O tempo cronológico é, reconhecidamente, o maior desafio para a fertilidade feminina. Diferente dos homens, que produzem gametas ao longo de toda a vida, as mulheres já nascem com um estoque finito de cerca de 2 milhões de óvulos. Com o passar dos anos, essa reserva diminui não apenas em quantidade, mas drasticamente em qualidade.

Dados do IBGE mostram uma mudança no comportamento das brasileiras: nos últimos 10 anos, houve um aumento de 63% nas gestações entre mulheres de 35 a 39 anos. No entanto, uma pesquisa do Instituto Ipsos mostra um dado alarmante: a maioria das mulheres só começa a considerar o congelamento aos 37 anos, quando a reserva ovariana já está em declínio acentuado.

Entretanto, o planejamento reprodutivo ainda é pouco discutido nos consultórios. Uma pesquisa da Merck revela que 86% das mulheres nessa faixa etária nunca foram abordadas por seus ginecologistas sobre preservação da fertilidade.

Para auxiliar no planejamento familiar e garantir que a decisão de ter filhos não seja uma barreira para a carreira ou projetos pessoais, o congelamento de óvulos surge como a principal estratégia de preservação. Confira abaixo as respostas para as principais dúvidas sobre o procedimento.

Existe uma idade ideal para o congelamento?

A literatura médica e os especialistas são unânimes: o ideal é realizar o procedimento até os 35 anos.

De acordo com  Marise Samama, ginecologista e presidente da AMCR (Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil), quanto maior a idade na coleta, maior o risco de alterações genéticas nos embriões. “Estatisticamente, os óvulos começam a perder qualidade após os 35 anos. Ao congelar, a mulher está pausando no tempo suas chances atuais de gravidez”, explica.

Contudo, mulheres acima dessa idade também podem se beneficiar. Rodrigo Rosa, diretor da Clínica Mater Prime, reforça que o procedimento é viável até os 42 ou 43 anos, embora as taxas de sucesso diminuam. “É melhor ter 15% a 20% de chance aos 39 anos do que esperar chegar aos 45 e ter apenas 1% de chance natural”, pondera.

Para a ginecologista Ângela Marcon D’Avila, diretora do Embrios Centro de Reprodução Humana, o sucesso depende tanto da idade quanto do número de óvulos coletados. “Ao congelar óvulos, estou congelando no tempo também as minhas chances de gravidez”, esclarece a médica.

Para Edson Borges Jr., diretor científico do Instituto Sapientiae, o acompanhamento da fertilidade deve entrar no check-up ginecológico antes dos 30 anos. “A conscientização precoce permite que a mulher se planeje financeiramente e biologicamente, evitando frustrações futuras. A informação permite que a mulher planeje alternativas conforme seus desejos, sem que o tempo seja uma barreira intransponível”, conclui.

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Como funciona o passo a passo do procedimento?

O processo é o mesmo para celebridades ou anônimas e dura, em média, três semanas:

  1. Avaliação da reserva ovariana: Exames hormonais (como o Antimülleriano) e ultrassom transvaginal para contar os folículos.

  2. Estimulação hormonal: Uso de medicações injetáveis (gonadotrofinas) por cerca de 10 a 14 dias para fazer com que vários folículos cresçam simultaneamente.

  3. Coleta (punção): Sob sedação leve, os óvulos são aspirados via vaginal guiada por ultrassom. O processo dura de 15 a 30 minutos.

  4. Vitrificação: No laboratório, os óvulos maduros são mergulhados em nitrogênio líquido a -196ºC. Esta técnica de resfriamento ultrarrápido impede a formação de cristais de gelo que poderiam danificar a célula.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Qual o limite de idade para usar os óvulos?

Embora não haja validade para os óvulos congelados, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomenda que a gestação por reprodução assistida ocorra até os 50 anos.  De acordo com dra. Marise Samama, após essa idade os riscos de complicações como hipertensão, diabetes gestacional e pré-eclâmpsia aumentam  significativamente.

Quantos óvulos devem ser congelados?

