Neta do apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, a influenciadora digital Bruna Furlan, de 24 anos, anunciou nesta quinta-feira, 8, que foi diagnosticada com câncer de mama. Ela revelou em um vídeo publicado nas redes sociais que descobriu a doença em dezembro, e que se trata de um carcinoma mamário invasivo do tipo não especial, com expressão de receptores hormonais, HER2 negativo e presença de metástases.

O caso reacendeu o debate sobre a incidência da doença em mulheres jovens e a necessidade de ampliar a informação qualificada.  O relato trouxe novamente à tona um alerta que vem ganhando força na literatura médica: embora ainda seja considerado raro, o câncer de mama em mulheres jovens tem aumentado de forma consistente e impõe desafios específicos no diagnóstico, no tratamento e no acompanhamento a longo prazo.

Estudos internacionais reforçam esse movimento. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da American Cancer Society (ACS) indicam que, nos últimos 30 anos, os casos de câncer em adultos com menos de 50 anos cresceram quase 80% globalmente. No câncer de mama, a elevação é ainda mais evidente entre mulheres jovens.

Casos como o de Bruna fogem do perfil epidemiológico mais frequente da doença, historicamente associada a mulheres acima dos 40 ou 50 anos. Ainda assim, especialistas reforçam que a idade, isoladamente, não protege contra o câncer e, quando o diagnóstico ocorre precocemente, a abordagem clínica precisa ser mais cuidadosa e individualizada.

Antes dos 30, 40 e 50 anos: o câncer de mama em mulheres jovens apresenta desafios específicos

Embora a maior incidência do câncer de mama ocorra após os 50 anos, uma parcela significativa dos diagnósticos atinge mulheres consideradas jovens do ponto de vista oncológico (abaixo dos 30, 40 e 50 anos). Nesses grupos etários, a doença tende a apresentar características biológicas mais agressivas, impacto ampliado sobre a vida reprodutiva e profissional e maior complexidade terapêutica.

O diagnóstico de câncer de mama em mulheres com menos de 30 anos ainda é raro quando observado sob a ótica epidemiológica global. No entanto, quando ocorre, costuma estar associado a tumores biologicamente mais agressivos, com maior taxa de proliferação celular e maior probabilidade de subtipos menos responsivos às terapias hormonais. Esse padrão, embora menos frequente em números absolutos, impõe desafios clínicos relevantes e exige abordagem especializada desde o início do tratamento.

Dados do Globocan 2022, o levantamento mais recente da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, ajudam a dimensionar esse cenário. Em todo o mundo, foram registrados 40.919 casos de câncer de mama em mulheres de zero a 29 anos.

O número cresce de forma expressiva nas faixas etárias seguintes, alcançando 246.060 diagnósticos entre mulheres de zero a 39 anos e 668.650 casos até os 49 anosConsiderando todas as idades, o total chega a 2.296.840 novos casos em 2022, consolidando o câncer de mama como o tipo mais incidente entre mulheres em escala global, excluídos os tumores de pele não melanoma.

Na oncologia, mulheres diagnosticadas antes dos 40 e mesmo antes dos 50 anos também são frequentemente classificadas como mulheres jovens, não apenas pela idade cronológica, mas pelos impactos específicos da doença nessa fase da vida. Questões relacionadas à fertilidade, maternidade, carreira profissional, imagem corporal e saúde mental tornam o cuidado mais complexo.

Ainda assim, é fundamental destacar que a maior incidência do câncer de mama permanece concentrada após os 50 anos, especialmente no período pós-menopausa. As faixas etárias mais jovens representam uma proporção menor do total de casos, mas exigem atenção diferenciada pela maior agressividade média dos tumores e pelo potencial de diagnóstico em estágios mais avançados.

No Brasil, o câncer de mama é responsável por cerca de três em cada dez casos de câncer entre mulheres e permanece como a neoplasia feminina mais incidente em mais de 157 países. Informações do Ministério da Saúde indicam que 22,6% dos diagnósticos ocorrem em mulheres entre 40 e 49 anos, grupo que passou a integrar o rastreamento sistemático na rede pública.

