Eles são conhecidos como geração sanduíche: adultos que vivem simultaneamente a responsabilidade de criar filhos e cuidar de pais idosos, enquanto lidam com carreira, vida pessoal e obrigações financeiras. Com o aumento da taxa de envelhecimento no Brasil, precisamos discutir como esse duplo cuidado, muitas vezes invisível, coloca sobre os ombros desses homens e mulheres uma pressão intensa que pode impactar a saúde mental, emocional e física.
Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre), existem 955 mil chefes de família ou cônjuges entre 35 e 49 anos vivendo em lares com filhos até 24 anos e idosos com 65 anos ou mais (dados de 2023). A maior parte desses adultos, 60,2%, é formada por mulheres. Isso sem contar as famílias nas quais os idosos não vivem no mesmo lar, mas demandam atenção e cuidados constantes.
O estresse constante e a sensação de culpa por não conseguir dar conta de todas as demandas podem gerar ansiedade, depressão, insônia e até burnout. Esse é um problema sério: cuidar de filhos e dos pais que já são idosos e ainda trabalhar e fazer todas as outras atividades da vida é uma conta que não fecha.
Para além do burnout, o ‘estresse do cuidador’
Mulheres tendem a sentir ainda mais a sobrecarga, já que, culturalmente, ainda assumem maior parte das tarefas de cuidado no Brasil. O resultado é um ciclo de estresse crônico que compromete tanto o bem-estar quanto as relações familiares.
Existe até uma condição chamada “estresse do cuidador”, que acontece quando a pessoa que cuida de alguém doente ou que demanda muita atenção acaba adoecendo também e deixando suas necessidades dela de lado para cuidar do outro.
É muito importante que o cuidador tenha um momento para si, pratique um hobby ou uma atividade física para que ela não vá “enlouquecendo” nesse dia a dia exaustivo. Muitas vezes, nas famílias, um filho fica sobrecarregado no cuidado com os pais, quando existem outros irmãos que poderiam colaborar. É preciso dividir a carga, pedir ajuda e delegar tarefas.
Autocuidado não dispensa o papel do poder público
Especialistas recomendam estratégias como planejamento, divisão de tarefas e fortalecimento da rede de apoio entre familiares e amigos. O autocuidado também é essencial: incluir na rotina momentos de lazer, prática de exercícios físicos e sono adequado pode ajudar a reduzir o estresse. O acompanhamento psicológico surge como aliado importante para enfrentar sentimentos de culpa e sobrecarga.
O desafio, no entanto, não deve recair apenas sobre os indivíduos. É necessário cobrar do poder público políticas que ofereçam suporte às famílias, como escolas em tempo integral, centros esportivos, culturais e sociais para crianças, além de espaços de convivência e cuidado para idosos. Essas iniciativas ajudam a reduzir a sobrecarga das famílias e promovem qualidade de vida para todas as gerações.
No fim, a geração sanduíche enfrenta o dilema de cuidar de todos sem se esquecer de si mesma. Reconhecer a sobrecarga e procurar tanto suporte institucional quanto encontrar outras redes de apoio dentro da própria família e comunidade são medidas fundamentais para garantir equilíbrio emocional e qualidade de vida a quem vive nessa posição desafiadora.




