O novo laudo da perícia médica da Polícia Federal, divulgado nesta sexta-feira (6/2), funciona como um balde de água fria na estratégia da defesa de Jair Bolsonaro. O documento, assinado por médicos oficiais e  entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), é categórico: embora o ex-presidente possua doenças crônicas que demandam atenção, o ambiente da Papudinha, onde ele ocupa uma Sala de Estado-Maior adaptada, é plenamente compatível com o tratamento necessário.

A perícia, realizada em 20 de janeiro, servirá como base  para o ministro Alexandre de Moraes  decidir sobre o pedido de prisão domiciliar humanitária feito pela defesa. A conclusão esvazia a tese de “vulnerabilidade extrema” alimentada pela família Bolsonaro nos últimos meses e reforça que a estrutura montada para o ex-mandatário não apenas cumpre a lei, como oferece recursos indisponíveis para a imensa maioria dos detentos brasileiros.

O raio-x clínico: as comorbidades relatadas

Abaixo, detalhamos cada problema de saúde citado no laudo e como eles se relacionam com o histórico do ex-presidente, trazendo links para nossas coberturas anteriores sobre esses temas:

Estrutura VIP: por que Moraes deve negar a domiciliar

A defesa tentou argumentar que o ambiente carcerário causaria uma “descompensação súbita”. No entanto, o laudo revelou que Bolsonaro possui hoje um atendimento médico superior ao de qualquer cidadão livre:

  1. Ambulância 24h: Uma unidade avançada do SAMU com médico e enfermeiro fica estacionada no batalhão exclusivamente para ele.

  2. Adaptações físicas: A cela de 40 $m^2$ recebeu barras de apoio e grades na cama para evitar quedas, anulando o argumento da “fragilidade física”.

  3. Saúde mental: Bolsonaro negou acompanhamento psiquiátrico, disse estar “lúcido” e relatou bom humor, conversando diariamente com os guardas.

O contraste com o sistema prisional comum

A crítica relevante que surge deste laudo é o conflito de isonomia. Enquanto o sistema penitenciário do DF enfrenta uma superlotação de 150%, com presos comuns dividindo celas ínfimas e sem assistência básica, Bolsonaro desfruta de fisioterapia, caminhadas acompanhadas e alimentação levada pela família.

O laudo da PF confirma que a “vulnerabilidade” alegada pelos filhos do ex-presidente é, na verdade, um quadro clínico estável e monitorado por uma equipe que a grande maioria dos 16 mil presos do DF jamais terá acesso.

Próximos passos

Moraes enviou o laudo para manifestação da PGR (Paulo Gonet). Com a confirmação médica de que a Papudinha é adequada, a tendência é que o pedido de prisão domiciliar seja definitivamente negado nas próximas semanas.

Saúde sob controle e o fim do discurso da “morte iminente”

A defesa buscava, através de uma lista de 39 perguntas aos peritos, provar que a manutenção de Bolsonaro no cárcere equivaleria a uma sentença de morte. No entanto, o relatório da PF detalha um quadro clínico estável:

  • Diagnósticos confirmados: Hipertensão, apneia do sono grave, obesidade e aderências abdominais (herança das cirurgias pós-facada).

  • O “Veredito”: Os peritos afirmam que as doenças estão sob “controle clínico” e que não há indicação de internação hospitalar, muito menos de regime domiciliar.

  • Estado Mental: Ao contrário do que sugeriam aliados sobre um suposto quadro depressivo, o laudo descreve Bolsonaro como lúcido, orientado e com “boa disposição para o diálogo”, mantendo inclusive o humor eutímico (estável).

As “regalias” médicas: o que a Papudinha oferece e o sistema comum ignora

O laudo recomenda cuidados que já foram ou estão sendo implementados na unidade do 19º Batalhão da PM, evidenciando o esforço do Estado em garantir a integridade do preso:

  1. Monitoramento 24h: Uma unidade avançada do SAMU com enfermeiro e médico de plantão exclusiva para atender o ex-presidente.

  2. Adaptações Físicas: Instalação de barras de apoio, grades na cama para evitar quedas e campainhas de emergência.

  3. Rotina de Bem-Estar: Bolsonaro relatou aos médicos que realiza caminhadas diárias de 1 km sob escolta, usa aparelhos de musculação e assiste a programas esportivos na TV.