Como demonstrado no Globocan 2022, cerca de 30% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama têm menos de 50 anos, proporção que vem crescendo de forma contínua, sobretudo em países de renda média e baixa, onde o acesso ao rastreamento é mais limitado.

Câncer de mama triplo negativo

 Entre os subtipos tumorais mais associados a mulheres jovens está o câncer de mama triplo negativo (que não possui receptores de estrogênio e progesterona e também é negativo para a proteína HER2). Essa característica biológica limita o uso de terapias-alvo e hormonioterapia, tornando a quimioterapia a principal estratégia sistêmica inicial.

Por não responder ao tratamento hormonal, o tratamento inicial costuma ser a quimioterapia, muitas vezes associada à imunoterapia, seguida da cirurgia para retirada do tumor”, explica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO.

Do ponto de vista clínico, os tumores triplo negativos costumam gerar maior apreensão entre as pacientes, justamente por sua agressividade potencial. O cirurgião oncológico Juliano Cunha, diretor de Comunicação da SBCO e presidente do Congresso Brasileiro de Câncer na Mulher, a ser realizado em agosto em Belo Horizonte, contextualiza esse impacto.

Os tumores triplo negativos têm uma característica de agressividade maior do que os tumores hormonais, os chamados subtipos luminais. Por isso, acabam causando mais medo. Em sua maioria, quando maiores são tumores tratados com quimioterapia antes da cirurgia, o que chamamos de quimioterapia neoadjuvante”, afirma.

A adoção da quimioterapia antes do procedimento cirúrgico não elimina a necessidade da cirurgia, mas oferece vantagens importantes no planejamento do tratamento. Segundo o cirurgião oncológico e mastologista Juliano Cunha, diretor de Comunicação da SBCO, essa estratégia permite avaliar a resposta tumoral ao tratamento sistêmico e, em alguns casos, possibilita cirurgias mais conservadoras.

A princípio, a estratégia cirúrgica não muda, mas o tratamento pré-operatório pode aumentar a chance de evitarmos uma mastectomia. Hoje, para tumores acima de um centímetro, a indicação é iniciar pela quimioterapia e depois realizar a cirurgia. Essa é a principal orientação nesses casos”, explica.

Outro aspecto central no cuidado das mulheres jovens com câncer de mama é o risco de recidiva. Tumores triplo negativos apresentam taxas mais elevadas de recorrência nos primeiros anos após o tratamento, especialmente quando não há resposta patológica completa à quimioterapia. Dados de centros internacionais de referência, como o MD Anderson Cancer Center, indicam que pacientes que permanecem livres da doença após cinco anos têm risco residual baixo, em torno de 2% a 3%, independentemente do estágio inicial. Ainda assim, o acompanhamento rigoroso nos primeiros anos é considerado fundamental.

O risco de recidiva é mais acentuado especialmente nos dois primeiros anos”, complementa Viviane Rezende de Oliveira. A recorrência pode ocorrer na mama operada, em linfonodos regionais ou em órgãos distantes, como pulmão, fígado, ossos e cérebro. Por isso, o seguimento clínico estruturado e a atuação de equipes multidisciplinares são determinantes para a detecção precoce de eventuais recaídas.

Apesar de não ser possível prevenir todos os casos de câncer de mama, especialmente aqueles associados a maior predisposição hereditária, há evidências de que hábitos de vida saudáveis contribuem para a redução do risco. Manter peso corporal adequado, praticar atividade física regularmente, evitar o tabagismo, limitar o consumo de bebidas alcoólicas e realizar acompanhamento médico periódico são medidas amplamente recomendadas. A atenção a sinais clínicos também é decisiva, independentemente da idade. Nódulos mamários, alterações na pele da mama, mudanças no mamilo, secreções anormais ou caroços nas axilas devem sempre motivar investigação médica.

