O ato de engolir parece automático, mas envolve a coordenação de mais de 50 músculos e diversos nervos. Quando algo falha nesse processo, surge a disfagia. Mais do que um desconforto, a condição é um distúrbio sério que pode levar à desnutrição, desidratação e à pneumonia aspirativa — quando o alimento ou líquido desvia para os pulmões.

De acordo com especialistas, o diagnóstico precoce é o divisor de águas para evitar complicações como a perigosa pneumonia aspirativa, quadro que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro, de 70 anos, a ser internado recentemente no Hospital DF Star.

Nesta sexta-feira (20 de março), celebra-se o Dia Nacional de Atenção à Disfagia, uma data essencial para conscientizar a população sobre uma condição que, embora comum, muitas vezes é negligenciada: a dificuldade de engolir.  A disfagia não é uma doença em si, mas um sintoma de que algo não vai bem no trajeto que o alimento, o líquido ou até a saliva percorre da boca ao estômago.

Risco maior em pessoas idosas

Dados publicados no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology revelam que a prevalência da condição varia entre 2,3% e 22% na população geral, mas o alerta acende com mais força para a terceira idade, onde os índices atingem de 10% a 30% dos idosos.

Dados do Ministério da Saúde acendem o alerta: em 2023, mais de 2.000 brasileiros morreram por engasgo, sendo que mais da metade das vítimas tinha mais de 65 anos. O risco, porém, não poupa os mais novos: no mesmo período, 319 crianças de até 4 anos perderam a vida pelo mesmo motivo.

A disfagia é um distúrbio muitas vezes subdiagnosticado, mas que pode ter consequências gravíssimas”, alerta Luciana Costa, especialista do Hospital Paulista.

Do berço à maturidade: sinais de alerta por faixa etária

A disfagia não escolhe idade, mas se manifesta de formas distintas ao longo da vida. Especialistas reforçam que a identificação precoce é a chave para a segurança do paciente.

1. Infância e adolescência

Em bebês, a atenção deve dobrar durante a amamentação e a introdução alimentar. Segundo Talita Nishi, coordenadora de Fonoaudiologia do Sabará Hospital Infantil, os sinais incluem esforço exagerado para respirar ao mamar, ruídos, irritabilidade e escape de leite pelo nariz.

“A disfagia pode ser consequência de processos infecciosos ou inflamatórios, prejudicando tanto a deglutição quanto a respiração da criança. Por isso, é fundamental o acompanhamento de otorrinolaringologistas, nutricionistas e fonoaudiólogos”, explica Talita.

Já em adolescentes, a recusa de certas consistências, náuseas e pigarro frequente podem indicar o problema.

2. Idosos (O grupo de maior risco)

Estudos indicam que até 90% das pessoas na terceira idade podem sofrer algum grau de disfagia. O enfraquecimento muscular natural do envelhecimento, somado a doenças como Parkinson ou sequelas de AVC, agrava o quadro.

André Freire Kobayashi, otorrinolaringologista da Clínica Dolci, enfatiza que tossir ao comer nunca deve ser visto como algo “da idade”. “A tosse serve como um mecanismo de proteção quando o alimento segue por um caminho errado, podendo entrar no trato respiratório”, esclarece.

Por que engolir se torna um desafio?

A deglutição é um processo complexo que envolve músculos e nervos coordenados. Segundo Daniela Antenuzi da Silva, gastroenterologista e professora da Afya Brasília, a disfagia pode ter origens diversas. “Trata-se de um sintoma que pode estar associado a inflamações, estreitamentos (estenoses), distúrbios de motilidade e até neoplasias”, explica.

Existem dois tipos principais de classificação:

  1. Disfagia orofaríngea (ou de transferência): A dificuldade ocorre logo no início, ao tentar levar o alimento da boca para a garganta. É comum em casos de doenças neurológicas (como AVC, Parkinson ou Alzheimer) ou alterações estruturais na laringe e faringe.

  2. Disfagia esofágica: A sensação é de que o alimento “entalou” no peito. As causas frequentes incluem o refluxo gastroesofágico crônico e a acalasia (distúrbio de motilidade do esôfago).

Alexandre Martins, otorrinolaringologista e professor da Afya Itaperuna, ressalta que o corpo dá sinais claros quando o mecanismo falha. “Quando o paciente relata engasgos frequentes ou tosse ao engolir, a laringe pode não estar se fechando adequadamente, permitindo que o alimento entre nas vias aéreas”, alerta.

Diagnóstico e tratamento: a importância da reabilitação

A investigação clínica é o primeiro passo e pode incluir exames como a endoscopia alta, a nasofibrolaringoscopia e o videodeglutograma, que analisa o trajeto do alimento em tempo real. O tratamento é multidisciplinar. Segundo as fonoaudiólogas Juliana Venites e Cristina Zerbinatti Carro, a reabilitação fonoaudiológica é fundamental para fortalecer a musculatura e garantir a segurança alimentar. Além disso, o suporte de dentistas e nutricionistas assegura que o paciente mantenha o aporte nutricional sem riscos.

Comer não é apenas ingerir calorias; é um ato social e de autonomia”, reforçam as especialistas. Em um país que envelhece rapidamente — com aumento de 57% na população acima de 65 anos na última década, segundo o IBGE — olhar para a capacidade de engolir é, acima de tudo, garantir dignidade e qualidade de vida.

Mitos e verdades sobre a deglutição

Para desmistificar o tema, a fonoaudióloga Claudia Aidar Fleury, dos Hospitais IGESP, esclarece pontos cruciais:

  • Líquidos são inofensivos?

Mito. Muitas vezes, líquidos como a água representam maior risco por serem mais difíceis de controlar na boca, desviando-se facilmente para os pulmões.

  • O impacto é apenas nutricional?

Mito. “A disfagia afeta o convívio social e o prazer de comer. Muitos pacientes passam a evitar refeições em público por medo de engasgar”, afirma Claudia.

  • Existe tratamento?

Verdade. A reabilitação fonoaudiológica pode fortalecer os músculos e adaptar a dieta para garantir segurança.

12 sinais e sintomas que exigem investigação

Abaixo, os principais indicadores de que a função de deglutição pode estar comprometida:

  1. Engasgos ou tosse frequente durante ou após comer/beber;

  2. Sensação de alimento parado na garganta ou no peito;

  3. Voz “molhada” ou alterada após a ingestão de líquidos;

  4. Necessidade de várias deglutições para o mesmo bocado;

  5. Escape de alimento pela boca ou nariz;

  6. Esforço respiratório, cansaço ou sudorese durante as refeições;

  7. Pneumonias de repetição sem causa aparente;

  8. Perda de peso inexplicada ou desidratação;

  9. Mudança na cor da pele (palidez ou cianose) durante a mamada;

  10. Seletividade alimentar repentina (preferência por apenas uma consistência);

  11. Dor ou desconforto ao engolir;

  12. Tempo prolongado para terminar uma refeição simples.

A intervenção precoce é a chave para um tratamento eficaz e para a prevenção de complicações futuras”, conclui a fonoaudióloga Cristina Zerbinati.

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