  4. Dieta e CPAP: O uso do aparelho para apneia e o fracionamento da dieta (abastecida por Michelle Bolsonaro) são perfeitamente executáveis no alojamento atual.

A reação da defesa e o conceito de Isonomia

Em nota, a defesa de Bolsonaro tentou uma última manobra semântica, alegando que o laudo não diz “expressamente” que ele pode ficar preso, mas apenas que não precisa de hospital. Todavia, a lógica jurídica de Moraes tem sido clara: se o ambiente prisional pode oferecer o que o médico prescreve, o direito à saúde está garantido sem necessidade de soltura.

A crítica que emerge deste cenário é a do tratamento desigual. Enquanto o laudo detalha a necessidade de “dieta fracionada” e “fisioterapia contínua” para Bolsonaro, o sistema prisional do DF opera com 150% de ocupação, onde presos comuns mal conseguem acesso a um clínico geral para tratar doenças infectocontagiosas básicas.

A manutenção de um preso em condições de excelência clínica (como Bolsonaro) enquanto a massa carcerária vive em ambientes insalubres e superlotados cria um desequilíbrio que favorece a propagação de doenças.

“Bolsonaro relatou melhora do ambiente com a transferência e busca se manter emocionalmente equilibrado, conversando com guardas e focando em sua prática religiosa.” — Trecho do Laudo da PF.

A decisão final de Moraes agora aguarda o parecer do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, mas o destino de Bolsonaro parece selado, ao menos por ora, entre as paredes da Papudinha.

O balanço da custódia: o que a defesa pediu X o que o STF garantiu

A estratégia da defesa foi clara: listar o máximo de necessidades para provar que só a residência de Bolsonaro seria adequada. No entanto, o STF e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape-DF) transformaram a Sala de Estado-Maior em uma extensão clínica para manter o ex-presidente preso.

Tabela Comparativa: Exigências e Realidade

Item Solicitado pela Defesa Decisão do STF / Situação Atual Justificativa / Contexto
Prisão Domiciliar Humanitária NEGADO O laudo da PF confirmou que as doenças são tratáveis no cárcere.
Assistência Médica 24h GARANTIDO Equipe do SAMU e médico militar em sistema de rodízio exclusivo no 19º BPM.
Fisioterapia e Musculação GARANTIDO Acesso a aparelhos de musculação e sessões de fisioterapia na unidade.
Alimentação Especial GARANTIDO Autorizado que a família (Michelle) entregue refeições preparadas externamente.
Medidas de Anti-queda GARANTIDO Instalação de barras de apoio e grades de proteção na cama.
Smart TV (Streaming) NEGADO Moraes considerou um privilégio indevido; ele tem acesso apenas à TV comum.
Visitas Fora de Horário GARANTIDO Michelle e filhos possuem regime de visitas diferenciado das alas comuns.

O “filtro” de Moraes: Onde o privilégio vira abuso

A negativa da Smart TV e do acesso irrestrito à internet foi o ponto onde o magistrado traçou a linha. Em sua decisão, Moraes ressaltou que a custódia deve garantir a integridade física e a saúde (conforme o artigo 5º da Constituição), mas não pode oferecer entretenimento e comunicação que outros presos não possuem.

A defesa alegou que a TV seria necessária para “saúde mental” e “distração”, mas o laudo da PF ironicamente enfraqueceu esse argumento ao mostrar um Bolsonaro lúcido, que se diverte assistindo a programas esportivos na TV aberta e conversando com os policiais da guarda.

Crítica e contexto: A “Papudinha” como exceção à regra

Enquanto a defesa insiste na tese de que a falta de uma Smart TV ou de um jardim privativo configura “tortura psicológica”, os dados oficiais do sistema penitenciário do DF mostram uma realidade de urgência:

  • Superlotação: No Complexo da Papuda, há celas onde presos dormem no chão por falta de espaço físico.

  • Tratamento de Saúde: A espera por um especialista no sistema comum pode levar meses; Bolsonaro tem um médico a poucos metros de sua cela.

  • Alimentação: Enquanto o ex-presidente rejeita a “quentinha” da prisão por opção, milhares de detentos dependem exclusivamente dela, muitas vezes denunciando a baixa qualidade nutricional.

A decisão de manter Bolsonaro na Papudinha, com todas essas adaptações, retira o argumento da “vulnerabilidade” e coloca a defesa em um beco sem saída jurídico: se o Estado oferece tudo o que o médico prescreveu, não há razão legal para a soltura.

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