Quem disse que o fim da idade reprodutiva precisa ser um “apagão” geral na vida? No palco do Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello provam exatamente o contrário. Em uma curtíssima temporada que vai até o dia 12 de abril, o musical ‘Cenas da Menopausa‘ transforma o que muitos consideram um tabu em um espetáculo vibrante, hilário e, acima de tudo, necessário.
A convite da produção, eu e a amiga e também jornalista Cristina Nunes (do blog Literatura é Bom Pra Vista), fomos na última quinta-feira (2/4) assistir à estreia da nova temporada do espetáculo no Rio, após fazer sucesso na cidade em outubro de 2025 e em outras capitais como São Paulo e Curitiba, além de rodar por Portugal. E saímos de lá muitos mais informadas e até mesmo aliviadas ao receber informações úteis de forma leve e divertida, ajudando a quebrar nossos próprios tabus, que muitas vezes alimentamos por medo, desconhecimento ou vergonha.
Afinal, assim como a morte, a única certeza que nós, mulheres – mães ou não mães – , temos na vida é que, envelhecendo, todas nós chegaremos à menopausa. Aliás, com a taxa de envelhecimento cada vez mais elevada no Brasil, podemos passar de 30 a 40 anos neste “segundo ato” das nossas vidas – incluindo as fases do climatério (perimenopausa) e pós-menopausa. Portanto, é bom procurarmos “fazer do limão a limonada”. A peça prova que é possível viver bem e plenamente, apesar dela.
A ciência entra em cena: o fim da negligência médica
A peça utiliza a estrutura das “fases do luto ovariano” — choque, negação, revolta, depressão, barganha e aceitação — para narrar a jornada de Teresa (Claudia Raia), uma mulher multitarefa de 49 anos, casada há 18, mãe de dois filhos e sobrecarregada no trabalho como corretora de imóveis. Em meio à rotina multitarefa do dia a dia, ela se vê diante de ondas de calor intensa e névoas mentais, os primeiros sintomas da menopausa.
Através de paródias de clássicos da música pop dos anos 80 e 90 como“Fever/Hot Stuff/Flashdance”, “Total Eclipse of the Heart”, “Like a Virgin” e “I Will Survive”, o texto de Anna Toledo humaniza os sintomas e convida a plateia a rir de situações que, isoladamente, podem parecer desesperadoras.
Em meio a diversas troca de figurinos em pleno palco, na frente do público, Claudia e Jarbas interpretam diversos personagens ao longo do espetáculo. Além de trazer um mix de divas 50+ que aparecem na abertura do espetáculo, a atriz dá vida a outras personagens hilárias:
- Laurinha, mulher com mais de 50 anos, divorciada, sarada, jovial e em absoluta negação diante dos sintomas da menopausa;
- Gilda, mulher com mais de 60 anos, divorciada, hippie e desencanada, cujo marido a trocou por uma jovem de 20 e poucos; e
- Isabel, uma cinquentona super executiva, workaholic, sem tempo para cuidados pessoais e cliente de Vini Visage, (interpretado por Jarbas).
Além de Mario, marido de Teresa, Jarbas Homem de Mello interpreta Alberto, ex-marido de Gilda, 60 anos; um vidente que trabalha com realinhamento energético, joga tarô e búzios; uma vendedora, um médico, uma freira e a cantora Madonna; Vini Visage – cabeleireiro e influencer no YouTube. Quem arranca muitas risadas do público é tia Judite, uma senhorinha rabugenta de 75 anos que descobriu uma forma prazerosa de tratar a incontinência urinária decorrente da pós-menopausa.
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Ela viveu tudo isso na pele
O texto é inspirado na experiência pessoal de Claudia Raia, acompanhada de perto pelo marido, Jarbas Homem de Mello. Em seu terceiro casamento, Claudia engravidou aos 55 anos de Luca – seu terceiro filho e o primeiro de Jarbas – , por métodos naturais, em meio ao processo de menopausa. A gestação, anunciada em 2022 foi considerada um caso raro e gerou grande repercussão. A atriz já é mãe de Enzo (27) e Sophia (21), frutos de seu relacionamento anterior com Edson Celulari.
Segundo Claudia Raia, tudo que é mostrado no espetáculo foi vivenciado por ela na vida real. Ela resolveu buscar ajuda quando marido, filhos e pessoas próximas começaram a notar os sintomas, sobretudo no seu comportamento, cada vez mais irritadiço. Diante de uma enxurrada de dúvidas, ela recorre até ao misticismo para tentar entender os sinais e não sabe como abordar o novo momento com o parceiro “na hora H”.
