Janeiro é, tradicionalmente, o mês dedicado à saúde mental no Brasil. Janeiro Branco aproveita o simbolismo de recomeço do novo ano – período propício para balanços e promessas de mudança – para incentivar a revisão de histórias emocionais e o enfrentamento de estigmas. Criada em 2024, a campanha busca levar ao debate público temas como o sofrimento psíquico e a prevenção ao adoecimento emocional.

Contudo, em 2026, o debate ganha uma camada mais profunda e urgente: o impacto da superexposição a conteúdos banais e a “indústria da raiva” no funcionamento do nosso cérebro. P foco recai sobre um mal-estar cada vez mais visível: o esgotamento provocado pelo ambiente digital.

Este cansaço coletivo foi sintetizado em termos que ganharam o mundo. Em 2024, o Dicionário Oxford elegeu brain rot (apodrecimento cerebral) como a palavra do ano, definindo a deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdos triviais. O termo descreve a deterioração mental causada pelo consumo desenfreado de materiais online irrelevantes.

Já em 2025, o conceito de rage bait — conteúdos criados especificamente para gerar indignação — consolidou um cenário de esgotamento psíquico com a produção deliberada de posts feitos para gerar indignação e engajamento através da raiva.

Para a psicanalista Camila Camaratta, o problema reside na incapacidade de sustentar o silêncio ou a dúvida. Segundo a especialista, esse estado reflete uma perda da capacidade de sustentar a vida psíquica O indivíduo busca estímulos constantes para evitar o encontro consigo mesmo.

“O sujeito não tolera silêncio ou espera. Precisa estar continuamente excitado para ser salvo do encontro consigo mesmo”, afirma. Citando Freud e Winnicott, a especialista alerta que o aparelho psíquico adoece quando não há espaço para a elaboração emocional e a criatividade.

A ciência por trás do cansaço e a falha da dopamina

O fenômeno do brain rot não é apenas uma percepção subjetiva, mas um processo com raízes biológicas. Para o o psiquiatra Ricardo Assmé, professor da Universidade Positivo, o brain rot não é apenas uma metáfora, mas uma mudança biológica real.

O consumo de vídeos curtos e estímulos rápidos altera a liberação de dopamina. Enquanto o aprendizado tradicional gera uma curva de prazer gradual e duradoura, o digital oferece “pulsos contínuos” que se esgotam rápido, gerando uma fadiga cognitiva profunda.

Diferente de uma atividade de aprendizado profundo, que libera o neurotransmissor de forma gradual e prazerosa, as telas oferecem pulsos contínuos que se esgotam rapidamente.

A capacidade de agir e socializar vai se degradando porque, nessa inércia, perdem-se hábitos e aprendizados antigos. Vemos pessoas com preguiça de pensar porque o prazer se tornou instantâneo e efêmero”, explica Assmé.

O impacto no ambiente de trabalho e a necessidade de limites

Um ambiente “tóxico” nas redes sociais, alimentado por algoritmos de ódio, reflete diretamente na saúde pública e no comportamento social. O reflexo desse “cérebro esgotado” chega com força às organizações. Dados do State of the Global Workplace Report mostram que apenas 23% dos trabalhadores globais estão engajados, enquanto o estresse crônico atinge níveis alarmantes.

A psicóloga organizacional Patricia Ansarah destaca que apenas uma parcela mínima dos trabalhadores globais se sente engajada, enquanto o estresse diário atinge níveis recordes. A solução proposta por especialistas passa pela criação de espaços de segurança psicológica e pelo estabelecimento de limites claros no uso da tecnologia.

Ela recomenda criar ambientes onde a desconexão e o erro sejam permitidos para recuperar a capacidade criativa. Estratégias como reduzir o tempo de tela e priorizar atividades com propósito real podem ajudar a reverter dificuldades cognitivas e quedas de produtividade.

Dicas para proteger sua saúde mental em janeiro (e no ano todo)

Neste Janeiro Branco, o convite é para que o cuidado com a mente seja um gesto de resistência. Proteger o espaço psíquico, sustentar o desconforto de não responder imediatamente a um estímulo e evitar as armadilhas da raiva digital são os novos pilares para uma vida emocionalmente saudável.

  • Limite o tempo de tela: Estabeleça períodos de “detox” digital diários.

  • Fuja do “rage bait”: Ao sentir uma indignação súbita causada por um post, respire antes de reagir. O algoritmo lucra com seu reflexo, não com sua razão.

  • Priorize conteúdos densos: Volte a ler livros ou textos longos para “treinar” a dopamina a ser liberada de forma gradual.

  • Sustente o silêncio: Não tente preencher todos os momentos vazios com o celular. O ócio é fundamental para a saúde psíquica.

Cuidar da saúde mental hoje, como propõe o Janeiro Branco, vai além da busca pela felicidade; trata-se de um ato de resistência contra a captura da nossa atenção.

Com Assessorias

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