Não foram os adolescentes que mudaram, o que mudou foi o mundo. O Brasil não vive apenas um salto tecnológico, mas, sim, uma “mutação civilizacional”, expressão da filósofa Marilena Chauí. Essa é a principal conclusão de um estudo inédito conduzido pelo LAB Humanidades, unidade de estudos de comportamento da AlmapBBDO, sobre o comportamento, os dilemas e os desafios de ser adolescente no século 21.

O levantamento expõe os gaps geracionais, a crise de saúde mental, os paradoxos do consumo e a hiperconectividade das famílias. Os dados apontam um colapso emocional na geração Z: enquanto 40% dos adolescentes já pensaram em tirar a própria vida, 58% relatam crises de ansiedade/pânico. O estudo expõe o peso do gênero: 82% das meninas afirmam ter menos liberdade do que os meninos e 76% se sentem cobradas como adultas, mas tratadas como crianças.

Para traçar esse retrato fiel, a pesquisa ouviu, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, 2.800 pessoas em todo o país, dividindo a amostra para confrontar perspectivas: foram 1.600 adolescentes (13 a 17 anos) e 1.200 adultos (18+), incluindo pais e mães. Realizado em parceria com a Netflix, o levantamento contou com a execução quantitativa do Instituto Locomotiva e qualitativa da MindSharing.

A “dor silenciosa” e a sociedade da performance

O estudo revela um cenário de vulnerabilidade latente. A saúde mental é a área da vida avaliada de forma mais negativa pelos jovens. A “sociedade da performance” transformou o ato de sonhar em ansiedade por metas: o maior medo dessa geração é não ter estabilidade financeira (83%). Consequentemente, 61% dizem que a pressão para ter sucesso gera ansiedade.

Os sintomas dessa pressão são alarmantes: 78% já enfrentaram mudanças bruscas de humor e 58% relatam crises de ansiedade e/ou pânico. No limite dessa dor silenciosa, 37% já tentaram se machucar propositalmente e 40% já pensaram em tirar a própria vida.

Nesse vácuo, 12% dos adolescentes recorrem à internet, incluindo ferramentas como o ChatGPT, em busca de orientação sobre o que fazer para lidar com problemas emocionais, número superior aos 10% que fazem terapia com profissionais.

O gap de escuta e o cadeado virtual

Apesar de 98% dos adolescentes afirmarem amar seus pais, a comunicação dentro de casa apresenta falhas profundas. Existe uma assimetria na percepção da relação: enquanto 94% dos pais acham o convívio ótimo ou bom, apenas 75% dos adolescentes concordam.

Além disso, 30% consideram que a relação com os pais piorou com a adolescência. O abismo se reflete na validação emocional, já que 68% dos adolescentes sentem que suas emoções não são levadas a sério pelos adultos.

Hiperconectividade atravessa gerações

O levantamento também desmistifica a ideia de que o vício em tecnologia é exclusivo da juventude, mostrando uma hiperconectividade transgeracional: 85% do lazer do adolescente é online, número muito próximo aos 81% do lazer adulto. Na prática, os adultos que são pais de adolescentes usam mais redes sociais (66%) e veem mais séries (53%) que os adolescentes.

O alerta do estudo fica para a proteção: entre os principais motivos para impor limites aos adolescentes, os pais citam mais a segurança física, como o medo da violência (24%), subestimando os riscos digitais (12%), deixando a “porta digital” aberta para ameaças como o cyberbullying, já sofrido por 18% dos jovens.

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O peso do gênero e as dores das meninas

A pesquisa aponta que a adolescência no Brasil é vivida de forma desigual entre os gêneros, o que afeta de maneira direta e mais severa a saúde mental feminina. O levantamento revela que 82% das meninas afirmam ter menos liberdade do que os meninos.

Nas iniciações afetivas, elas enfrentam uma barreira moral imposta pelas próprias famílias: enquanto o primeiro beijo até os 14 anos é aceito para 40% dos meninos, apenas 20% das garotas têm a mesma validação. Esse cenário de restrições cotidianas é agravado por uma cobrança desproporcional, já que 76% delas sentem que “são cobradas como adultas, mas tratadas como crianças”.

Essa disparidade cobra um preço emocional altíssimo: a sensação de que seus sentimentos são invalidados atinge 75% das jovens, e 68% delas relatam sofrer de ansiedade gerada pela pressão de ter sucesso, evidenciando uma maior fragilidade das meninas para lidar com as exigências da sociedade atual.

