A obesidade ganha papel central no debate sobre saúde feminina em pleno mês internacional das mulheres, ainda mais durante a semana em que se celebra o Dia Mundial da Obesidade (4 de março) Para 2026, a World Obesity escolheu como tema da campanha “8 Bilhões de Razões para Agir sobre a Obesidade”. Para a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), combater a obesidade é fundamental para preservar a saúde reprodutiva e geral da mulher em todas as fases da vida.
Do ponto de vista ginecológico, combater a obesidade é essencial A obesidade pode estar associada a um processo inflamatório crônico, à desregulação hormonal e a diversos riscos de saúde que afetam direta ou indiretamente a fertilidade e o sistema reprodutor”, explica José Maria Soares Júnior, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Febrasgo.
De acordo com o Dr. José Maria, as principais razões para agir, no contexto da Ginecologia, são:
- Preservação da fertilidade: a obesidade está associada à dificuldade para engravidar, pois pode afetar a ovulação e a qualidade dos óvulos.
- Redução de riscos na gravidez: mulheres com obesidade têm risco significativamente maior de complicações durante a gestação, como diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, aborto espontâneo, parto prematuro e macrossomia fetal — o que pode repercutir em maiores taxas de cesariana.
- Prevenção de cânceres ginecológicos: o excesso de tecido adiposo, especialmente na região abdominal, pode se associar à resistência insulínica e aumentar o risco de câncer de endométrio, mama e ovário.
- Melhora da qualidade de vida: a obesidade está associada a maior incidência de sintomas climatéricos mais intensos (como ondas de calor), além de incontinência urinária, distúrbios menstruais e síndrome dos ovários policísticos (SOP). Também pode se relacionar a distúrbios do sono — condições que afetam profundamente o bem-estar físico e emocional da mulher.
A obesidade pode causar resistência à insulina e agravar desequilíbrios hormonais (como o hiperandrogenismo), interferindo na ovulação regular e na receptividade endometrial, o que dificulta a concepção. Além disso, cerca de 40% a 85% das mulheres com SOP têm excesso de peso.
A obesidade aumenta a resistência à insulina e os sintomas da SOP, criando um ciclo vicioso: quanto maior o excesso de peso, mais difícil tratar a síndrome dos ovários policísticos — e vice-versa”, afirma o médico.
Outros dados que chamam atenção
- mulheres com obesidade e anovulação crônica têm risco aumentado de 1,2 a 7,1 vezes para câncer de endométrio em comparação com mulheres com peso normal;
- mulheres na menopausa e com excesso de peso relatam mais ondas de calor e suores noturnos;
- o ganho de peso na fase climatérica pode elevar o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer;
- a obesidade está associada a maior sobrecarga do assoalho pélvico, o que contribui para a perda de urina e o prolapso genital.
Além da simples equação “comer menos e gastar mais”
Dr. José Maria reforça que é crucial desmistificar a abordagem da obesidade — uma doença crônica, complexa e multifatorial, que vai além da simples equação “comer menos e gastar mais”. O estigma e o preconceito enfrentados por mulheres com obesidade nos serviços de saúde são barreiras reais, e o tratamento eficaz exige uma visão integral e multidisciplinar, que pode incluir:
- Mudança de estilo de vida (reeducação alimentar e atividade física) como pilar fundamental.
- Acompanhamento psicológico para lidar com ansiedade, compulsão alimentar e imagem corporal.
- Tratamento medicamentoso, quando indicado, sob rigoroso controle médico.
- Cirurgia bariátrica para casos de obesidade mórbida (IMC ≥ 35 kg/m² com comorbidades ou ≥ 40 kg/m², sem comorbidades), com evidências de melhora da fertilidade e redução de riscos obstétricos.
