Por Laís Mutuberria*
Não estamos falando apenas de mísseis concretos ou da escalada de conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã, ou ainda da guerra entre Rússia e Ucrânia, quase ausente na mídia agora, mas presente para muitos. Estamos falando também de movimentos sociais visíveis no cotidiano, como conflitos recentes na Bahia envolvendo a presença de israelenses, que chegaram a episódios de tensão e agressividade. Mas, sobretudo, estamos falando de guerras no modo de sentir, de perceber e de se posicionar no mundo.
Isso aparece nas queixas clínicas mais comuns: pais e filhos que já não conseguem conversar sem entrar em confronto, casais que vivem disputas silenciosas de poder, pessoas que se fecham diante de qualquer frustração. Os eventos macros não estão isolados dos micros, assim como os micros não estão desconectados do macro.
O sujeito não é uma entidade isolada: é, ao mesmo tempo, agente e produto das condições culturais, políticas e simbólicas de sua época. Por isso, a tensão global não se limita às fronteiras entre países — ela atravessa afetos, discursos e comportamentos no cotidiano. Na prática, isso se traduz em relações onde o outro passa a ser combatido, evitado ou corrigido.
Momentos de instabilidade e ameaça global intensificam mecanismos de defesa, e, nesse cenário, separar o individual do coletivo é uma ilusão. A polarização, a rigidez de pensamento e a dificuldade de escuta aumentam em todos os níveis. A intolerância crescente é visível tanto no macro quanto no micro e revela um tecido social tensionado.
Há também um elemento central atravessando esses fenômenos: o predomínio dos interesses próprios. Seja nas grandes guerras, muitas vezes atravessadas por disputas de poder, território e recursos como o petróleo, seja nas relações cotidianas, vemos a mesma lógica operando — a tentativa de impor o próprio ponto de vista, de vencer, de dominar. Vivemos um tempo marcado pelo individualismo e pela centralidade do “eu”, onde o interesse coletivo perde espaço.
E, nesse contexto, o outro deixa de ser alguém a ser compreendido e passa a ser alguém a ser enfrentado. Na clínica, isso aparece de forma muito concreta. Pessoas com alta escolaridade e recursos relatam rompimentos abruptos ao primeiro conflito, dificuldade em tolerar frustrações mínimas no trabalho, ou a expectativa de que o outro “deveria saber” como agir sem que haja comunicação.
Há também uma tendência a transformar qualquer desconforto em algo intolerável, que precisa ser eliminado rapidamente, num senso de urgência para que suas necessidades sejam atendidas. É nesse cenário que se fortalecem muitas dinâmicas adoecedoras, como por exemplo, a fantasia de independência absoluta: a ideia de que não se deve precisar do outro, de que depender é sinal de fraqueza.
No entanto, essa busca por autossuficiência ignora um dado básico da condição humana — somos seres relacionais. A recusa da dependência não produz liberdade, mas isolamento, e o sofrimento que emerge disso é, em grande parte, relacional.
‘Eu sou assim, o outro é assado’
Vemos também esse movimento se intensificando nas redes sociais. Termos oriundos da psicologia — como diagnóstico de déficit de atenção e hiperatividade, autismo, narcisismo ou simbiose — passam a ser utilizados como rótulos fixos. Na prática, ao invés de abrirem caminhos para maior compreensão, curiosidade e construção, eles têm sido usados para fechar portas.
Funcionam como marcadores rígidos: “eu sou assim”, “o outro é assado”, e a partir disso não há mais negociação possível. Esses conceitos, que poderiam favorecer o cuidado e o entendimento, acabam sendo instrumentalizados como formas de evitar o encontro, cristalizando posições e reduzindo a complexidade das relações.
Nos contextos de trabalho, isso aparece quando colaboradores esperam posturas ideais de seus líderes sem comunicar suas necessidades, enquanto líderes presumem comportamentos de suas equipes sem escuta real. Nas relações amorosas, vemos pessoas que encerram vínculos ao primeiro desalinhamento, sem disposição para construir acordos. No âmbito familiar, conflitos são rapidamente traduzidos em afastamentos, com pouca tentativa de mediação.
O espaço do diálogo tem sido substituído por uma lógica de guerra: posições rígidas, pouca escuta e respostas defensivas. Quando o encontro não corresponde ao esperado, a resposta não é elaborar — é combater ou descartar.
Diante disso, precisamos reconhecer que, mesmo em um tempo de grandes avanços tecnológicos e amplo acesso a informações sobre saúde mental, estamos produzindo formas cada vez mais sofisticadas de barbárie cotidiana. Talvez não estejamos mais apenas em guerras de fronteiras, mas em guerras de afetos, de linguagem e de convivência.
Retomar a conexão entre macro e micro não é apenas um exercício teórico, mas uma responsabilidade ética. Se queremos um mundo com menos guerras — sejam elas de mísseis ou de relações —, precisamos ampliar nossa tolerância, nossa capacidade de escuta e nosso compromisso com o outro no cotidiano. É nas pequenas interações que também se constrói — ou se destrói — a possibilidade de um mundo mais humano.
*Laís Mutuberria é psicóloga graduada pela UFU, especializou-se em Análise Transacional (Unat Brasil) e Neurociência do Comportamento (PUCRS), Psicologia Positiva, Hipnose Ericksoniana, PNL, TCC e Educação Sistêmica. Ministra cursos, palestras e eventos voltados ao bem-estar e à saúde mental.