O adolescente como coautor e consumidor

No papel de consumidores, o recado dessa geração para o mercado é direto: eles não querem ser apenas audiência, exigem ser coautores do que consomem. O estudo expõe um erro de cálculo da publicidade, mostrando que 63% dos adolescentes não se sentem representados pelas campanhas atuais.

Eles identificam de longe o discurso ensaiado, exigem narrativas genuínas (64%) e confiam mais na indicação de amigos (57%) do que em anúncios tradicionais.

Com baixa autonomia financeira — já que apenas 35% recebem mesada regular —, eles vivem o paradoxo de cobrar sustentabilidade enquanto gastam o dinheiro que têm prioritariamente com roupas e acessórios (56%), além de comida e bebida (46%).

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Outro mundo. Novas referências

No que diz respeito a personalidades e conteúdos que fazem parte do repertório cultural e, consequentemente, são mais familiares aos adolescentes, nomes do universo dos games e do entretenimento oriental, como o streamer Nobru (86%), o grupo de K-pop BTS (77%) e a série Round 6 (95%), são os mais conhecidos entre eles. No caso dos adultos, esses números baixam para 53%, 57% e 79%, respectivamente.

O entretenimento como idioma afetivo

No meio de tantos conflitos, o entretenimento surge como uma ponte entre as gerações. Onde a palavra falha, o conteúdo assistido em conjunto constrói a conexão. Assistir a séries e filmes é a segunda atividade de tempo livre mais desejada por todos os públicos.

O streaming prova ser muito mais do que escapismo, funcionando como um idioma afetivo familiar: 56% dos pais assistem a conteúdos com os filhos, e 94% deles acreditam que isso cria conexões e memórias. Essa aproximação não é percebida apenas pelos adultos: 57% dos adolescentes também afirmam assistir a conteúdos em família, reforçando o papel do entretenimento como um espaço de encontro dentro de casa.

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O que dizem os parceiros envolvidos na pesquisa

De acordo com Rita Almeida (foto acima), líder do Lab Humanidades, da AlmapBBDO, o s adolescentes de 2026 foram socializados em um cenário de insegurança política, econômica e emocional, e desenvolveram uma percepção de mundo baseada na impermanência.

Para entender os adolescentes, o estudo buscou compreender um estado de mundo: o momento em que os futuros consumidores e criadores de cultura estão formando suas referências, afetos, crenças e sonhos, em um mundo estruturado pela incerteza.”

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, os números refletem um sintoma social que exige atenção. “A pesquisa traduz em dados uma realidade silenciosa. Quando vemos que a grande maioria dos pais acredita que os filhos são felizes e que a relação é ótima, mas os jovens relatam invalidação emocional e uma sensação crescente de distância dentro de casa, fica claro que as famílias brasileiras precisam construir novas pontes de diálogo para além do afeto básico.”, avalia.

Segundo Leo Khede, diretor da Netflix para América Latina, o entretenimento ocupa hoje um papel central na vida dos adolescentes — é onde eles processam emoções, constroem identidade e se conectam com o mundo ao seu redor.

Entender essa audiência passa por observar não apenas o que eles assistem e consomem, mas o tempo de qualidade com a família e o significado que atribuem às suas histórias favoritas. Esse estudo reforça o poder do conteúdo como um espaço de conexão real, capaz de aproximar gerações e gerar relevância cultural.”, reflete.

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Confira alguns números do estudo

  • Descrença: apenas 21% dos adultos acreditam no potencial dos adolescentes para criar um futuro muito positivo.
  • “Dr. GPT”: 12% dos jovens recorrem à internet, como o ChatGPT, para buscar orientação emocional, superando os 10% que fazem terapia com profissionais.
  • Paradoxo do consumo: jovens cobram autenticidade, mas gastam seu dinheiro prioritariamente com roupas e acessórios (56%) e fast food (46%).
  • Conexão pelo streaming: onde o diálogo falha, a tela une; 94% dos pais sentem que assistir a séries e filmes com os filhos cria memórias.

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SOBRE A METODOLOGIA
O estudo “Adolescência” realizou uma pesquisa quantitativa nacional com 2.800 entrevistas via autopreenchimento digital, conduzida entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 pelo Instituto Locomotiva.

A amostra considerou 1.600 adolescentes (13 a 17 anos) e 1.200 adultos (18+), com margem de erro de 2,8 pontos percentuais. A pesquisa qualitativa, realizada entre julho e setembro de 2025, e que aprofundou as percepções e motivações por trás dos números, foi realizada pela Mind Sharing.

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