No cenário global, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), apenas 33,3% da força de trabalho global em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é composta por mulheres. Em todo o mundo, existe uma mulher cientista para cada três homens. Na pesquisa médica, a proporção é ainda mais desigual: uma mulher para cada quatro homens empregados em áreas científicas.
No dia 11 de fevereiro, o mundo celebra o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015 para reconhecer o papel fundamental das mulheres no avanço científico e chamar atenção para a necessidade de ampliar a participação feminina em áreas estratégicas como pesquisa, inovação e tecnologia.
O objetivo é reforçar a importância da equidade de gênero na produção do conhecimento e na formação de novas pesquisadoras e busca incentivar meninas e mulheres a ingressarem e permanecerem nas áreas científicas. Apesar do avanço, a desigualdade de gênero ainda se mantém em áreas como engenharia, tecnologia e física, além de cargos de liderança acadêmica e científica.
Debate sobre desigualdade em financiamento e liderança
Cenário revela barreiras estruturais que limitam visibilidade, financiamento e progressão de carreira para mulheres
A celebração chama atenção para um paradoxo persistente no ambiente acadêmico e científico: embora as mulheres avancem em escolaridade e já representem a maioria entre doutores no Brasil, elas continuam sub-representadas em cargos de liderança, financiamento e reconhecimento científico.
As mulheres conquistaram espaço na pós-graduação e hoje lideram em titulação e desempenho acadêmico. Mesmo assim, seguem distantes das posições de comando e dos principais mecanismos de fomento à pesquisa.
Segundo levantamento da Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR), apenas 5% dos cargos de liderança acadêmica no país são ocupados por mulheres. Mesmo na área de reprodução assistida, historicamente marcada pela presença feminina, os cargos de liderança e gestão continuam sendo predominantemente masculinos.
Hoje há um número expressivo de mulheres com certificação em reprodução humana no Brasil, mas poucas em posições estratégicas. Essa desigualdade é silenciosa, porém profunda, e precisa ser enfrentada com políticas afirmativas, mentorias e visibilidade institucional”, observa a Profa. Dra. Marise Samama, presidente da AMCR e doutora em Reprodução Humana pela Université de Paris.
Espaço no acesso a bolsas de estudo e cargos de liderança
No Brasil, dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) indicam que as mulheres representam cerca de 43,7% dos pesquisadores, um dos percentuais mais elevados da América Latina.
Embora elas sejam maioria entre os bolsistas de mestrado (54%) e doutorado (53%) do CNPq, a presença feminina diminui nos níveis mais altos da carreira, sendo que apenas 35,5% das bolsas de produtividade (destinadas a pesquisadores com maior destaque acadêmico) são concedidas a mulheres.
Apesar da evolução observada nas últimas décadas, as disparidades em financiamento e visibilidade acadêmica permanecem. De acordo com o CNPq, em 2022 houve R$ 10 milhões a mais em bolsas concedidas a homens do que a mulheres, mesmo entre pesquisadoras de nível equivalente.
Um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour confirma a desigualdade estrutural: cientistas mulheres são 40% menos propensas a serem mencionadas como autoras principais em trabalhos científicos e 30% menos citadas do que seus colegas homens, mesmo quando têm o mesmo nível de contribuição. Na prática médica, a diferença também se reflete em salários 30% a 40% menores e sub-representação em cargos de decisão.
Impactos da desigualdade de gênero na qualidade das pesquisas
A AMCR alerta que esse desequilíbrio impacta o tipo de pesquisa conduzida, o modo como o paciente é atendido e até a formulação de políticas públicas de saúde reprodutiva. As mulheres também permanecem minoria em publicações de alto impacto, autoria principal e concessões de bolsas e prêmios.
Existe uma ilusão de igualdade que não corresponde à realidade dos números. As mulheres continuam subfinanciadas, subvalorizadas e menos citadas em publicações de alto impacto. A desigualdade não está mais no acesso à formação, mas no acesso ao poder e ao reconhecimento”, afirma a
Para a Dra. Samama, o problema é sistêmico. “O preconceito de gênero na ciência não é explícito, mas está embutido na cultura das instituições. Homens são mais indicados para liderar projetos, são mais lembrados para palestras e ocupam mais espaços em conselhos e bancas. Isso cria um ciclo de invisibilidade feminina que se retroalimenta”, destaca.
85% das médicas já sofreram assédio moral ou sexual
Outro aspecto preocupante é o ambiente de trabalho. De acordo com o artigo elaborado por um grupo de médicas latino-americanas, do qual a presidente da AMCR faz parte, 85% das mulheres em cargos de liderança na medicina relataram episódios de assédio moral ou sexual ao longo da carreira. O estudo aponta que a falta de políticas de prevenção e canais de denúncia eficazes é um dos principais motivos da evasão feminina de áreas científicas de alta competitividade.
A desigualdade também afeta a inovação. Um relatório da Royal Society destaca que a diversidade de gênero aumenta a produtividade e a criatividade científica, especialmente em campos de pesquisa ligados à saúde e comportamento humano.
Quando apenas um gênero domina a produção de conhecimento, a ciência perde profundidade. Precisamos de olhares diferentes para entender problemas complexos, como a infertilidade, a saúde hormonal e as doenças reprodutivas”, reforça Samama.
A presidente da AMCR reforça que, além de equidade, o tema envolve qualidade científica. “Diversidade de gênero é um indicador de excelência, não apenas de justiça. Incluir mulheres nas decisões científicas melhora os resultados, amplia a ética do cuidado e torna a ciência mais humana e eficiente”, conclui.
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Sobre a AMCR
A AMCR – Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil – é uma organização composta exclusivamente por mulheres, pós-graduadas na área da saúde e reprodução humana, que compartilham o mesmo propósito: disseminar o conhecimento científico em ginecologia e reprodução humana por meio de uma comunicação clara e acessível a todas as mulheres.
A entidade também atua na defesa da igualdade de oportunidades entre gêneros e na valorização da atuação feminina na ciência voltada à saúde da mulher. Fundada em março de 2021 pela Prof. Dra. Marise Samama, a associação conta hoje com 50 integrantes, distribuídas por todas as regiões do Brasil. Para mais informações, acesse o site.
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