Gestantes não devem usar canetas emagrecedoras
Para a mulher com obesidade que deseja engravidar, ele diz “O seu desejo de ser mãe é o primeiro e mais importante passo, e a ciência mostra que você pode aumentar muito as suas chances de uma gravidez saudável agindo precocemente. Uma perda de peso de apenas 5% a 10% do peso corporal pode ser suficiente para melhorar significativamente a fertilidade, regular a ovulação e preparar o corpo para receber o bebê”.
O ginecologista alerta ainda que o período da gestação não é o mais indicado para iniciar uma dieta restritiva ou o uso de medicamentos para emagrecer, como os análogos de GLP-1, que devem ser suspensos meses antes da concepção para a segurança do bebê. “Invista em um acompanhamento multidisciplinar com nutricionista, educador físico e seu ginecologista. Seu corpo e seu futuro filho agradecerão”, finaliza o médico.
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Excesso de peso pode impulsionar risco de câncer de endométrio
Doença é mais comum após os 50 anos, tem relação direta com obesidade e ganha novas ferramentas de diagnóstico com exames moleculares
A associação entre excesso de peso e câncer de endométrio, tumor que se origina no revestimento interno do útero e ocorre, na maioria das vezes, após a menopausa. Diretrizes da Febrasgo indicam que a idade média de diagnóstico gira em torno dos 60 anos, e a doença é incomum antes dos 45 e reforçam esse perfil ao apontar que menos de 5% dos casos ocorrem em mulheres com menos de 40 anos e cerca de 15% antes da menopausa.
Para a endocrinologista Maria Helane Gurgel Castelo, da rede Dasa, esse recorte etário reflete um processo biológico acumulativo. “A obesidade não é apenas uma condição estética. O tecido adiposo é metabolicamente ativo e aumenta a conversão de hormônios androgênicos em estrogênios, além de sustentar um estado inflamatório crônico. Isso mantém o endométrio sob estímulo prolongado e cria um ambiente favorável à proliferação celular desregulada, elevando o risco de câncer ao longo do tempo.”
Peso, hormônios e risco oncológico
O vínculo entre obesidade e câncer de endométrio é considerado um dos mais consistentes entre os tumores ginecológicos. O excesso de gordura corporal está associado a maior produção periférica de estrogênios, resistência à insulina e inflamação de baixo grau.
Esse conjunto de fatores, somados, aumentam a probabilidade de alterações celulares no endométrio. Não por acaso, a incidência cresce justamente nas faixas etárias em que o ganho de peso e as mudanças metabólicas são mais frequentes, sobretudo após os 50 anos.
Prevenção como prioridade
Especialistas lembram que a obesidade é um fator de risco modificável. Estratégias de prevenção que incluem alimentação equilibrada, atividade física regular e acompanhamento médico contínuo — especialmente no período pós-menopausa — podem reduzir de forma significativa a probabilidade de desenvolvimento de câncer de endométrio e outras doenças associadas ao excesso de peso.
Cuidar do peso é uma medida de saúde integral. Além de melhorar o metabolismo, reduz o estímulo hormonal crônico sobre o endométrio e, com isso, o risco de transformação maligna”, conclui a dra. Maria Helane. Enfrentar o excesso de peso é também proteger a saúde da mulher ao longo do envelhecimento, combinando prevenção, informação de qualidade e acesso a diagnósticos cada vez mais avançados.
Menopausa e obesidade: uma relação de mão dupla
A transição menopausal e o excesso de peso se retroalimentam. A queda dos hormônios ovarianos favorece o acúmulo de gordura — especialmente abdominal — e altera o metabolismo energético; por sua vez, a obesidade intensifica a resistência à insulina e a inflamação, ampliando riscos cardiovasculares e oncológicos.
A menopausa é uma encruzilhada metabólica. As mudanças hormonais alteram a distribuição de gordura e o equilíbrio energético, e a obesidade funciona como um amplificador desses efeitos. Quando esses fatores coexistem, o impacto sobre o risco de doenças crônicas, inclusive o câncer de endométrio, se torna mais relevante”, explica a Dra. Maria Helane.
Com Assessorias




