O que antes parecia raro hoje se tornou comum: casamentos longos chegando ao fim justamente na fase em que se esperava estabilidade. O fenômeno tem nome: Divórcio grisalho (do inglês Grey Divorce), o divórcio depois dos 50 anos. Ele está crescendo no mundo inteiro.

A socióloga americana Susan Brown, referência no tema, costuma resumir essa transformação com uma frase tão simples quanto incômoda: “Se você sobreviveu até os 65 anos, pode esperar viver mais 20. E ninguém quer passar todo esse tempo ao lado de alguém de quem já não gosta mais.”

Nos Estados Unidos, a mudança é impressionante. A advogada Susan Guthrie, apresentadora do podcast Divorce and Beyond, lembra que, desde 1990, o número de divórcios entre pessoas acima de 65 anos triplicou. Hoje, 36% dos divórcios acontecem aos 50+.  O Reino Unido acompanha o mesmo movimento.

Um em cada quatro divórcios envolve casais que estavam juntos há mais de 20 anos

No Brasil, embora a média de idade das separações seja mais baixa – segundo o IBGE, as mulheres se divorciam em média aos 40 anos, e os homens aos 43 – um dado chama atenção: um em cada quatro divórcios envolve casais que estavam juntos há mais de 20 anos. Praticamente metade dos casamentos brasileiros não chega aos dez anos, mas os de longa duração também têm sofrido rupturas significativas.

Várias transformações sociais ajudam a explicar esse fenômeno. Para Susan Guthrie, o casamento deixou de ser visto como uma instituição imutável e passou a ser entendido como uma fonte de realização pessoal. As pessoas normalizaram a ideia de casar e se separar, quando necessário, em busca de mais satisfação.

Ao mesmo tempo, a autonomia feminina aumentou: hoje, mais da metade das mulheres trabalha, ganha seu próprio dinheiro e não depende inteiramente do marido, como acontecia nas décadas de 1970 e 1980. Isso abriu espaço para que muitas finalmente considerem a própria felicidade. Por outro lado, a dependência financeira do marido é o que segura muitas mulheres em relações desgastadas ou abusivas.

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Aposentadoria: o divisor de águas na vida do casal

A aposentadoria é outro ponto de ruptura. Segundo Susan Brown, um exemplo clássico é o que acontece quando o marido se aposenta. A essa altura, a esposa geralmente já tem suas rotinas consolidadas, seus projetos, suas descobertas. Então, de repente, ele passa a ficar em casa o tempo todo.  Esse novo convívio, para muitos casais, escancara diferenças profundas.

Nesse caso, é normal haver um estranhamento, uma falta de repertório que leva o casal a perceber que se transformaram em outras pessoas ao longo do tempo e não têm mais nada em comum”, diz Brown.

Há ainda o desafio do ninho vazio. Quando os filhos saem de casa – no Brasil isso geralmente acontece quando se casam ou vão estudar em outras cidades – muitos casais descobrem que praticamente não têm assuntos que não sejam relacionados a eles. Novamente, percebem que têm poucos interesses compartilhados e nenhum projeto a dois. O silêncio, antes preenchido por compromissos familiares, se torna pesado. O estranhamento que sempre esteve ali finalmente se revela.

As mudanças tecnológicas também deixaram sua marca. O celular aparece com frequência nas pesquisas como fator de desgaste, seja pela falta de atenção ao parceiro, seja pelas inúmeras oportunidades de traição virtual – às vezes, física.

Sensação de invisibilidade para muitas mulheres

Muitas mulheres que pedem o divórcio aos 50+ relatam anos de tentativas de repactuar a relação, de reconstruir um projeto de vida juntos, conversas frustradas e sensação de invisibilidade. Para algumas parceiras, a decisão chega quando percebem que estão “morrendo em vida” dentro de uma relação que já não as acolhe.

Mas o divórcio nessa fase da vida não envolve apenas o casal. Quando a separação não é amigável, ela exige uma verdadeira reorganização familiar. Mesmo filhos adultos, com suas próprias famílias, sentem o impacto e muitas vezes acabam, de forma sutil ou explícita, pressionados a tomar partido.

Noras, genros e netos percebem o clima. Os almoços de domingo mudam, as festas de família passam a ter duas datas, as lealdades são divididas. É uma dor coletiva, silenciosa, mas real.

‘Divorciar é perder a previsibilidade’, diz psicoterapeuta

A psicoterapeuta Lori Gottlieb, autora de Maybe You Should Talk to Someone, lembra que se divorciar é perder a previsibilidade, aquela sensação de saber onde pisa. Por isso pode ser um processo emocionalmente desestabilizador. O divórcio é considerado o segundo evento mais traumático da vida, atrás apenas da morte de alguém amado, e parte dessa dor vem também do impacto econômico.

Muitos casais chegam a desistir da separação ao perceberem que ela implicaria redução de padrão de vida, divisão de patrimônio e reorganização completa das despesas. Essas considerações são legítimas, especialmente para mulheres que passaram anos priorizando a família em detrimento da carreira.

Apesar de tudo isso, muitas mulheres relatam que, após um período natural de adaptação depois do divórcio, experimentam uma sensação renovada de liberdade e paz. Pela primeira vez em muito tempo, podem fazer escolhas alinhadas aos próprios desejos, e não mais às expectativas do casamento ou das convenções sociais.

Livro ‘50+ Desperte para a vida e pare de sofrer’ pode ajudar

No entanto, uma separação depois de tantos anos de casamento exige tempo, gentileza consigo mesma e abertura para novos vínculos. Em meu livro 50+ Desperte para a vida e pare de sofrer, falo sobre a importância de cultivar redes de apoio nessa fase: fazer novas amizades, participar de atividades em grupo, retomar hobbies esquecidos, entrar em clubes de leitura, praticar exercícios coletivos ou até voltar para a faculdade.

Muitas mulheres relataram ter reencontrado partes de si que haviam sido silenciosamente deixadas para trás. Estar disponível para o novo, mesmo que a conta-gotas, pode ser o primeiro passo para viver de forma vibrante outra vez.

Ainda assim, é fundamental dizer que esta coluna não pretende incentivar ninguém a se divorciar. Cada relação é uma história única, complexa, cheia de nuances que só quem vive conhece. O objetivo aqui é apenas legitimar sentimentos que muitas mulheres carregam em silêncio – dúvidas, frustrações, esgotamento emocional, sensação de invisibilidade – e que às vezes nem se autorizam a reconhecer.

Recomeçar aos 50+ pode ser uma possibilidade, nunca uma imposição. E escolher ficar também pode ser um caminho legítimo. O importante é que qualquer decisão seja tomada com cuidado, consciência, autoestima, apoio emocional e profundo respeito por si mesma.

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