Como encarar a longa pandemia em tempos de adolescência

Especialistas analisam como adolescentes têm enfrentado a ômicron, em meio ao tédio e à ansiedade. Veja quando o uso de tecnologia pode ser positivo

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Da BBC Brasil, com Redação

Na adolescência se intensificam novas experiências e são vividos períodos de independência dos pais. É quando ocorrem etapas importantes de amadurecimento emocional e sexual. Mas ao longo da pandemia, a saúde mental e emocional dos jovens tem sido muito abalada.

Um monitoramento de 6 mil crianças e adolescentes feito pela Universidade de São Paulo registrou que 36% dos entrevistados relataram traços de ansiedade e depressão durante a pandemia. E a chegada da variante ômicron frustrou a retomada de um ritmo mais normal de vida.

Lee Fu-I, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de SP e especializada em crianças e adolescentes, diz que existem casos graves e os tempos da covid, de fato, agravaram as condições de quem já apresentava sintomas de problemas emocionais.

O choque de uma quarentena mais “dura” no primeiro semestre de pandemia fez os jovens se questionarem sobre o que fazer com o tédio e as relações familiares forçadamente mais próximas.

“A experiência do tédio, de repensar sua vida, de pensar na criação de um projeto de futuro, causou sofrimento porque pensar sobre a sua condição existencial traz angústia”, diz a especialista.

Após quase dois anos de pandemia, Lee Fu-I relata ter se deparado com casos de “destreino, de uma falta de habilidade social, porque o que tinha que ter sido aprendido dos 15 aos 18 anos, no final da adolescência, não foi aprendido”. “Mas eles vão aprender”, diz ela.

Crianças e adolescentes precisam de atenção especial

Uma revisão de diversos estudos realizados pelo mundo sobre os impactos do prolongamento da pandemia conclui que, no geral, as pessoas têm se saído bem resilientes e talvez até melhores desse período, mas observa que crianças e adolescentes estão dentro dos grupos que necessitam de atenção especial.

Mas uma parte significativa dos jovens tem achado caminhos de acomodação das novas circunstâncias, afirma Lee. O período também tem levado a reinvenção e adaptação e foi positivo porque os adolescentes começaram a criar projetos caseiros. A situação despertou neles algo como ‘ah, vou aprender uma habilidade nova. Vou pesquisar sobre alguma coisa que seja legal para mim’.

“O ser humano desenvolve resiliência. A maioria acaba se adaptando e inventando um jeito de viver na situação em que se encontra”, diz Enio Roberto de Andrade, do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital das Clínicas de SP.

Quem conta com suporte emocional, principalmente dos pais, tem mais chances de atravessar melhor a pandemia. “Assim como na população geral, os que estavam bem e com algum tipo de acompanhamento conseguiram se adaptar”, avalia ela.

“Claro que quem tem mais poder aquisitivo terá mais condições de conseguir ajuda e assistência médica dentro de um quadro de depressão e ansiedade. A adaptação para adolescentes com poucos recursos tem mais obstáculos”, afirma ele.

Novas estratégias de proteção

A psicóloga Layta Sena Ribeiro observou uma amostra de como os primeiros meses da pandemia despertaram diferentes reações e comportamentos nos jovens. Ela acompanhou, até julho de 2020, cinco garotos e cinco garotas de uma área periférica de Juazeiro, cidade da Bahia com 220 mil habitantes na divisa com Pernambuco.

Os participantes da pesquisa – que foi a tese de mestrado da psicóloga pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) – também mencionaram que começaram a prestar mais atenção em atividades rotineiras como cuidar de animais, plantar e cozinhar.

“Fiquei surpresa como eles conseguiram criar estratégias de proteção. Algumas delas foram geradas a partir da própria experiência de resiliência, porque a maioria era de adolescentes negros e pobres, criados às vezes só pela mãe ou por uma avó”, conta Layta.

Retomada dos laços familiares

Houve também o contexto de uma retomada de laços familiares. “A presença dessas pessoas e também a própria experiência do isolamento fez com que, de alguma forma, os jovens e seus parentes se religassem. A grande maioria apontou como isso foi importante. Fazer programas caseiros, conversar mais em família”, relata a psicóloga.