Para garantir boas chances de sucesso em uma fertilização futura, especialistas da Vida Bem Vinda (unidade do FERTGROUP) e do Grupo Huntington sugerem o congelamento de, no mínimo, 15 óvulos para mulheres de até 35 anos para garantir boas chances de um bebê no futuro. Em mulheres acima de 38 anos, esse número pode precisar ser maior devido à menor viabilidade genética.

O procedimento é seguro?

Sim. O especialista Rodrigo Rosa destaca que o maior estudo publicado, com mais de 900 bebês nascidos de óvulos congelados, não mostrou aumento na taxa de defeitos congênitos ou alterações cromossômicas em comparação com a população em geral.

Qual o investimento médio?

O custo do procedimento varia entre R$ 10 mil e R$ 20 mil, somado a uma taxa anual de manutenção (criopreservação) em laboratório, que gira em torno de R$ 1.200 a R$ 1.500.

Importante: Se você tem histórico de menopausa precoce na família ou doenças como endometriose, a avaliação da reserva ovariana deve ser priorizada o quanto antes.

Exames fundamentais para a ‘poupança de óvulos’

Para te ajudar no planejamento, detalhamos abaixo os exames fundamentais para avaliar sua “poupança” de óvulos e uma estimativa de custos para a segunda etapa do processo (a Fertilização In Vitro)

1. Exames para medir a reserva ovariana

Existem dois pilares principais para saber como está sua fertilidade hoje. Eles são rápidos e fundamentais para decidir se o congelamento é urgente:

  • Hormônio Antimülleriano (AMH): É um exame de sangue que pode ser feito em qualquer dia do ciclo. Ele mede a quantidade aproximada de óvulos que você ainda tem. É o indicador mais fiel da reserva ovariana atual.

  • Ultrassonografia Transvaginal com Contagem de Folículos Antrais (CFA): Realizado preferencialmente no início do ciclo menstrual. O médico visualiza e conta quantos “pontinhos” (folículos) existem nos ovários. É a confirmação visual do estoque disponível para aquele mês.

  • FSH e Estradiol: Exames de sangue colhidos entre o 2º e o 5º dia da menstruação para avaliar como o seu corpo está trabalhando para recrutar os óvulos.

2. Custos: da manutenção à fertilização (FIV)

É importante separar os custos em três momentos distintos para não haver surpresas financeiras:

A. Manutenção Anual

Uma vez congelados, os óvulos ficam em tanques de nitrogênio líquido. As clínicas cobram uma taxa de manutenção (anuidade) para garantir a segurança e o monitoramento constante do material.

  • Valor médio: R$ 1.000 a R$ 1.500 por ano.

B. O processo de Fertilização In Vitro (FIV)

Quando você decidir usar os óvulos, precisará passar pela FIV. O custo do congelamento feito lá atrás não inclui esta etapa. Ela envolve:

  • Descongelamento e ICSI: Preparo dos óvulos e injeção do espermatozoide.

  • Cultivo de embriões: Monitoramento em laboratório até o estágio de blastocisto (5º dia).

  • Transferência embrionária: O procedimento médico para colocar o embrião no útero.

  • Investimento estimado: Entre R$ 15 mil e R$ 25 mil (dependendo da clínica e se haverá teste genético dos embriões).

C. Teste Genético Pré-Implantacional (PGT-A) — Opcional

Muitas mulheres que congelam óvulos mais tarde (após os 38 anos) optam por este teste para analisar se o embrião é geneticamente saudável antes da transferência, o que reduz o risco de abortos.

  • Custo extra: Em média R$ 2.000 a R$ 3.500 por embrião analisado.

3. Planejamento financeiro

Como os valores são significativos, algumas estratégias ajudam:

  • Seguros e Convênios: Alguns convênios já cobrem os exames de diagnóstico (como o ultrassom e o AMH), embora raramente cubram o procedimento de congelamento em si.

  • Programas de Acesso: Algumas clínicas oferecem parcelamentos de longo prazo ou programas de desconto baseados na renda familiar.

Dica de especialista: O custo de congelar os óvulos aos 32 anos e fazer a FIV aos 40 costuma ser menor e ter maior sucesso do que tentar uma FIV “a fresco” (com óvulos colhidos na hora) aos 42 anos, onde a qualidade é menor e pode exigir vários ciclos.

Com Assessorias

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