficial em cadeia de rádio e televisão na noite de sábado (7). Com um tom de urgência, Lula centrou seu discurso no recorde de feminicídios registrados em 2025, quando a média chegou a quatro mulheres mortas por dia no Brasil.
O presidente destacou que a severidade das leis — com penas que agora chegam a 40 anos de prisão — ainda não foi suficiente para deter a violência doméstica. “A cada seis horas, um homem mata uma mulher no Brasil. Não podemos nos conformar“, declarou, enfatizando que a maioria das agressões ocorre dentro de casa.
Enfrentamento ao crime e ações do governo
Para combater a impunidade, o presidente anunciou medidas imediatas dentro do Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio:
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Mutirão de prisões: Uma ação do Ministério da Justiça, em parceria com estados, para prender mais de 5 mil agressores. Lula foi enfático: “Outras operações virão”.
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Intervenção coletiva: Ao contrário do ditado popular, o presidente afirmou que, em casos de violência contra a mulher, o Estado e a sociedade devem, sim, “meter a colher”.
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Ações sociais: Foram listados programas que impactam diretamente a economia das mulheres, como o Gás do Povo, o programa de distribuição gratuita de absorventes e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
Confira a íntegra do discurso do presidente Lula sobre o Dia da Mulher
Apoio à pauta trabalhista e proteção digital
Alinhado aos gritos ouvidos nas ruas neste 8 de março, Lula classificou o fim da escala 6×1 como uma “pauta da mulher brasileira”. O presidente argumentou que a mudança é essencial para combater a exaustão da jornada dupla e garantir tempo para lazer, estudo e convívio familiar.
Lula também trouxe uma novidade para o campo da segurança pública e familiar: a entrada em vigor do ECA Digital no dia 17 de março. O novo Estatuto da Criança e do Adolescente obriga plataformas de tecnologia a prevenirem riscos, incluindo o combate ao assédio online e à exploração sexual. “O Brasil que queremos não é um país onde as mulheres apenas sobrevivam. É um país onde elas possam viver em segurança e prosperar”, concluiu.
Com informações da Agência Brasil