Quando a gente resolveu fazer esse espetáculo, logo decidimos que teria que ser uma comédia, pra falar com graça e leveza de um assunto que pode ser tão pesado. O processo criativo foi muito em cima das experiências da Claudia com a menopausa, da minha experiência como marido e também da autora Anna Toledo, que está passando por esse momento”, conta Jarbas Homem de Mello.
Anna Toledo, que assina o texto e as versões musicais do espetáculo, conta como recebeu o convite para escrever e dirigir a peça. “Na época em que a Claudia Raia me convidou para escrever, eu estava em pleno climatério, atordoada com o que estava descobrindo sobre essa fase para a qual nada havia me preparado. Foi chocante perceber o meu despreparo para algo que acontece, aconteceu e acontecerá com absolutamente todas nós.”
O mito da terapia hormonal
O ponto alto da experiência, no entanto, transcende a dramaturgia. Após o espetáculo, os atores promovem um bate-papo franco com o público. Claudia e Jarbas tornam-se porta-vozes de uma urgência médica: a menopausa não pode mais ser negligenciada pela ciência. Durante décadas, o corpo feminino foi deixado em segundo plano em pesquisas clínicas, muitas vezes sob a justificativa de que as oscilações hormonais “atrapalhavam” os dados.]
O resultado? Uma geração de mulheres que ouviu que deveria “sofrer em silêncio”, como faziam suas avós. Mas o cenário mudou. Hoje, a medicina moderna, respaldada por instituições renomadas como Harvard, aponta que a terapia hormonal, quando bem indicada, é uma poderosa aliada na prevenção de doenças.
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Proteção cerebral e cardíaca: A queda do estrogênio e da testosterona afeta mais de 400 funções no organismo. A reposição adequada pode reduzir em até 30% o risco cardíaco e atua na prevenção de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e demência.
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Desmistificando o câncer: Um dos grandes fantasmas que assombra a terapia hormonal vem de estudos de 2002 que foram, em grande parte, reinterpretados. Dados atuais mostram que a terapia pode ser, inclusive, preventiva em certos contextos, ajudando a evitar a involução mamária severa.
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Saúde sistêmica: Além dos famosos “fogachos” e da constrangedora secura vaginal, que afeta a vida sexual de milhares de mulheres, a menopausa pode causar mais de 150 sintomas diferentes, como zumbido no ouvido, olho seco, urticária e quadros de pânico. Identificar esses sinais é o primeiro passo para retomar a qualidade de vida.
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A janela de oportunidade
Um conceito crucial discutido no pós-show é a “janela de oportunidade”. Existe um período ideal para iniciar o tratamento que garante os benefícios sistêmicos, muitas vezes estendendo-se até os 60 ou 67 anos, dependendo da avaliação individual. Buscar ajuda não é um sinal de fraqueza, mas de inteligência estratégica para quem planeja viver os próximos 40 anos com vigor e libido.
Como bem destacou Claudia Raia durante a interação com a plateia, a mulher de 50 anos de hoje não está “descrita” nos manuais antigos: ela está em alta potência, trabalhando, amando e produzindo. A menopausa é um assunto da família inteira — pais, filhos e parceiros precisam entender que o acolhimento é o mínimo, mas a ciência é o caminho.
A menopausa não é um fim, é um recomeço – e agora um espetáculo! Subo no palco para dar voz a essa revolução, com humor, verdade e emoção. Já falamos de tantos tabus, por que não esse? No palco, sou muitas; na plateia, somos milhões – e juntas, seguimos mais livres.”, define Claudia Raia.
Para Jarbas, o bate-papo com a plateia no desfecho do espetáculo virou “quase um momento de desabafo das mulheres, que percebem que não estão sozinhas”. ‘Cenas da Menopausa’ é, portanto, mais que um musical; é um serviço público.
Entre uma gargalhada e outra, saímos do teatro com a certeza de que a invisibilidade ficou no passado. A “moça de 50+” finalmente tomou o seu lugar sob os holofotes, em uma época em que nossa longevidade aumenta ano após ano. E pode escolher como quer chegar ao “segundo ato” da sua vida.
Serviço:
Cenas da Menopausa
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Local: Teatro João Caetano (Praça Tiradentes, Centro, Rio de Janeiro)
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Temporada: Até 12 de abril de 2026
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Sessões: Quarta a sexta (19h), Sábado (18h) e Domingo (17h)
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Ingressos: A partir de R$ 50 (meia-entrada) em funarj.eleventickets.com