Alguns dos jovens mencionaram que o período de reelaboração representou uma oportunidade de amadurecimento que talvez não ocorresse dentro de uma rotina usual. Gustavo Ramires, de 17 anos, morador de Juazeiro, relata que os tempos de pandemia têm sido exigentes, mas renderam mudanças interessantes na vida.

“Me aproximei bastante da minha família. Foi surreal. Nunca fui tanto de papo, preferia ficar dentro do quarto. Tive chance de conversar mais com a minha irmã, por exemplo”, diz. “Alguns conhecidos perderam pai ou alguém da família e isso me fez perceber que a gente não tem essas pessoas para sempre. Fiquei preocupado em não ter passado tempo suficiente com os meus pais.”

O adolescente Gustavo Ramires na orla de Juazeiro

“Me aproximei bastante da minha família. Foi surreal”, diz Gustavo Ramires, de Juazeiro (BA) – Foto: Acervo pessoal 

Ansiedade maior em tempos de pandemia

estudante diz que a paciência foi um dos aprendizados dos tempos de isolamento. Mas conta que tem se sentido mais ansioso nos tempos de coronavírus. Atribui isso mais a uma cobrança excessiva sobre si próprio do que às circunstâncias atuais.

“Quando eu duvido muito de mim mesmo, acabo ficando ansioso. Me cobro demais quando algo não dá certo. Porém, estou conseguindo controlar. Pretendo procurar um psicólogo”, conta o jovem.

Gustavo estuda programação, quer fazer Engenharia da Computação na faculdade e trabalhar fora do Brasil na área. E é a tecnologia que o possibilita manter os contatos sociais, apesar das dificuldades.

“Não peguei covid, mas a pandemia também atrapalhou bastante. Afetou muito o relacionamento com os meus amigos porque nem todos tinham celular. Acabei me afastando de muitos deles. Às vezes a internet caía e a gente não podia conversar”, comenta. “Ao mesmo tempo, jogando [games em plataformas online] conheci pessoas de todo o Brasil e até alguns brasileiros que moram fora e me deram dicas de como é viver no exterior”, afirma Gustavo.

Online ajuda: whatsapp, games ou Discord

O celular e as telas, que causam preocupação pelo consumo em excesso, foram uma válvula de escape nesses tempos. O contato online teve de servir de espaço para o contato social.

“A participação social ocorreu no WhatsApp, nos games, no Discord [plataforma para discussões sobre diversos assuntos]. Vi gente que se envolveu em uma comunidade sobre desenho geométrico ou microrganismos. Claro que nem tudo é saudável nesses ambientes, mas os meios digitais ajudaram a ampliar uma visão de comunidade, de pertencimento”, afirma a psiquiatra Lee.

Recentemente, alguns especialistas começaram a defender que, mais do que o tempo de tela, o conteúdo que é consumido por adolescentes e crianças deve ser mais levado em consideração. No entanto, mesmo em atmosferas construtivas e educacionais há limites.

‘Aula online não foi feita para menor de 18’

Para Enio de Andrade,  “aula online, na verdade, não foi feita para menor de 18 anos. O aprendizado virtual já é difícil para quem tem mais de 18 anos. Quanto mais novo – uma criança, um adolescente – mais difícil é conseguir se concentrar”.

Layta Sena Ribeiro diz que o afastamento hoje já não está sendo tão saudável porque muitas pessoas acabam se acomodando. E isso leva a sedentarismo, a reverberações até físicas que causam prejuízos.

“E o contato físico é importante porque a partir dele a gente constrói de fato relações de densidade. Há colaboração, solidariedade, fatores importantes para a forma como damos significado às nossas experiências”, comenta a psicóloga.

Pode falar: um espaço virtual para adolescentes

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) lançou no começo do ano passado um espaço virtual para adolescentes brasileiros que querem desabafar ou buscar orientação sobre problemas de saúde mental.

Gabriela Mora, oficial do Programa de Cidadania dos Adolescentes do Unicef no país, explica que a iniciativa Pode Falar oferece atendimento humano e cuidado psicológico em parceria com entidades que prestam esse tipo de auxílio.

Ela afirma que a alta demanda pelo serviço ainda não está sendo totalmente absorvida pela atual estrutura, mas diz que o atendimento está sendo ampliado.

O atendimento está disponível em um site e no WhatsApp pelo número 61-9660- 8843.

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