Por que diagnósticos em mulheres jovens exigem outro olhar da oncologia

Segundo a oncologista Marcela Bonalumi, a idade média das pacientes com câncer de mama no Brasil é mais baixa do que a observada em outros países. “Em coortes da população brasileira, a mediana é de 53 anos, abaixo do que vemos em outras regiões do mundo. Isso, inclusive, é uma das justificativas para recomendações do ‘screening’ de exames de prevenção, como a mamografia, serem realizados a partir dos 40 anos, porque o Brasil, diferente de outros países, tem o maior número de pacientes jovens com câncer de mama, que vem crescendo ano a ano.”

Ela reforça ainda que ter um diagnóstico aos 24 anos não é comum, mas já não pode ser tratado como exceção absoluta. “Sempre que temos uma paciente muito jovem, abaixo dos 30-40 anos, devemos pensar em causas genéticas, hereditárias. Ou seja, a paciente herdou, de alguém da família, algum defeito genético que faz com que ela tenha maior suscetibilidade de desenvolver um câncer de mama.”, explica Bonalumi.

O mastologista Guilherme Novita destaca que o aumento é estatisticamente relevante, embora o número absoluto ainda seja pequeno. “Em mulheres com menos de 35 anos esse número praticamente dobrou, mas continua sendo muito pequeno. Tínhamos 1,7 caso a cada 100 mil mulheres e temos agora 3,5 casos a cada 100 mil mulheres. É muito raro ainda, mas houve, sim, um aumento – que pode ter ocorrido, talvez, por estarmos diagnosticando mais”.

O que significa um carcinoma mamário invasivo do tipo não especial

No caso divulgado pela influenciadora, o tumor foi descrito como carcinoma mamário invasivo do tipo não especial, a forma mais comum da doença. “Cerca de 99% dos diagnósticos são carcinomas, já 85% dos casos de câncer de mama são carcinomas invasivos do tipo não especial, que consideramos o tipo ‘básico’ da doença”, detalha Novita.

A oncologista complementa que essa classificação é definida na análise patológica. “A definição é dada pelo patologista. No momento da biópsia, ele analisa a parte do tumor que foi retirada e, por meio de características que ele avalia via microscópico, consegue definir se é um carcinoma de mama invasivo não especial”.

Idade não muda o tratamento, mas influencia o prognóstico

Do ponto de vista técnico, a idade não determina sozinha o tratamento, que depende do subtipo molecular e do estadiamento da doença. “No geral, o tratamento envolve sempre cirurgia e, em casos selecionados, quimioterapia, terapias-alvo e radioterapia.”, explica Bonalumi.

Ainda assim, pacientes muito jovens exigem atenção especial. “O câncer de mama nessa faixa etária possui, geralmente, uma agressividade um pouco maior. Contudo, isso não quer dizer que ele não tenha tratamento”, afirma o mastologista.

Rastreamento e atenção aos sinais

O diagnóstico de câncer de mama em mulheres jovens também expõe uma lacuna importante nas estratégias tradicionais de rastreamento da doença. Construídas a partir de dados populacionais, as recomendações atuais priorizam faixas etárias de maior incidência, o que pode dificultar a detecção precoce em pacientes abaixo dos 40 anos, justamente onde os exames de rotina não são indicados de forma sistemática. Nesse cenário, a atenção aos fatores de risco individuais, ao histórico familiar e aos sinais clínicos torna-se decisiva para antecipar a investigação. A mamografia, no entanto, segue como o principal exame de rastreamento a partir dos 40 anos.

O exame de rastreamento para o câncer de mama é mamografia e nenhum outro a substituí. Ela deve ser realizada anualmente para todos os pacientes acima de 40 anos. Abaixo dessa idade, os exames para mama devem ser solicitados de acordo com a história particular da paciente”, conclui Marcela Bonalumi.

Embora ainda raro, o câncer de mama em mulheres jovens é uma realidade crescente. Casos como o de Bruna Furlan ajudam a ampliar a discussão pública, reforçando que informação, atenção aos sinais do corpo e acesso a avaliação especializada continuam sendo ferramentas centrais para diagnóstico e tratamento adequados, independentemente da idade.

Com Assessorias

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